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Monday, February 19, 2018

Jorge IV: glutão, mulherengo e...forreta.





Há dias tive ocasião de ver um episódio desta excelente série de documentários sobre a vida privada dos monarcas. Achei interessante como se debruçaram, em detalhe, sobre os excessos de George IV (que ainda enquanto Príncipe, daria título ao Período da Regência - 1811-1820, época que ficou associada aos romances de Jane Austen). E embora já desconfiasse, fiquei convencida de que:

1) a pobre Maria Fitzherbert fez mesmo má escolha em aceder às pressões do príncipe egoísta para casar com ele (podem ler ou recordar o post sobre Maria aqui). O facto de ela ser Católica devota explica muita coisa: a infeliz senhora devia ter paciência de santa, é que só podia. A segunda esposa já foi mais esperta e separou-se dele na primeira oportunidade, mas acabaria por morrer de desgosto graças às imoralidades do marido. Cavalheiro encantador, hein?



2) o famoso dândi Beau Brummel esteve muito bem ao insultar o Príncipe George, em público, na cara e com a maior das latas, de "gordo", como falámos neste post. Parece que o incidente, ocorrido num baile de máscaras, acabou com a vida social do plebeu trend setter... mas deve ter-lhe dado bastante satisfação: perdido por um, perdido por mil e quem diz a verdade não merece castigo.

O Príncipe quando era novinho, magrinho e bonitinho


Dizem que o maior feito de George IV foi a monarquia britânica ter sobrevivido aos seus dez anos de reinado. Isso, e a sua paixão pela arte e arquitectura, que resultou em boa parte dos edifícios mais emblemáticos de Londres tal como os conhecemos, incluindo Regent Street e a fachada do Palácio de Buckingham. Em tudo o resto, porém, o Príncipe Regente que entretanto se tornaria Rei conseguia cair no desagrado de meio mundo. Os pais - o Rei George IV e a Rainha Charlotte, casal conhecido pela sua bondade, simplicidade e sólida moral - não tinham a menor paciência para ele nem para as suas extravagâncias;  obrigavam-no a fazer dieta, a estar quieto em casa, e só lamentavam que aquele filho estouvado, dissoluto, frívolo e hedonista tivesse nascido primeiro para herdar o trono em vez do seu ajuizado irmão mais novo, que era o queridinho da família.

Uma vez feito regente, o povo desprezava-o por andar em festanças decadentes enquanto o país sofria com a guerra contra os franceses (e com os pesados impostos que vinham com isso).



Enquanto foi jovem e bonito, o bon vivant George usava as mulheres como se fossem lenços de papel, mantendo numerosas amantes: mas cedo as comezainas e as bebedeiras lhe acabaram com a saúde...e com a bela figura. A esposa que lhe arranjaram a ver se continha os seus desmandos, Carolina, quando o conheceu disse que ele era muito anafado, e nada bem parecido como os retratos lhe tinham feito crer (o casamento foi um desastre, claro).




Os seus contemporâneos, incluindo o Duque de Wellington, pasmavam para a habilidade que o divertido Príncipe, cada vez mais rechonchudo, tinha para comer que nem um alarve; e os que conviviam de perto com ele ousavam mesmo compará-lo a "um grande colchão de penas", a uma baleia (fazendo um trocadilho entre "Prince of Wales" e "Prince of Whales") ou a "uma enorme salsicha a rebentar pelas costuras".



Porém, o que me chamou mesmo a atenção no programa foi este detalhe escandaloso: a  dada altura, os estragos na aparência associados a um feitio desagradável (as suas maneiras impecáveis tinham-lhe ganho o cognome de "Primeiro Cavalheiro de Inglaterra", mas perdia a cortesia depressa) conseguiram afastar mesmo as mulheres fáceis e interesseiras que costumam gravitar à roda de qualquer cabeça coroada. Como Príncipe Encantado, estava visto que George não convencia ninguém...
Fosse por isso, fosse porque lhe fugia o Real e gotoso pé para o chinelo e para a baixaria, logo gostava de raparigas ordinárias (não seria o primeiro nem o último cavalheiro de alta estirpe com gostos tão duvidosos, verdade seja dita) a verdade é que George prometia principescas somas de dinheiro a mulheres de vida airada para passarem a noite com ele.



 Isto diria muito da sua baixa moral (e da sua falta de atractivos) mas não seria tão estranho assim, não fosse um pormenorzinho extremamente reles: é que, volta não volta, o Palácio se via aflito para encobrir as chantagens de meretrizes a quem ele tinha dado o calote.

Pois muito bem, não sejamos ingénuos: que um cavalheiro seja femeeiro, ainda por cima se for casado, é sempre mau; de mais a mais, sendo Rei. Que um cavalheiro seja femeeiro, casado, e, sendo Rei, que se baixe a recorrer a mulherio de aluguer, é muito mau, mas enfim- ainda se podia pensar que pagava para não ter de aturar mulheres iludidas, peganhentas, cheias de expectativas e já a sonhar com o Trono, na manhã seguinte.

 Mas que um cavalheiro seja casado, Rei, femeeiro, contrate mercenárias e ainda por cima seja demasiado forreta para honrar o acordo (negócio imoral ou não, palavra de Rei não volta atrás), aproveitando-se das pobres "moças trabalhadoras" que por ganância ou necessidade acediam aos amplexos do gorducho monarca e pondo a sua reputação em causa por meia dúzia de tostões... é MUITO rasteiro.

Não é de admirar pois que ninguém o tomasse a sério e que, quando se finou aos 67 anos, tão pesado que transportar e pousar o caixão para o velório exigiu cautelas especiais, ninguém o lamentasse. Houve mesmo quem dissesse "nunca ninguém teve tanto amor à vida e foi tão pouco chorado quando saiu dela". Um verdadeiro encanto, este Príncipe Jorginho...

Sunday, February 4, 2018

As coisas que eu ouço: é brejeirice à portuguesa, com certeza (e além fronteiras).




Aqui há tempos fartei-me de abanar a cabeça com uma notícia (e sobretudo, com os comentários à dita cuja...) que dava conta de uns quantos pais portugueses, coitados, que carinhosamente enchiam as malas dos filhos, residentes ou estudantes em Londres, de acepipes e farnéis lusitanos de cada vez que estes iam de férias à santa terrinha.

