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Sunday, February 7, 2016

Apuleius dixit: mulheres, cuidado com a tesoura



Há dias estávamos cá em casa a ver os episódios mais recentes de Big Bang Theory e comentámos como Kaley Cuoco, a adorável Penny, perdeu imenso ao ter cortado as suas madeixas. É que há mulheres que ficam bem de cabelo bastante curto - não só lhes dá um ar mais sofisticado como lhes acentua os traços - mas sempre tive para mim que há poucas que fiquem melhor assim. São mais as que apenas escapam com isso sem estragar a beleza toda. 



Atenção-  é verdade  que mulheres realmente belas não precisam de se esconder atrás de um cabelão (recurso imediato de algumas raparigas vistosas, mas de traços grosseiros e gosto duvidoso).

 Mas não deixa de haver algo de mágico, de eterno feminino, num cabelo longo q.b. e bem tratado, penteado adequadamente sem exageros, brilhante, sedoso, aveludado, da sua cor e textura naturais ou se, avivado ou transformado por qualquer artifício, tão perfeitamente cuidado que tal não se note em raízes crescidas, pontas espigadas nem aquele horrível ar de "graxa" ou "palha".

A não esquecer também que as proporções e o estilo de cada uma contam muito: por vezes, quem decide fazer um corte radical pensa apenas se lhe vai bem ao rosto ou não, descurando o resto do corpo e a forma como costuma vestir. Regra geral, sempre  me pareceu que mulheres mais atléticas, curvilíneas ou cheiinhas, com busto acentuado e ombros largos -como  Kaley Cuoco - não ganham tanto em usar o cabelo muito curto: dá ideia que lhes faz a cabeça demasiado pequena em cima do resto, a não ser que optem por um estilo clássico, requintado, muito composto e pouco revelador (vide Morena Baccarin em "V" ou Robin Wright em "House of Cards"). 



Quem tem curvas, se quer cortar, melhor fará em optar por um penteado médio e bem feminino, estilo anos 50, como o de Marilyn Monroe e Ava Gardner.



Numa mulher franzina, uma Kate Moss, uma Twiggy ou Mia Farrow, o caso é outro; essas suportam melhor o "pixie cut" ou "corte à rapaz", dependendo tal escolha apenas do gosto pessoal por um look mais ou menos feminino no sentido tradicional do termo. 



Depois, uma coisa é a sofisticação, outra muito diferente é o sex appeal; uma coisa é a moda e o que agrada à fantasia das mulheres, outra é o que apela ao sexo oposto (pense-se em sex symbols como Brigitte Bardot, Raquel Welch, nos Anjos da Victoria´s Secret, todas do agrado "deles").  É preciso encontrar esse equilíbrio delicado dentro do bom gosto. Mas sou suspeita, pois acredito no que as avós me diziam: quem tem um cabelo bonito, é uma pena não tirar partido dele. Sendo que tirar partido não é necessariamente andar por aí com uma "peruca" enorme, sem corte ou volumosa em demasia, fazendo pouco caso do conjunto.

Pensando nisto, lembrei-me deste texto encantador sobre o assunto, da Metamorfose (vulgo, O Asno de Ouro) de Lucius Apuleius:


"(...) se se cortam os cabelos das mais bela das mulheres, despojando a sua face desse ornamento natural, ainda que ela tivesse descido dos céus (...) fosse a própria Vénus, não poderia agradar, nem sequer a Vulcano. Que há de mais encantador do que cabelos de linda cor, propriamente penteados, que lançam ao sol um clarão doce ou brilhante deixando diversamente deslumbrados os olhos? Não é também um encanto ver uma quantidade de cabelos artisticamente levantados no alto da cabeça ou de um comprimento raro, esparsos e flutuantes sobre os ombros?".

O nobre escritor romano falava a verdade na óptica masculina. É que já se sabe, os homens nisto querem a eterna Vénus...agradam-lhes as madeixas a compor o conjunto, as ondas onde gostam de correr os dedos. Nada a fazer. Em todo o caso é só cabelo, logo volta a crescer: cada uma que faça do seu o que achar melhor, desde que não insista em dar-lhe uma tesourada para a seguir se lamentar, como um Sansão de saias, que perdeu a força da sua feminilidade. Para isso é que não há paciência...

