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Monday, August 3, 2015

Quando o amor e a conspiração caminham de mãos dadas


Por estes dias dei um segundo olhar a Spartacus, talvez a minha série preferida dos últimos anos. Os detalhes são tantos, o enredo é tão rico em peripécias (e esquemas!) que há sempre algo que escapou. 

 Detive-me então em Glaber e Ilithyia, o casalinho de romanos que, não contente tramar contra todo o elenco, ora se ama, ora se odeia, a pontos de conspirar entre si. O mais curioso é notar como actualmente há por aí tantos casais assim...

Duas almas intensas e orgulhosas, os dois patrícios tantas fizeram um ao outro que a dada altura era difícil acompanhar as suas idas e vindas...Glaber era capaz de adoração, mas também da mais fria crueldade para com a mulher. Por sua vez, a arrogância e tibieza dele irritavam-na e ela fazia outro tanto, mas pelas costas. O certo é que ele abusou, castigando-a severamente. Tão mal a tratou que Ilithyia achou que todo o amor que sentia por Glaber se tinha esgotado, e urdiu uma trama para se livrar dele e casar com outro - tarefa simples na República de Roma...



 Ele descobriu, ficou reverdido, desmanchou a marosca, fez dela uma prisioneira, traiu-a e só não a mandou para o outro mundo porque desejava muito o herdeiro que vinha a caminho...

Em suma, quis a mulher de volta... mas para dar alívio ao orgulho ferido maltratando-a. Não deixou de estar apaixonado por ela, mas amor atraiçoado tinha-se transformado mesmo numa espécie de ódio, uma raiva surda e sádica que só encontrava alívio nas retaliações mais mesquinhas.
Tornou-se ainda mais cruel e vingativo do que era, a pontos de ela ter medo dele e dizer "mas como é que eu pude julgá-lo fraco? Há um tal ódio nos olhos dele que nem uma tempestade o poderia apagar".



E pela lógica "quanto mais me bates, mais gosto de tiIlithyia  desesperou-se, porque não conseguia voltar a cair-lhe nas boas graças por mais que fizesse. 

Voltemos à actualidade: relações complexas destas, com pessoas que se adoram mas se arreliam (e às vezes fazem pior do que isso) não são raras. Tenho visto muitos belos casais a sorrir para os convivas enquanto sussurram insultos e juram vinganças (reconhecem-se facilmente: ele de olhos em fogo e ela a fazer-se pálida como a cera). 

 São relacionamentos em que nunca se respira livremente, em que se exagera a frase de Oscar Wilde, "everything is about sex, except for sex: sex is about power". Amores em que a mulher procura fazer-se respeitar mas acaba por sair a perder, e em que o homem não tem, já que odeia, a sinceridade do repúdio: é como um alcoólico que se cura, mas mantém a garrafa por perto não se sabe bem porquê...









A paixão acima dos interesses


O bikini de Ursula Andress, que a catapultou para o estrelato em 1962, foi responsável por encorajar muitas mulheres a  finalmente experimentar um (embora o modelo moderno se estreasse em 1946, existissem fatos de banho de duas peças já nos anos 30 e até na Roma Antiga se usassem uns antepassados do dito cujo). Claro que no início dos anos 1960 todos os bikinis eram apropriados e tinham classe; hoje é preciso procurar um bocadinho melhor.

Bikinis à parte, Ursula nunca ficou conhecida por muito mais além da beleza, do seu lindo cabelo, da boa figura e das feições cinzeladas: até fez de Afrodite em Clash of the Titans.

 Mas também primou por ser sincera. Quando lhe perguntaram porque é  em 1965, no auge do êxito e sem necessidade alguma disso, concedeu posar para a Playboy, respondeu: "porque sou linda!" (o que vá lá, sempre é uma motivação melhorzinha para dar nas vistas e ganha um ponto pela honestidade...). 