Abanei a cabeça aos sempre divertidos comentários facebookianos porque eram, basicamente, escritos do tipo "coitadinhos destes emigrantes de hoje! Quando eu fui a salto prá França ninguém me foi lá levar «o comer»" pejados de erros ortográficos e cunhados por "Zés avecs" do antigamente, para quem história de emigrante em que o protagonista não sofre, tipo cantiga do Graciano Saga, não é história de emigrante que se preze.

E depois abanei a cabeça também à candura destes pais amorosos, mas um bocadinho simplórios, emalando tupperwares de rissóis e bacalhau à Brás (bem bom, verdade seja dita) como se os filhos fossem para o mato e não para um país a duas horas de avião onde, porta sim porta não, há mercearias e restaurantes portugueses. 


A zona onde moro será composta sobretudo de nativos, londrinos de gema (a minha vizinhança é quase tudo velhinhos veteranos da Grande Guerra que me tratam por darling e só querem saber de jardinagem, de levar os bisnetos aos treinos do Chelsea e de reclamar contra as regras malucas da recolha do lixo). Depois há uns quantos polacos, italianos e portugueses e o resto é diversidade e multicularidade, mas mesmo com esta dispersão, sem precisar de sair da freguesia contei umas três ou quatro mercearias/cafés do mais português que há, onde se compra desde bacalhau a salame de chocolate passando por álcool etílico (os ingleses têm a mania de desinfectar as feridas com uma pomada que é milagrosa para todos os males da pele, mas um atraso de vida quando se trata de um corte, coitados) e uns dois ou três restaurantes.

 Que diremos noutras zonas de Londres, com maior concentração de lusa gente! Depois, caso as saudades de uma feijoada, de uns pastéis de bacalhau ou de uma Sagres sejam mesmo insuportáveis, basta apanhar um comboio até Vauxhall e dar um pulinho ao Little Portugal, que uma pessoa parece que está numa aldeia chamada qualquer coisa "de Cima" ou "de Baixo" pronta a montar um arraial mais minuto, menos minuto. E de resto, os maiores supermercados têm secções de produtos internacionais onde polacos, romenos, portugueses, brasileiros, vietnamitas ou caribenhos encontram as marcas da sua terra a um preço bastante decente - misturada que me permite, sem qualquer dificuldade, reproduzir a receita de kalilu que a tia aprendeu em S.Tomé (e me passou depois de muita insistência) para o almoço e fazer um cabrito assado à moda da Beira para o jantar. A fruta e os vegetais são baratos e excelentes, com coisas de todo o lado. A carne o peixe já precisam de mais critério, mas nada que impeça um português ou um italiano de comer como fazia em casa.



Sempre me pareceu que isso do português que vai para fora e não gosta da comida é um grande patranha, ou pelo menos que não se aplica em Londres - apesar de o elogio à superioridade da alimentação portuguesa ser justíssimo. Quem o diz ou gosta de se queixar, ou tem preguiça de explorar o seu bairro, ou simplesmente não gosta de cozinhar. Ou então não sabe nem estrelar um ovo- o que já tornaria um pouco menos disparatado chamar a estes jovens expatriados, como disse o Zé avec, "meninos da mamã". A sério, salvo em caso de receitas de família complicadíssimas, não vejo necessidade de levar (e demais a mais em voos da Ryanair ou da Easy jet, que muitos destes jovens utilizam) farnéis a perfumar o ambiente!

Porém, cada um sabe de si e isto tudo foi só para introduzir a bonita cena a que assisti (ou, se quisermos aludir à modinha do #metoo, de que fui vítima, pobrezinha de mim, mulher frágil e indefesa) num restaurante português há um par de semanas.



Como vos disse, aqui há uns quantos restaurantes lá da terra, e alguns onde se come francamente bem - uns mais mainstream, com uma decoração a tender para o sofisticado, outros do estilo tasquinha embora os preços não variem muito entre uns e outros. Desta feita, fomos a um desses mais "modernos" que é frequentado tanto por ingleses como por portugueses de todas as categorias e províncias, casa simpática que serve uma belíssima espetada à madeirense. Entrámos e a patroa, que não nos conhecia, cumprimentou-nos em inglês (aqui nunca atinam com a nossa proveniência, é um fartote) com um forte sotaque da língua de Camões. Nas mesas à frente e atrás, britânicos a conversar alto e bom som. Na mesa ao lado, uma grande família portuguesa que era um estereótipo ambulante (o sogro Zé das Couves, o genro Carlão do ginásio, o filho do meio Carlito Rúben do tuning, a filha Sheila manicura e o irmão mais novo, o Joãozinho) a fazer mais barulho ainda, se possível. 

Entretanto precisei de fazer uma chamada e fui às traseiras onde instalaram uma salinha para fumadores. E quem tinha ido lá fumar? O Zé das Couves, o genro Carlão e um outro parente do mesmo género- ao que percebi, todos eles Zés Tugas empedernidos e batidos nas idas e vindas da emigração. Estava eu de telefone ao ouvido, muda e queda à espera que me atendessem, e eles "carvalho para aqui" e "coza-se para acoli" nessa habilidade acrobática e minuciosa de entremear 30 palavrões numa frase só. E vendo que estava uma senhora mas não estando bem certos se eu os compreendia ou não, decidiram experimentar-me, dizendo ainda pior. Jesus, as asneiras que eu ouvi! Mas decidi ficar caladinha a ver até onde ia o disparate...



Continuaram por um bocado, deliciados com as suas obscenidades como uns garotos que usam pela primeira vez esse palavreado nas costas da professora. Entre a possibilidade de dizerem do piorio à frente de uma mulher sem que ela percebesse patavina e a hipótese de essa mulher ser conterrânea e estar constrangida, não sei o que seria mais divertido para eles. Eis aqueles portugueses que dão a todos fama de camponeses analfabetos e trogloditas, e que fazem com que os ingleses trocem que "para saber onde está um português, é seguir os gritos de "carvalho!". 