Isto é alarmante. Meus ricos livros. Minha rica independência mental.



E meus ricos filhos, caso algum dia venha a ser mãe, este estado de coisas se mantenha, se espalhe para estes lados e eu me veja obrigada a mandá-los para uma universidade que os sujeite a tais desvarios.

Lembram-se de termos falado de como certos comediantes americanos se estão a recusar a actuar em campus universitários porque os estudantes politicamente correctos, cheios de ideias "ultra liberais" se ofendem com tudo e vêem racismo/sexismo até num mosquito? Ou de como as feministas pediram numa conferência que não se aplaudisse os oradores, para não causar aflição a almas traumatizadas? 

Pois uma amiga aqui do blog, a propósito do post de ontem, enviou-me este artigo do Público que dá conta de como um movimento de estudantes norte-americanos pede para que os universitários sejam "protegidos de livros perturbadores". O que para começo de conversa, em Democracia e no sec. XXI é no mínimo estranho. 

Mas mais esquisito ainda é que não estamos a falar de proibições como houve em tempos idos, que mal ou bem, concorde-se ou não, acabavam por ter alguma lógica pelo menos à luz do tempo. Não estamos a falar de livros que ponham ideias malucas na cabeça das pessoas, que incitem contra qualquer religião ou regime político ou vá, passíveis de chocar, de apelar à violência ou de provocar convulsões na sociedade. Nada parecido com passagens do Alcorão censuradas, como se fez na Turquia, para evitar que fanáticos as tomassem ao pé da letra; nem com o Mein Kampf; nem sequer, vá, com as obras do Marquês de Sade.


Nada disso. Estes meninos e meninas sensíveis, criados com o espírito em algodão em rama e nutridos a finais felizes querem, "em nome do bem estar emocional" ser resguardados de obras que tenham passagens que lhes façam confusão.

Sabem como em pequenos vocês pediam aos pais "não contem mais, não quero ouvir o resto" quando o lobo estava prestes a comer a avó do Capuchinho ou coisa assim? Isso, mas em adultos. 

Ou seja, estas flores de estufa exigem preservar as suas frágeis e liberais mentes pró aborto e eutanásia, pró liberalização das drogas, anti armas e anti-slut shaming contra "papões" tão horríveis  como os contos de Andersen, as Metamorfoses de Ovídio (e outros clássicos romanos e gregos), O Grande Gatsby, Anna Karenina, as obras de Kafka, Virginia Woolf, James Joyce ou mesmo de Fernando Pessoa. Ou seja, tudo livros perfeitamente subjectivos e até brandos mas que -ai Jesus - possam conter "elementos perturbantes" como alusão à violência doméstica, à depressão ou ao suicídio.

Ou seja, a sua preocupação não é tanto com o impacto negativo geral que qualquer destas obras possa hipoteticamente ter, mas com o facto de acordar chiliques na mente fraquinha de quem os lê. Tudo típico de uma geração que adora responsabilizar "os outros" pelas consequências dos seus desmandos.


De resto, o delírio- pois não há outro nome - tem ido tão longe que não se estende só à literatura. Alguns futuros advogados de Harvard, lembra o artigo, pediram que a lei sobre violação não fosse leccionada, porque a mera menção da palavra podia "acordar traumas" em estudantes que tivessem sido vítimas desse crime. Como é que esperam estudar Direito de modo a ajudar alguém no futuro, escapa-me. Talvez contem que quando acabarem o curso os protestos e campanhas feministas tenham erradicado o flagelo da face da terra (antes fosse). Mas também é uma excelente desculpa para ter menos matéria para estudar. Já agora não estudem também o enquadramento legal para o homicídio, porque não é suposto acontecerem tais coisas. E os estudantes de Psiquiatria também podem boicotar as aulas, porque num mundo ideal não existem psicoses, gente depressiva nem psicopatas.

Isto ultrapassa o "crime pensar" que eu temia que se instalasse ou a infantilização da sociedade. Isto é a loucura completa, capaz de deixar a um canto todas as personagens doidas de Alice no País das Maravilhas.






Saturday, February 6, 2016

Michael Jackson dixit: do you remember the time?