 Ursula também disse em tempos "em mim sempre tiveram mais força as paixões do que os interesses". E acredito que fosse verdade. Não seria a primeira nem a última mulher bonita a ser destituída de cálculos, a ir onde o coração a levava em vez de fazer da sua beleza arma de arremesso. 


 Sinceramente, pelos casos que tenho visto, as mulheres mais pretendidas não têm tempo para ser fatais, para estratégias nem cálculos: a vida apresenta-lhes espontaneamente tantas opções (nem todas boas; daí haver tantas beldades infelizes) que a dificuldade está em fazer escolhas acertadas. 



Por exemplo, lembro-me de uma jovem professora que tive de quem gostava muito. Não se parecia com Ursula Andress; tinha mais de Cleópatra como a imaginação popular a pinta. Era linda, além de inteligente e gentil. Tinha uma pele perfeita, olhos verdes rasgados e um narizinho que parecia obra de bisturi, sem ser. Eu conversava bastante com ela mas achava-lhe sempre um ar um pouco triste. Um dia comentei o facto com uma rapariga da minha turma, que me contou que aquela mulher linda e elegante, tão simpática, tinha sido abandonada no altar pelo noivo. Além da vergonha, fora um grande desgosto porque gostava mesmo dele...perdi o rasto à professora, mas nunca me esqueci disto. 

 Muitas vezes homens e mulheres têm mais a recear das raparigas sem graça, mas ambiciosas e atrevidas, dos que de muita Ursula Andress por aí - mesmo das que têm a imodéstia ou a ingenuidade de se reconhecer umas Afrodites, como ela.

Sunday, August 2, 2015

Beatriz Costa dixit: que mereciam estes "ricos maridos"?


Já por aqui mencionei várias vezes como gosto dos livros de memórias de Beatriz Costa. A nossa simpática actriz viajou por todo o mundo e privou com as personalidades mais extraordinárias, de Picasso a Lana Turner. Tudo quanto se possa imaginar de gente interessante, de ícones vivos ou mortos, das artes às letras passando por pessoas da melhor sociedade, de todos guardou histórias para contar.

 Apesar de ter aprendido sozinha a ler e escrever aos 13 anos (alfabetização que completaria mais tarde à mesa da Brasileira, com a ajuda de Almada Negreiros e outros grandes vultos) descrevia as suas aventuras com uma graça, uma eloquência e uma vivacidade ímpares. As suas recordações são um verdadeiro estudo de costumes...

 Ora, a dada altura Beatriz passava largas temporadas em Paris e era íntima de Elsa Schiaparelli, em casa de quem se faziam animadas tertúlias. Como ao Sábado a aristocrática designer dava folga ao pessoal doméstico, cada convidado dava a sua colaboração para fazer o jantar e lavar a louça, de modo que havia frango cozinhado por Greta Garbo e copos limpos por Salvador Dali!



 Também se tornou uma fiel cliente da Maison Dior e das Galerias Lafayette, o que fazia com que muitas senhoras brasileiras e portuguesas a maçassem para lhes servir de cicerone para compras na Cidade-Luz. E assim pôde Beatriz Costa aferir um triste facto:

"Nisto de gastar dinheiro, a brasileira é mais arrojada. A mulher portuguesa depende muito do visto conjugal para os seus gostos...conheço senhoras riquíssimas que nunca vestiram um modelo! 
Em compensação, conheço maridos dessas mesmas senhoras que sustentam concubinas que só vestem de Paris e de Roma...".

Que na época uma mulher, se não tivesse muito de seu (ou muita mão nos seus haveres, pois conheço não poucos casos de dotes espatifados pela cara metade) dependesse do marido para pagar os seus arrebiques, vá que não vá. Agora essa dupla punhalada era imperdoável, e o pior é que não é coisa do passado...tenho ouvido muitos episódios aviltantes e recentes a provar o adágio popular "as primeiras são vassouras, as segundas são senhoras". Insulto a dobrar, à fidelidade conjugal e ao armário!