Até que, já cansado de tentar adivinhar, o tuga pai atirou mais esta (versão censurada):

"Uma vez, andava eu na França, ia com fulano e beltrano num comboio entre a França e a Alemanha, e íamos a dizer «carvalhadas«...«carvalho» para trás, «coza-se» para a frente, filho da piiiiii*** à esquerda e à direita...e estava uma gaja com dois putos sentada à nossa frente. «Atão» não é que a gaja se vira para nós e diz: os senhores façam o favor de falar melhor, que eu também sou portuguesa e levo aqui crianças?".

Essa matou tudo. Ora bem-  nem com uma vergonhaça dessas aprendeu, e ainda usou o exemplo para ofender outra senhora (ou na sua linguagem, outra "gaja"?). Olhem que é preciso ser bruto! Um labrego sem remédio! 

Era a minha deixa para lhes fazer a vontade, respondendo "pois fez a senhora muito bem, seus ordinários!". Ou de chamar o meu marido para os ensinar na única linguagem que entendem, que (apesar de à conta de umas misturas anglo saxónicas lá dos antepassados dele o confundirem com um local a torto e a direito) ele é tão marialva como se pode e já que gostam de se armar em machos latinos, havia de lhes matar as saudades da pátria com umas traulitadas, em modo Alencar: vai-lhes um copo na cara e é aqui um vendaval, que há-de ficar a Grã Bretanha a saber o que é um português!

Mas decidi que era melhor, tal como n´Os Maias,  não haver um vendaval, e a  Grã Bretanha ficar sem saber o que é um português que para fama de campónios e barraqueiros já basta o que basta, e pregar-lhes uma boa partida à minha maneira. Fiz-me de novas e fui-me sentar; com o barulho e a música só se ouvia quem falava aos berros. Entretanto algumas mesas vagaram, a música lá baixou e acabámos de jantar. 

E depois de pagar a conta, antes de sair porta fora,  viro-me muito risonha para a dona do estaminé e para a moça que nos tinha servido, olho para aqueles rústicos como quem não deixa lugar a dúvidas, e atiro alto e bom som, do fundo do meu diafragma como me ensinavam nas aulas de canto:

"Então muito boa noite e até à próxima!".

Calou-se tudo e ficaram com aquela carinha "ó terra engole-me já", e o Carlão a olhar para o brutamontes mais velho com ar de quem diz, a tratar o sogro por tu: "eu bem te avisei que «a gaja» era portuguesa mas tu «não te acreditastes»". Ainda pensei que desatassem a rir (descaramento não lhes faltava) mas vá lá que não...

É como digo sempre: isto portugueses ou são de uma suprema elegância e de uma reserva que roça a altivez, ou são uns parolos que só servem para causar vergonha alheia (ou mais apropriadamente, vergonha patriótica). E depois queixam-se muitas vezes de ficarem na "gaiola dourada", de serem vistos como pessoas "honestas, hospitaleiras, trabalhadeiras e de confiança" mas de não os considerarem gente lá muito sofisticada, com quem se conviva de igual para igual. Se a maioria que nos representa por este mundo fora é assim (e não nos enganemos, apesar de tudo a maioria ainda é esta espécie que faz corar o desembaraçado boneco do Zé Povinho) então querem o quê?

É caso para dizer "valha-me Nossa Senhora da Asneira, que bem pode". Livra!



Tuesday, January 23, 2018

Pobres piquenos!!! - 6 crueldades a que os pais de hoje submetem as criancinhas





Há muito quem diga (e com alguma razão) que certas coisas só se aprendem depois de ter filhos... e que uma pessoa, em sendo mãe, muda de ideias em relação a tantas outras. Porém (como tantas mulheres da minha geração que começam uma família e que andam a planear o futuro lá com os seus botões), ando atenta ao maravilhoso mundo dos bebés.

 Conclusão? Tenho para mim que, se Deus me der descendência, há maluqueiras em que só cairei se tiver ensandecido de vez (o diabo seja cego, surdo e mudo e não saiba ler os pensamentos!).

 E nem sequer estou a falar de modernices mais fracturantes e polémicas como os movimentos pró-amamentação à vista de todo o mundo e/ou desmamar a criança quando ela já está farta de ter dentes (cada uma sabe de si, mas Deus me defenda), ou como sujeitar os inocentes à falta de vacinação e/ou uma dieta experimental qualquer. 




Nem sequer me refiro a modinhas mais subtis (mas que  francamente me irritam) como o "co sleeping e bed sharing" ou  a "parentalidade positiva" (que em teoria não é completamente má, embora demasiado zen, politicamente correcta, mãe-do-Ruca e pequeno burguesa para mim; mas na prática, ao que tenho lido, se traduz não tanto na ausência de gritaria, lamparinas ou castigos e sim na mais completa permissividade, indisciplina e sujeição aos caprichos do ditador mirim).

Ná, nem é preciso ir para tais "formas de estar alternativas". O que não falta hoje em dia são maneiras de sujeitar a criançada a judiarias que não lembram ao diabo mais velho. Vejamos algumas:


1- Pôr laçarotes e fitas em bebés...carecas


super Cola 3, cola tudo em segundos...


Isto é uma mera questão de gosto pessoal, mas que querem? Primeiro, é suposto fitas e ganchos servirem para segurar madeixas de cabelo e se não há cabelo...percebem a ideia. Segundo, que diabos fazem para segurar certos laçarotes? Aquilo tem cola ou quê? Terceiro, enfeites de cabelo nem sempre são confortáveis (até em nós, adultas); que se dirá usados tão perto da raiz, e na cachimónia de um pequeno ser que não pode
 explicar-se para exigir "mãe, fora com esta porcaria está que está a incomodar-me!".

E quarto, mas não menos importante: acho que uma criança com cabeça de ovo ganha um ar pateta com acessórios no alto da pinha, ainda que seja linda como os amores sem cabelo e tudo. 

Depois, já se sabe: há muitas bebés que até vêm a tornar-se umas bonequinhas quando crescem um pouco mais (e algumas que se fazem umas grandes beldades depois de adultas) mas que nos primeiros meses não têm grande piada, ou até deitam uns certos ares arrapazados, só bochechechas e pouco mais. Nesses casos, pôr-lhes penduricalhos como quem diz "atenção que esta é uma menina!" só chama ainda mais a atenção, como que a pôr as pessoas a pensar, sem se atreverem a dizer em voz alta "se não fosse o laçarote juraria que era um rapaz!".