Há dias apeteceu-me rever este vídeo, porque sempre gostei de danças do mundo empregadas num contexto diferente. Adoro quando um artista pega em folclore para o incorporar noutra coisa. Dedicasse eu a minha vida à música, ia decerto incluir pauliteiros de Miranda e o nosso fandango num videoclip, ´tão a imaginar?



Eu tive muita pena de Michael Jackson, cantor que marcou a minha infância. Nunca acreditei nas maldades de que o acusavam, sinceramente: acho que teve a pouca sorte de nascer diferente dos demais, dotado de um génio que não ligava bem com o mundo real e isso, adicionado aos problemas familiares e de saúde, fez com que não conseguisse lidar com o seu estatuto de superstar. Mas ainda que o chamassem cruelmente wacko jacko devido à sua excentricidade, o seu legado é inegável.



Deixou-nos música e momentos pop verdadeiramente extraordinários, bem como um certo número de mensagens que dão que pensar. E ao ouvir/ver Black or White com atenção, reparei que em tempos, não há tanto tempo assim (1991) se apelava à diversidade, igualdade e tolerância, mas não como se fala hoje. Naquele tempo puxava-se por isso de modo positivo, mostrando como há beleza em cada cor, em cada cultura, tentando lembrar que as pessoas podem entender-se apesar das suas diferenças étnicas, culturais, sociais, políticas ou de credo. Michael Jackson achava, e bem, que há coisas mais importantes na vida das pessoas do que fazer bandeira de ser branco, preto, amarelo, encarnado ou às bolinhas: "I'm not going to spend my life being a colour". 



Coisas mais relevantes para a felicidade do que obcecarem-se com complexos de minorias (quaisquer que elas sejam), de género e assim por diante. No mundo de Michael Jackson cossacos dançavam com índios e tribos africanas, bollywood movia-se ao som da música pop, era tudo uma grande festa onde cada um trazia um bocadinho do que tinha de melhor e ninguém se ofendia: "heal the world...make it a better place for the entire human race!". Para todos, minha gente! Sem especificar quem.



Agora, notem bem: fosse Black or White lançado hoje-  na era do ofendedismo, dos vidrinhos, dos melindres, do crime-pensar, das quotas para tudo (para mulheres na política, para actores "afro-americanos" em Hollywood, and so on) Michael Jackson ou quem se lembrasse de cantar e dançar tal coisa, seria, para começo de conversa, acusado de apropriação cultural. Iam aborrecê-lo por utilizar elementos da cultura alheia, por caricaturar ou estereotipar, por dizer "black" e porque às tantas, não tinha representado rigorosamente um número equalitário de gordos, mulheres, anões  ou gays no videoclip. 



Sacrilégio, que eu reparasse não vi nenhum transexual a abanar os ombros ao som de "it´s black? it´s white!yeah yeah yeah!" - fosse hoje, caía o Carmo e a Trindade por ter deixado alguém de fora. Depois, como o cantor sofria de vitiligo, iam decerto acusá-lo de discriminação por não convidar alguém assim. E por não haver nenhum figurante em cadeira de rodas. E estas são as reclamações que me ocorrem, se calhar haveria outras. A canção mais inclusiva, mais pró diversidade de todos os tempos, não seria "inclusiva" ,"pró diversidade" e "tolerante" o suficiente na época da falsa tolerância.

Do you remember the time quando até as boas intenções eram simples, ingénuas transparentes, destituídas de mensagem política, feitas do coração? Em que se podia brincar e fazer troça uns dos outros sem paranóias; em que se falava de boa vontade e de amor ao próximo sem empenho em "parecer fofinho", em que se faziam as coisas por amor, por inspiração artística, sem agendas? I remember. Dou graças a Deus por isso.


Acho o máximo: "beleza real" em modo "venha a nós"


Já repararam como tantas mulheres reclamam contra um bocadinho de photoshop nas revistas/anúncios e contra os padrões de beleza "impossíveis"... mas quando se trata delas próprias, são incapazes de publicar um retrato sem lhe colocar trinta camadas de filtros *manhosos*? 