Uma amiga minha teve recentemente uma bebé encantadora e com tanto cabelo louro dourado (mas mesmo dourado!) como nunca vi. Nesse caso até faz sentido, desde que se tenha o cuidado de evitar coisas desconfortáveis como bandelettes (arrepio-me toda quando vejo isso porque quase todas as bandelettes me provocam uma enxaqueca medonha). Em todos os outros, mais vale enfarpelar o pobre anjinho em quantos folhos, rendinhas, vestidinhos rosa-bebé (mas nunca rosa-serigaita nem rosa choque, pelas almas!), enfim, ataviá-la com todas as peças ameninadas que vierem à mão, mas 
deixar-lhe a cabeça à vontade.
Infinitamente mais giro.

 Ou melhor ainda, comprar-lhe uns carapucinhos (para os dias frios) e umas touquinhas de algodão à moda antiga (para os dias quentes). É mil vezes mais amoroso, tem outro ar e qualquer bebé fica um amor de touquinha, mesmo que pareça meio amassado de ter acabado de vir ao mundo por parto natural ou esteja naquela fase work in progress em que não se parece ainda com ninguém. Muito mais apresentável e sempre protege do vento e do sol: é que já tenho visto pais que dos laçarotes não se esquecem, mas são capazes de deixar a a criança apanhar soalheiras na moleirinha e depois queixam-se "não sei a quem saiu tão desmiolada". Team Touquinha, desculpem lá.

2-Publicar retratos do recém nascido no Facebook...com a cara tapada por um emoji.

E o que é pior: tantas cautelas ao início, apenas para dali a uns meses não resistirem ao apelo dos likes passarem a exibi-lo nas redes sociais completamente à vontade quando o pequeno já é reconhecível e até já dá as suas voltinhas pelo próprio pé, estando portanto em maior risco. Não vou agora elaborar se acho ou não boa ideia expor as crianças em blogues ou social media (creio que tudo se quer com conta, peso e medida) mas haja coerência!
 Para começo de conversa, se a ideia de tapar a carinha do crianço com um smiley (ou pior, um macaco ou focinho de cachorro do Snapchat) é proteger o inocente contra eventuais raptores, desculpem mas isso falha completamente. Afinal, um bebé acabado de nascer não vai sozinho a parte alguma, por isso ser ou não reconhecido na rua é perfeitamente indiferente. A única forma de evitar qualquer atenção de gente tarada (lagarto, lagarto) seria não revelar de todo, nos facebooks e instagrams da vida, que se tem um bebé em casa. 

Depois, esta é simplesmente uma modinha foleira e ridícula, de nível Fatality social (voz do Mortal Kombat). Não sei ao certo o que vai na cabeça dos pais que fazem tal coisa; porém o que sugere é uma vontade danada de mostrar a novidade ao mundo, mas frisando "olhem que somos super conscientes, moderninhos e informados, ok?". Curiosamente, estes costumam ser os mesmos pais parolinhos que também fazem as três maldades de que falaremos já a seguir. Ou seja, ou os pobres pequenos saem super rebeldes ou ficarão condenados à pinderiquice eterna. Ai destino, ai destino, fado malvado.


3- Dedicatórias que começam por "Não sei quantos meses de ti"( ou de João/Maria/Carlota Andreia)



Como vimos aqui, este chavão medonho propagou-se pelas redes sociais como uma praga. Do nada, primeiro os saloios de serviço e depois pais tidos, até então, como pessoas sérias e normais, deixaram de falar como sempre falaram para adoptarem este palavreado postiço, atrozmente lamechas, ao referirem os meses de gestação ou idade do bebé, achando que é poético.  Poético tipo letra do Toni Carreira. Não sei de onde a modinha veio- suponho que tenha sido inventada num qualquer nails corner e contagiado o povo através de certos blogs- mas que carimba os pais e por conseguinte, o bebé, com um certo ar labrego e baratuxo, isso carimba. Stop already.


4- Tratá-los por Baby M., B., X ou Y (diante dos amigos ou nos social media).




Também tratámos desse modismo aqui e entre os dois, venha o diabo e escolha. Não sei se a ideia é dar um ar de mistério (a ver se chamam a atenção e alguém lhes faz perguntas, como se houvesse pachorra) se é preservar a  privacidade da criança (fail) ou impedir que outras pessoas desatem a pôr o mesmo nome aos filhos (podem sempre fazer como a Beyoncé e registar um nome esquisitíssimo como trade mark; é uma pinderiquice e vai complicar a vida do inocente até ele ter idade para mudar legalmente essa desgraça, mas a originalidade está garantida). 

Ou talvez seja uma tentativa possidónia de arranjar um petit nom chique a valer (erro crasso). No entanto, tenho para mim que as pessoas o fazem sem saber muito bem porquê, só por ver os outros fazer, achando que dá um certo estilo, que fica delicado e cosmopolita (erro de proporções bíblicas). A mania pretensiosa terá começado com algumas bloggers e foi por aí abaixo, popularizando-se nos salões da esquina, reuniões de tupperware e festas da Bimby até acabar por contagiar gente com obrigação para se comportar de outra maneira. De qualquer modo, além de ser uma carneirada do piorio dá à criança, que não tem culpa nenhuma, uma certa aura de rapper mafioso, de projecto de robótica ou clonagem (Baby A. versão 2.0, que tal?) ou pior, de concorrente do Big Brother. A sério, se a ideia é o bebé andar incógnito, ao menos arranjem-lhe uma alcunha com piada ou um petit nom amoroso. De preferência com duas sílabas.

5- Contar a idade dos filhos por meses (até chegarem à escola primária).



Em boa verdade este hábito de alguns pais algo...bom, exagerados, nem afecta tanto os pequenos (que ainda nem sabem a quantas andam). 

Só irrita quem está à volta: se uma alma desprevenida cai na asneira de perguntar educadamente a uma mãe/pai desses que idade tem o Zezinho ou a Mariazinha, zás: leva prontamente a resposta maluca "tem 39 meses e meio" ou coisa que o valha. E para ali fica uma pessoa a fazer contas de cabeça, em modo mas qual será a idade da criança, eu sei lá, sei lá
Este é um fenómeno muito comum entre aquelas "mulheres que deixam de ser mulheres e passam a ser só mães" e que desistem completamente de ter outros assuntos/interesses, deixando os amigos em parafuso e os maridos à beira de fazer as malas. Mas não é um exclusivo dessas, infelizmente!

 Há pais que não se convencem de que, embora ter filhos seja a coisa mais maravilhosa e especial do mundo, ser mãe/pai não os torna únicos e sobre-humanos. 

E como tal, compensam o desapontamento de serem "apenas" adultos capazes de se reproduzirem e porem no mundo um entezinho querido, bochechudo e saudável  falando como se pertencessem a alguma seita secreta, com uma linguagem em código só acessível aos eleitos- e por eleitos entenda-se "pais super extremosos e fanáticos de todas as novidades e exageros". Afinal, os pais normais e escorreitos das ideias são assim uma espécie de hereges que não recebem convites para os baby showers a imitar as Kardashian nem para as festinhas com tupperware cheias de biscoitos de linhaça recomendados pela baby blogger mais pequeno-burguesa do momento. 




Para alguns, esta é uma forma de má criação passiva, de pôr de parte quem ainda não tem filhos (ou quem até tem uma data de bebés mas não alinha nessa cassete de maternidade ao estilo doutrinação comunista). Assim como quem diz "oh! esta não sabe? Pois, não tem filhos, coitada! ..." ou "olha....esta tem uma data de filhos e não sabe de cor a tabuada das idades por meses? Que péssima mãe!"  

Porém, nem todos os pais que têm este hábito o farão por serem pretensiosos: muitos haverá que dizem assim por ver os outros dizer, e outros ainda porque estão tão assoberbados com os cuidados que uma criança exige que se esquecem de que não estão a falar com o pediatra ou outro profissional de saúde infantil- únicas pessoas a quem interessa, de facto, saber com precisão matemática a idade da criança depois do primeiro ano!

Aliás, segundo a revista "Pais e Filhos", a partir dos dois anos (24 meses, ora tomem!) o petiz já não é um bebé e sim uma criança, logo não é desejável continuar a tratá-lo como um anjinho de colo. Nem a contar-lhe a idade por meses. De qualquer modo, eu que não tenho a mínima pachorra e gosto sempre de fazer troça de tutti quanti, perante tal palavreado custa-me horrores não perguntar, de rajada, com o ar mais inocente deste mundo: 37 meses? Que amoroso! E isso em linguagem de gente crescida, quanto é?


6- Trazê-los no carrinho até chegarem à escola primária



OK, eu percebo que nem todas as crianças se desenvolvam ao mesmo ritmo, tenham a mesma resistência ou caminhem à mesma velocidade. Também compreendo que algumas precisem de dormir a sesta e que usar o buggy seja uma "bengala" fácil quando se precisa de fazer compras à pressa, por exemplo. No entanto, se a cria tem mais de quatro anos e/ou PARECE ter mais de quatro anos, se é capaz de andar/saltitar/correr perfeitamente e enfim, se já tem idade para não gostar que a confundam com um bebé...se calhar é melhor pensar duas vezes. Sempre que vejo um par de pernas compridas a espreitar para fora de um carrinho de bebé, encolho-me entre a vergonha alheia e o receio de que a pobre criança tenha um problema de saúde qualquer. 

 Aliás, esta mania desperta aversão a tanta gente que há tempos até foi criado um blog a satirizar o tema. De mais a mais, neste artigo em que várias mães "empurradeiras" foram entrevistadas sobre o assunto, a maioria das justificações era de morrer a rir: desde "ele chora e diz que quer ir a pé, mas como é muito irrequieto e não me deixa fazer as unhas em paz, afivelo-o no carrinho quando vou ao salão para ele não incomodar ninguém" (prioridades, minhas senhoras, há que ter prioridades -nails before babes!) a "ainda não estou preparada para que ele deixe de ser bebé" (esse rapazinho vai precisar de tanta terapia!) passando por "eu tentei que ele começasse a ir pelo seu pé, mas ele fazia sempre cenas...antes o carrinho que uma birra!!" (como alguém comentou: se ele chegar aos 10 anos e quiser beber tinto ao almoço, vai dar-lhe a garrafa porque mais vale o miúdo enfrascar-se do que fazer birra?).




 E acrescente-se que as entrevistadas eram assim para o rechonchudo: carregar os filhos ao colo por um bocado ou correr atrás deles não lhes faria senão bem. 

Adiante: segundo os especialistas na matéria, este hábito "preguiçoso" não é só  mau no sentido de infantilizar a criança ou de a expor a comentários menos abonatórios numa idade em que começa a ter noção do rídículo ( péssimo para complicações de auto estima). Pode mesmo retardar o desenvolvimento, além de contribuir para a obesidade infantil

Em última análise, revela muito do apego exagerado de certas mães (e se calhar, pais) e é a receita perfeita para criar filhos filhos mimalhos e xoninhas, candidatos a serem o bombo da festa, o bobo da corte, a bola anti stress, enfim, o saco de pancada da turma inteira
E depois vão queixar-se ao psicólogo que a criança é assim meio apoucada, e que na escola o enchem de bolachada e que o mundo é cruel. Nem tudo se pode evitar, o mundo não é mesmo justo e quem quer ser bully arranja sempre pretextos para desancar os outros meninos, mas eu diria que este hábito é mesmo desafiar o destino.
 Fizessem-me isto quando eu era catraia que haviam de ver o que era birra, espanejar no chão, berrar como uma possessa até ficar roxa, enfim, havia de ser o bom e o bonito que nem com um exorcista me acalmavam até pararem de me envergonhar com o malfadado carrinho. Deus dê a estas crianças grandes ataques de insurreição, ou estão desgraçadas nesta vida!

Em suma: como diria o poeta, mas as crianças, Senhor? Porque padecem assim?



Sunday, January 21, 2018

Sobre o tema do momento: o noivado do Príncipe Harry, of course.



Há umas semanas fui a Windsor e - surprise, surprise- já há merchandising alusivo ao noivado do Príncipe Harry para turista comprar.