Sem isso não há cá imagem de perfil para ninguém nas redes sociais da vida. É que não falo em recortar uma fotografia para a transformar em retrato de rosto, tirar um brilho da testa, ajustar um bocadinho a luz, dar um retoquezinho para salvar uma selfie que estava tão gira se não fosse aquele detalhezito (as câmaras pregam partidas, às vezes) ou criar um efeito engraçado.

 Qual quê! São demãos e demãos do modo "maquilhagem" no máximo, que parece que lhe puxaram o lustro ou que viram um fantasma. Isto quando não voltam as trombetas - ou o derrièrre, conforme - para o maior foco de luz que houver ao pé, de modo a apagar as irregularidades (e por arrasto, os traços) do rosto e as celulites. E depois, julgando que as pessoas são estúpidas ou que mais ninguém tem telemóveis que fazem truques, ficam à espera de louvores...começando pelos das "migas" da praxe, a ver se pega.


Ora, já sabem que eu sou contra esta moda de as pessoas se exibirem no seu pior, em modo "vivá celulite, vivás estrias, gordura é formosura e o que é bom é para se ver: vamos lá aparecer olheirentas e despenteadas para nos darem palmadinhas nas costas". Toda a gente devia apresentar-se bem e guardar os seus defeitos para si.  Mas o extremo oposto é igualmente ridículo. Até porque não é assim tão complicado, com uma maquilhagem natural e a luz certa, conseguir um instântaneo minimamente composto.

Com "betumar-se virtualmente" a tal ponto, cai-se em vários disparates ao mesmo tempo: na garridice, na vontade de aparecer, de pescar elogios à força; na indiscrição (caso das que querem por força exibir-se em bikini ou pior) e num sem número de contradições. Já é mau que baste ter vontade de se expor gratuitamente; mas para quê fazê-lo se não têm confiança na sua silhueta ou se não trabalham o suficiente para não precisarem de tanta camuflagem? E pior, comete-se a hipocrisia de falar na "ditadura da beleza"...desde que seja a beleza das modelos, actrizes ou toda e qualquer uma que desperte a feia invejita

"Vaidade, teu nome é mulher"...isso faz parte e não é necessariamente mau. Mas quando o bom senso falta...

Friday, February 5, 2016

Este Carnaval, o que eu queria mesmo era um drone.


É que primeiro, como ainda não decidi de que me hei-de mascarar dá-me para estas divagações, segundo porque assim do nada não se fala de outra coisa e apesar de eu ser contra modismos papalvos, estou a achar piada a estas maquinetas que me lembram os robozinhos amorosíssimos O Milagre da Rua 8.



É verdade que os drones (e  autênticas "invasões" dos ditos) andam a dar com algumas pessoas em doidas e a levantar questões de segurança (até já se treinam águias para caçar drones perigosos ou indiscretos, how cool is that?) mas também servem para dar coças em terroristas, para obter imagens espectaculares e para coisas mais criativas, como cobrir a modéstia de bailarinos que decidem dançar em trajes menores. 
Prestam-se a tudo, estas engenhocas.


Ora, eu não me vou vestir de drone no Entrudo porque além de precisar de voar para o disfarce ficar credível, acho que não me ia favorecer (e o mais certo era ninguém perceber a fatiota). Mas ter um drone folião para pregar partidas a pessoas malvadas seria divertidíssimo.

Nada de partidas muito feias, mas é Carnaval, ninguém leva a mal, logo imaginem: porem um drone a seguir para todo o lado, mas todo o lado mesmo, aquela criatura intolerável (quase toda a gente tem uma criatura intolerável ou mais na sua vida, que uma pessoa aplica o "perdoai-lhes que eles não sabem o que fazem" mas factos são factos). Ou vá, qualquer alma declaradamente malvada que vos tenha feito trinta por uma linha, ou ainda aquele falso amigo que vos arreliou e a coisa não é grave, mas adoravam ficar quites. Adiante.



Punha-se então o drone, com o ar imperturbável de descaramento que só uma máquina pode ter (e mais um drone, que é pequenino, com ar de quem diz "eu sou tão adorável, por acaso incomodo?") a voar sempre perto da pessoa, a zumbir os seus barulhinhos de drone (suponho) no firme propósito de a azucrinar. Se a alminha apressava o passo, incomodada, o drone apressava o voo. Se lhe virava as costas, o drone dava a volta, esvoaçando à sua frente.  A "vítima" por acaso ia ao restaurante ou ao cabeleireiro, desses pindéricos com vidros por todo o lado? Lá ficava o drone colado à montra. A não ser que vos apetecesse fazê-lo sair da terrina da canja ou do armário das toalhas, em modo stalker, para armar verdadeiro rebuliço. E todo o santo dia nisto, a filmar a cara de enfado do alvo. 
Caso desatasse a correr, aí é que eram elas: podia accionar-se a opção de cobrir o (a) desinfeliz de farinha, ovos e confetti, bem à Entrudo de outros tempos. Ou seria a tecnologia posta ao serviço da malandrice carnavalesca de cada um. Sonhar não paga imposto (até porque creio  que não teria paciência para aprender a comandar um drone, logo podem estar tranquilos...).



Thursday, February 4, 2016

Eu embirro com...pessoas -chihuahua


Por pessoas -chihuahua, entenda-se as que são sempre assim (Credo!) ou as que, face a qualquer contrariedade, não se sabem expressar nem desabafar sem proceder como chihuahuas.

Deixem-me tentar explicar. É que eu adoro quase todos os animaizinhos (excepto centopeias, caranguejos-ferradura e mais umas criaturas estranhas) mas os chihuahuas estão longe de ser o meu cão preferido. Para ser mais clara, apesar de ser mais uma cat person gosto de cães e eles gostam de mim: regra geral, não há cão que me ladre. E nunca nenhum me mordeu, mesmo os que têm má fama. Palavra, até os pit bulls me adoram. 

Mesmo o único cão que me fez mal, tinha eu uns dois ou três anos, foi por gostar muito de mim: o Kaiser, supostamente impassível dobermann do vizinho, que na ânsia de me dar um abraço canino me atirou ao chão. 



A estrada estava a ser alcatroada e bati com a minha face de bebé na gravilha. Fiquei com uma esfoladela por toda a bochecha, do tamanho de uma bolacha. Não deixou marca, graças aos céus, nem ganhei a mínima aversão a canídeos.  Outra experiência, porém, 
fez-me preferir cães calmos e altivos, que saibam guardar uma casa, como os Pastores Alemães e os Serra da Estrela: o meu springer spaniel (chamado Calimero por ser trapalhão e não dever muito à coragem) enrolou a trela nas minhas pernas, eu tropecei nele e fomos os dois, embrulhados um no outro, a rebolar ladeira abaixo. Calimero não sofreu nada, eu dei cabo de um joelho. Ainda tenho a cicatriz. 

Volto a dizer, sou incapaz de voltar costas a um cão, gato, ou qualquer bichinho necessitado seja de que raça ou não raça for, mas se tiver de escolher um cão para companhia prefiro-o de nobre atitude, grande e peludo. E se falarmos de cães pequenos, sou doida por pequinois

Agora chihuahuas, poupem-me. Pode haver alguns muito queridos, mas para começo de conversa lembram-me sempre o Ren & Stimpy: neuróticos, arrebitados, barulhentos, de olhos esbugalhados e ar famélico. 



Por muito que as Paris Hilton da vida e as flausinas que a querem imitar em versão pelintra tentassem fazer deles brinquedos, nunca me convenceram.

Ora, esta opinião agravou-se um belo dia em que ia com a senhora minha mãe, a passear por uma rua de casas baixas. Do nada, saltam de uma janela três (ou quatro, já nem sei, fiquei estarrecida) chihuahuas furiosos, perfeitamente loucos, a ladrar para nós que nem possessos. Tipo, assim:



 Demos um salto: eles rosnavam, eles torciam-se como atacados de convulsões, eles babavam-se e - uma vez que o vidro os impedia de nos ferrar- desataram a morder-se uns aos outros como um monstro possuído de três cabeças, excitando-se com os próprios guinchos. Visão do inferno! O próprio Cerbero, que tranquilamente guardava as portas do Hades, pareceria um mansarrão ao pé daquilo. Benzi-me, zarpei dali e lá se estabeleceu a excepção à regra. Não morro de amores por tal bicho, pronto. Tudo o que é pequenino e malvado é suspeito.