 As lojas de souvenirs não perdem tempo, embora me pareça que o entusiasmo com a nova "Princesa" (tecnicamente o título não será esse, mas já se sabe que o povo vai falar assim e pronto) é maior por parte dos americanos. Os britânicos de gema com quem calhou falar sobre o assunto parecem encarar o caso com a tranquila fleuma inglesa, misto de indiferença e de ironia que se traduz num breve encolher de ombros - uns porque não são monárquicos, outros porque são e acham que a longo prazo, estas modernices serão o fim da Família Real como ela é suposto ser: sinais dos tempos. Para estes, Harry sempre foi o rebelde da família e esta é a sua irreverência suprema, a maior declaração anti-sistema que poderia fazer.




Ora, alguns caros amigos e seguidores do Imperatrix andavam há algum tempo a pedir-me que comentasse o assunto, mas confesso que andei um pouco renitente (e preguiçosa) em fazê-lo. Estive para dizer alguma coisa em Setembro, aquando da entrevista da actriz Meghan Markle à Vanity Fair (que há muito passou de uma revista com classe a uma revista do mexerico; basta ver a sua adoração pelos Kardashians) quando a menina apareceu, risonha e a impar de orgulho, falando no "namorado"  - um termo algo vulgar quando o assunto é a Família Real Inglesa ou, de resto, qualquer família de condição semelhante. 




Na altura, a colunista Sarah Vine do Daily Mail apontou, aliás, algo válido a propósito, receando que os príncipes estejam a deixar de parte o mistério que faz parte do allure dos Windsor para se tornarem celebridades. Assino por baixo (já lá vamos) embora seja preciso concordar que a Duquesa de Cambridge tem feito, nem mais nem ontem, o que se esperava dela. O Príncipe William teve sorte com  a sua escolha: por muito que se pudesse apontar aos pais de Catherine Middleton um certo e eficaz alpinismo social, a verdade é que souberam mandar a filha para as escolas certas e ( mais importante) que a jovem que viria a ser Duquesa de Cambridge se conduziu com dignidade desde o início do namoro, mesmo em situações de deixar qualquer uma em parafuso; revelou, em tudo, ser uma jovem de grande bom senso. Já estou como o outro: classe média ou não classe média, aquela é uma senhora como deve ser!

Voltemos a Meghan Markle e à minha preguiça de comentar: em casa sempre me martelaram "quem não tem nada de simpático para dizer, é melhor morder a língua". Ou neste caso, manter os dedos quietos. 




Para não ser desagradável, comecemos então pelo que tenho a dizer de positivo sobre o casal:

-Primeiro (e já vos tinha dito isto via Facebook ainda a procissão ia na ponte) aprove-se ou não a escolha de Sua Alteza (que não temos nada que aprovar ou desaprovar e é para o lado que os envolvidos dormem melhor, bem entendido) há que tirar o chapéu ao senhor por ter sido valente e defender a sua dama. Enquanto o irmão mais velho arrastou Catherine anos a fio sem deixar claro se haveria casório ou não (o que valeu à pobrezita o cognome desagradável de "waitie Katie") e deixava que os amigos mais snobs troçassem abertamente dela, Harry não esteve pelos ajustes e mal muitas vozes se levantaram, pimba: fez sair um comunicado oficial avisando que deixassem a senhora em paz. É de homem! E isto ninguém lhe tira, por mais que o acusem de ser no mínimo ingénuo ou (pelo contrário) de saber perfeitamente o que faz, casando com uma actriz divorciada no firme propósito de arreliar os mais conservadores.

- Segundo, pondo de parte as motivações/sentimentos da noiva, já que das do noivo não podem restar dúvidas: Ms. Markle é uma rapariga que se sabe valorizar. Apesar das diferenças sociais, de ser mais velha do que ele, divorciada e com um background questionável, ela não se intimidou com nada disso nem  se vendeu por menos: relação séria e antes que o moço tivesse tempo de dizer um "Credo" zumba, zás-trás, noivado. 




É claro que (não sejamos tão naive) a esse "brio" pode andar somada uma certa dose de descaramento (ou chutzpah, como se diz por cá de quem tem muita lata): desse a relação em noivado ou desse para o torto, Ms. Markle estaria sempre numa situação win- win. Ao contrário de Harry, ela nunca teve nada a perder.  Se corresse bem, óptimo: vida resolvida e conto de fadas realizado.  Mas se corresse mal, não se desperdiçava tudo: sempre passaria de actriz coadjuvante relativamente obscura a uma das mulheres mais famosas do planeta, com tudo o que o mediatismo representa, em termos de carreira, na era das redes sociais. Além disso, elevaria, hors-concours, o seu prestígio no mercado dos maridos. Not bad. 



Mas deixando isso de lado (pois não podemos afirmar o que vai realmente no coração da noiva) ver uma rapariga com um bocado de dignidade e auto estima na época das amizades coloridas e relações casuais é sempre refrescante. 
Bom trabalho, you go girl, more power to you, etc. Em última análise, Miss Markle é do Sul dos Estados Unidos e as Southern Belles (venham das mais  patrícias famílias ou descendam de escravos, como é o caso) são famosas pela lendária habilidade de se deixarem cortejar à moda antiga e pela sua arte de flirtar. Também são conhecidas por recorrerem às poções mágicas do Hoodoo e do Voodoo, mas embora isso desse uma graça enorme à história, não vamos agora pelas crendices.

Acima de tudo, os casamentos dos dois filhos do Príncipe Carlos provam que ambos são muitíssimo filhos da sua mãe, Diana de Gales. Herdaram dela o carácter romântico e voluntarioso, para o bem e para o mal, e a sua aptidão para lidar com a fama. Essas características parecem falar mais alto neles do que o sentido do dever e  o amor à discrição da família paterna. Depois, estava fadado que haviam de casar com quem bem lhes desse na *literalmente* real gana, por muito "inovadora" que fosse a eleita, e ai de quem os contrariasse.




 Afinal, o público sempre apoiou Lady Di contra o ex marido e contra o suposto tratamento frio que a família Real lhe dedicava. Ao menor sinal de desaprovação, 
aqui-d´El Rei (literalmente) que os pobres príncipes estariam a ser vítimas do sistema. E lá viria o velho argumento que muita gente, sem compreender as subtilezas da tradição e regendo-se só pelo lado novelesco da coisa, atira logo: nem vale a pena escolherem alguém com o pedigree certo para casar - de que é que isso serviu aos pais deles?

Pessoalmente, tenho as minhas desconfianças em relação à noiva do Príncipe Harry e (não que a minha opinião conte para coisíssima nenhuma, mas já que me perguntaram...) estou a dar à história o devido benefício da dúvida. 

O meu pé atrás com Meghan Markle não se prende com o conto da menina mestiça de bairro carenciado que subiu a pulso para se tornar uma actriz televisiva a dar os primeiros passos da celebridade e foi escalando socialmente até fisgar um Príncipe bonito e rico.




Já que falámos no assunto, tão pouco é por Miss Markle ser metade africana (e for all that matters, mais um quarto irlandesa e outro tanto inglesa de origem), uma "novidade" que espantou muita gente, arreliou outra tanta e deixou muito mulherio  afro-americano numa lamechice que só visto.

 Lá ela ser mestiça é  invulgar, mas não caso único; conheço mais do que uma Senhora mulata casada com cavalheiros aristocráticos que é de uma elegância de matar de inveja...o que importa é a beleza, o saber estar e vir de uma família apresentável, que de resto é coisa que não falta em África...
De mais a mais, veja-se Ângela de Liechtenstein, a stylist que casou com o Príncipe Maximiliano, tornando-se a primeira pessoa de origem africana a ser aceite numa família europeia reinante. Then again esta última, embora dotada de um aspecto físico menos espampanante do que Miss Markle, teve uma educação privilegiada, uma experiência de vida diferente e acima de tudo, uma atitude de grande discrição.


Ângela de Liechtenstein 

Tão pouco a minha reserva é por a noiva ser plebeia, sem uma gota de sangue nobre oficialmente a correr-lhe nas veias (que algumas senhoras, como a Rainha Sílvia da Suécia, ainda conseguiram remotamente ir buscar aos tataravós, justificando uma certa ideia de destino traçado). De facto, Meghan Markle até descende de escravos e de gente bastante simples, embora os genealogistas de serviço já tenham ido desencantar um parente aristocrático por via indirecta muito recuada, para o caso não ficar muito mal no retrato. No entanto, volto a dizer que é uma rapariga sulista e regra geral, uma Southern Belle é sempre bem educada. Mary da Dinamarca nasceu plebeia e tem um estilo impecável. Não sendo a receita como manda o figurino, também não é por aí que o gato vai às filhoses.


 Nem é pelo porte: independentemente de a considerarem ou não uma beleza por aí além, ela não terá um ar muito racé, não acho que tenha e de novo, não é pela sua origem étnica (quantas modelos africanas conhecemos com um porte de verdadeiras princesas?) mas tem boa apresentação e é simpática - ou não fosse ela actriz e sempre disposta a acenar para as câmaras. Mais importante, já enquanto actriz ela se dedicava a obras de caridade. Muito bem.  Dito.




Também não é por ser divorciada (o facto poderá sugerir coisas menos boas do seu perfil enquanto esposa, mas depois de Wallis Simpson isso é quase um não- assunto;  e de resto há Letizia de Espanha) ou ligeiramente mais velha do que Harry (voltemos a Ângela de Liechtenstein, 9 anos mais velha do que o marido e é porque tenho preguiça de ir agora buscar mais exemplos). Tão pouco por ser actriz ou por ter aparecido em cenas atrevidas na série em que entrava (por amor de Deus, depois de Mette-Marit na Noruega, que era mãe solteira, e de Sofia na Suécia, ex modelo de calendário e concorrente de reality shows, até é esquisito alguém escandalizar-se...).


A minha desconfiança em relação à actriz prende-se essencialmente com dois aspectos: primeiro, com o facto de (por mais que haja compatibilidade de feitios) o seu background não ter rigorosamente nada a ver com o do futuro marido. 

A História dos sec. XX  e XXI tem bastantes casos de casamentos bem sucedidos entre plebeias e senhores da mais elevada nobreza; mas embora uma relação entre pessoas de estatuto social diferente não esteja necessariamente condenada à partida, convém que haja alguma semelhança de hábitos, convívios, valores, crenças e educação. 




Casos como os de Mette-Marit e Sofia são felizes excepções; porém, se olharmos para a Rainha Sílvia, para Máxima da Holanda, Maria Teresa de Luxemburgo ou mesmo para exemplos mais antigos como Lilian, Princesa de Réthy ou Grace Kelly, todas vinham de famílias tradicionais, umas mais privilegiadas do que outras, algumas mesmo com algum brilho aristocrático aqui e ali. Letizia de Espanha, embora republicana e tão classe média como se pode ser (e bem lhe custou habituar-se) levara anos, por motivos profissionais, a lidar publicamente com assuntos sérios. Quanto a Sofia, não só a relação com o príncipe foi demorada, dando-lhe tempo para se ajustar, aprender e revelar a sua pessoa, como parece ser uma moça tímida, sem grandes ideias feitas, de feitio adaptável, que gosta de agradar e avessa a causar mais fricções.  Afinal, nenhuma relação vive só da paixão inicial. É preciso haver assunto de conversa e similaridade na forma de pensar, agir e ver o mundo; em última análise, é necessário conviver com a família do marido. Por muito que o Príncipe Harry já tivesse insinuado que adoraria ser plebeu, não pode transformar-se no que não é... e as raízes falam mais alto, cedo ou tarde.


O meio irmão da actriz (preso este ano por ameaçar alvejar a namorada)

Já Meghan Markle, o seu noivado foi repentino (o que foi bom para conseguir o anel a curto prazo, mas também pode indicar que a proposta foi feita "de cabeça quente"). Depois, os seus convívios de eleição eram com gente de Hollywood (os seus amigos de infância acusam-na mesmo de calculismo e alpinismo na escolha das amizades) e a sua família é, no mínimo, um bocadinho complicada- tanto que o noivo ainda nem conhece o pai da menina e já sugeriu, como quem não quer a coisa, que a sua futura mulher "nunca teve uma família como se deve" (o que levantou logo reacções dos parentes dela nas redes sociais). De resto, desde os primeiros tempos que a parentela de Ms. Markle não se acanha de fazer revelações desagradáveis a seu respeito, o que não é lá muito edificante.