E claro, não morro de amores por pessoas-chihuahua: sabem, aquelas que são nervosinhas, almas-aflitas, histericazinhas, sassaricadas e repisadoras, em permanente necessidade de tomar um chá de camomila ou flor de laranjeira bem forte. Que não causam grande dano, mas irritam. As que basta haver um contratempo qualquer e murmuram, refilam, blasfemam (é um "ai meu Deus!" por dá cá aquela palha) e não falam, rosnam ou respingam. Que são incapazes de discutir um problema sem se tornarem emocionais e que levam tudo a peito. E mulheres- chihuahua? Aquelas que debatem, dissecam, insistem, voltam atrás, vão buscar coisas que já lá vão e que não interessam para o caso e que se o oponente se afasta para que a coisa não escale, se põem a falar sozinhas, para as panelas se for preciso, sem se importarem com a estridência da própria voz?

Dá-me vontade de lhes espetar um piparote. Não que eu desse um piparote a um chihuahua ou outro bicho qualquer, salvo em auto-defesa...

"Os homens são uns diabos; não há mulher que o negue..."





..."mas todas elas procuram um diabo que as carregue". Bem fala o povo. Para sermos justos, também há mulheres de tal ordem que só se arranjarem um pobre diabo para as aturar, mas pronto.

Lembrei-me novamente deste estribilho porque me apeteceu ler qualquer coisa ao almoço e pegando nas Lendas de Portugal, de Gentil Marques, encontrei um conto com uma prosa engraçadíssima. Trata-se de uma história sobre a povoação de Quadrazais, perto da Guarda, onde em tempos a afilhada do Padre estava apaixonada por um homem belo, moreno, alto, de lindos olhos verdes, que descia a Serra ao pôr do sol para lhe falar.

O povo estranhou aquilo, pois não conhecia o rapaz, e foi avisar o Cura de que às tantas, a sua pupila andava a ser tentada pelo demo. Aflito, o bom do sacerdote chamou a rapariga para a advertir do perigo. Deu-se então este diálogo que achei delicioso:

"- Rosário! Já ouviste falar do demónio, das suas tentações, dos seus disfarces?...Vê lá se é ele que te aparece!

- Oh padrinho...

- Ele fala no Santo Nome de Deus?

- Não, padrinho...na verdade nunca falou em Deus...- e a desculpá-lo - talvez não calhasse...

O cura mostrou-se de novo exaltado. 

- É isso! É o diabo em figura de gente! Acautela-te, rapariga!

- Oh meu padrinho, isso não pode ser...Ele é tão bonito, tão bem falante...tem uma figura tão atraente!...

-Tanto pior! O Demónio é capaz de tudo, para roubar almas a Deus! E então...a pupila do Padre...sabia-lhe bem! 

- Não posso acreditar! Não quero acreditar que o Pedro seja o demónio a tentar-me! Que mal empregadinho! "

Que naquele tempo, além dos impedimentos sociais e morais para namorar, ainda havia mais esse: o risco de um pretendente ser o Tinhoso à paisana...



 Depois o conto até acaba bem (foi-se a ver e o tal Pedro não era um diabo pior que outro homem qualquer) a Rosário casa-se e vive feliz para sempre; mas dá que pensar. Se o diabo tenta as mulheres em disfarce de homem ( para quem crê em tentações demoníacas no sentido literal do termo) terá deixado de o fazer em pessoa, talvez porque hoje em dia já pouca gente acredita nele ou lhe mostra medo. É muito mais prático
 servir-se de mortais bem apessoados para juntar algumas almas femininas ao seu séquito.

De todo o modo, se pensarmos em tentação ou danação no sentido figurado, o provérbio não deixa de se aplicar na mesma: uns porque, sendo valdevinos, tentam as desmioladas
 tornando-as piores do que já são; outros atrevidos procuram conquistar as mais virtuosas; os diabretes que até sendo sérios nessas coisas, torram a paciência a uma santa por motivos de vária ordem; e ainda há os mal empregadinhos porque têm certas qualidades mas estragam tudo com outros defeitos; sem falar nos que não são maus diabos mas também têm os seus quês. 

Talvez haja um diabo em cada homem, e o destino de uma mulher seja o de anjo-da-guarda ou de santa, se quiser entender-se com eles e puxar pelo seu lado bom...





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