O segundo aspecto que me faz erguer as sobrancelhas  - além do seu perfil declaradamente feminista  de esquerda e "floco de neve" de Hollywood, com ideias políticas vincadas que não caem bem numa família que deve ser neutra nesses assuntos - é a sua atitude demasiado...pimpona.




 É bom ser confiante, mas a perspectiva de fazer parte da Família Real Inglesa deveria deixar qualquer recém chegada com um mínimo de conhecimento e respeito pela Monarquia e pelo que ela representa convenientemente apavorada - ou, pelo menos, reticente. Isso seria um sinal de maturidade, de modéstia e de consciência daquilo que o seu futuro marido representa. O papel não é só tiaras e holofotes, e vem com uma factura bem alta.



 Viu-se como Letizia de Espanha, para o bem e para o mal, se mostrava apreensiva durante os primeiros anos, o que (se não lhe conquistou imediatamente as simpatias do público) não deixou de revelar sensatez e uma certa noção das circunstâncias. Também Catherine Middleton, embora com um carácter mais afável e extrovertido, aparentou desde o princípio ser uma jovem ajuizada, capaz de obedecer a quem sabe em vez de entrar por ali achando que sabe tudo e com a cabecinha cheia de ideias da moda. 




Porém, esse não parece ser o caso de Meghan Markle que já falou contra Trump e contra o Brexit, que terá manifestado a sua vontade de ter o casal Obama no casório, que, mal se rosnava que estaria com o Príncipe, escreveu um texto com toda a "cassete" feminista no seu blog (entretanto extinto) em que falava de "tectos de vidro" e que desde o início mostrou uma linguagem corporal pouco adequada ao protocolo: ora agarrando-se à cara metade de forma algo possessiva, sendo que manifestações de afecto muito visíveis não são exactamente encorajadas, ora- mais recentemente - deitando a língua de fora em público. Actos espontâneos que não teriam mal noutras circunstâncias mas que não geram consenso num quadro destes. 



Aquando da sua chegada à recepção de Natal de Sua Majestade (acima) não faltou quem comentasse "vê-se mesmo que está mortinha por acenar à multidão!" por a sua postura ser tão diferente da serenidade mostrada pelas convidadas nascidas e criadas naquele meio, como a linda lady Amelia Windsor (abaixo). Houve mesmo quem lamentasse que a bela Princesa Margarida (conhecida pelos seus ditos snobes e cortantes) já não esteja entre nós para dizer das boas, fazendo além disso figas para que o Duque de Edimburgo, avô do Príncipe, famoso pelos seus chistes, e a sua Tia (Ana, a Princesa Real)  Senhora muito ciosa da sua categoria, pusessem a actriz categoricamente no seu lugar. Realmente, havia de ser uma cena curiosa!




 Aliás, a escolha do vestido para os retratos oficiais do noivado (um modelo Ralph & Russo de gala,  de top transparente, que vale mais de 50 mil libras, enquanto o noivo usava um fato azul mais apropriado para um convívio pouco formal ou reunião de negócios) revela bem que Ms. Markle ainda está bastante confusa quanto ao papel que lhe caberá. O protagonismo que vem com casar na Família Real Britânica não é, de todo, igual ao da fama hollywoodesca.



 Qualquer família Real (qualquer família tradicional, de resto) faz por se afastar de manifestações de vaidade, extravagância, vulgaridade, novo riquismo e ostentação, especialmente quando está no olhar público e se esse público é muito cioso quanto ao dinheiro dos contribuintes. Obviamente sabemos que o vestido terá sido cedido (ou comprado por ela própria com o seu dinheiro) mas da Família Real Britânica espera-se uma mistura de elegância e simplicidade - razão pela qual a sua futura cunhada, a Duquesa de Cambridge, opta tantas vezes por marcas acessíveis ou repete toilettes. Fazer a sua estreia num vestido de Cinderela, todo revelador ainda por cima, não é a melhor forma de mostrar seriedade e responsabilidade, nem de calar quem a aponta como "uma americana deslumbrada".

De todo o modo, esta estória faria justiça à ideia "feminista até encontrar o seu príncipe encantado" (o que vá, não é necessariamente mau) se a actriz não tivesse revelado há dias, perante uma multidão, que o seu noivo também é feminista- termo que é no mínimo fracturante nos dias que correm. Estarrecedor para quem, por esta altura, já terá sido avisada que é suposto não mostrar opiniões políticas em público...


Cressida Bonas

 Pessoalmente creio que um Príncipe de uma Casa reinante (ou mesmo qualquer fidalgo com muitas responsabilidades) embora não tenha necessariamente de casar "de igual para igual" deve ser muito criterioso na escolha. Afinal, um homem assim não se trata de qualquer pessoa; não enfrenta muitas das dificuldades de qualquer mortal; mas como tudo vem com um preço, não goza também das liberdades de qualquer anónimo...

 A ex do Príncipe, a também actriz Cressida Bonas, era aparentemente perfeita: neta do Conde de Howe, elegante, talentosa, uma verdadeira rosa inglesa. Mas se a ideia é alguém mais "terra a terra", mais "normal", não faltariam jovens de bom nome, oriundas de famílias antigas mas com brasões estafados pelo tempo que embora tenham sido criadas de forma mais "comum" e despretensiosa, partilhariam os mesmos princípios e educação, adaptando-se facilmente ao quotiano que agora espera Meghan Markle. 

Porém, "o coração quer o que o coração quer"; quanto a factos não há argumentos. Harry parece ter ido mais pelo coração que pela razão e seguido uma via menos discreta, menos tradicionalmente adequada: certo é que o glamour, a rebeldia e os holofotes lhe agradam. O tempo dirá se é amor verdadeiro ou uma paixão repentina que não resistirá (por parte dele) às diferenças e (por parte dela) às restrições que a posição exige. 

Como não há felicidade maior do que casar com a pessoa que se ama (e toda a gente gosta de histórias românticas que acabam bem) pela minha parte desejo-lhes a maior sorte do mundo. Ao noivo, faço votos de que tenha muita, muita paciência, principalmente quando a primeira fase da paixão acalmar. À noiva, que Deus lhe conceda muita sabedoria para se deixar ensinar e tirar partido das sua aptidão para a caridade. E a Sua Majestade, que viva muitos e bons anos para manter toda a família a agir como deve...











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