 Como se não bastasse sujarem de lama os vestidos das legítimas, ainda tratam, como uns perfeitos palermas, de garantir que os compram de melhor qualidade às malucas com quem passam o tempo, na maioria dos casos indignas de engraxar os sapatos às mulheres que têm em casa...


Isto enquanto as esposas, coitadas, sabendo ou não, ricas ou não, se privam deste ou daquele pequeno luxo ou conforto pela boa economia do lar. Tal como antigamente...

Se um homem infiel é o piorio do intolerável - ou seja, nenhuma mulher digna tem obrigação de suportar tal humilhação - um que é assim mas não distingue o trigo do jóio e coloca uma doidivanas no mesmo plano (ou até acima) da mulher que leva o seu nome, não sei o que merece.

 Enquanto actualmente a maior parte opta pela tristeza do divórcio (cujas consequências são muito relativizadas) a solução de outros tempos e menos comum agora, para uma senhora de brio, era a separação como mandava a Igreja e a boa sociedade. Sacudia-se a lama das saias e retribuía-se o sofrimento com o desprezo. 


 Algumas iam além disso e desciam a pagar na mesma moeda, como uma certa duquesa encantadora cujo marido trocou o conhaque pela aguardente e só estava contente nas piores companhias femininas: separou-se, manteve os seus privilégios e fez outro tanto. Tomava amantes e despedia-os antes que dessem problemas, dizendo-lhes "se alguma vez nós, mulheres, fôssemos falsas e cruéis para os homens, estaríamos no nosso pleno direito; seria uma mísera compensação da muita perfídia com que os senhores nos tratam...". 

 Não concordo que se proceda assim, mas é compreensível que o abismo atraia o abismo, que asneira atraia asneira. Até S. Gregório Nazianzeno avisava com que cara quereis exigir honestidade de vossas mulheres, se vós próprios viveis na desonestidade? Como lhes pedis o que não lhes dais?". Haja juízo...



Saturday, August 1, 2015

A nobre arte de... cortar os Nós Górdios (vulgo atrasos de vida)


Contava a lenda que quem desatasse o Nó Górdio - uma embrulhada dificílima de desfazer mesmo por uma data de escuteiros empenhados, que ficava lá para as bandas da Turquia actual - se tornaria senhor de toda a Ásia Menor.

Alexandre, o Grande (um dos meus fraquinhos históricos) não era homem de meias tintas; não gostava de perder tempo nem apreciava puzzles. Ouviu a fábula, foi ao local, olhou para aquilo e em modo não sabendo que era impossível, foi lá e fez, não esteve com meias medidas: com uma espadeirada cortou o nó e problema resolvido. Em segundos desfez um imbróglio que ninguém conseguira deslindar por 500 anos e lenda ou não, o certo é que a profecia se cumpriu. 


 "Cortar o Nó Górdio" tornou-se um sinónimo de pensar outside the box, como agora se diz. Mas sem pretender comparações com Megas Alexandros (ainda que tivesse nascido nessa época e contexto, havia de faltar-me a paciência para andar anos a fio por montes e vales a conquistar terra atrás de terra) penso que me ocorreria a mesmíssima coisa. Para quê perder tempo com voltas e voltinhas quando bastava cortar o raio do nó e passar a outra coisa?  E não serei a única, creio...

Acho mesmo que o mundo se divide entre as pessoas que gostam de complicar a cadeira e as pessoas que preferem descomplicar. As pessoas que adoram alimentar mistérios prolongados e as que acreditam que os enigmas até podem ter a sua graça mas existem para serem resolvidos a seu tempo, de modo a passar rapidamente ao próximo nível.


Entre as que conjecturam sobre o ovo e a galinha e as que decidem o que fazer com os ovos. Entre as que adoram séries como Lost e cubos mágicos e as que se cingem aos factos que são úteis e aos argumentos com pés e cabeça. Entre as que se divertem a analisar o problema e as que se voltam para as soluções, portanto.

 Um e outro tipo existem quer entre os homens, quer entre as mulheres. No entanto  - e voltando ao nó - a julgar por certos estudos, seria de pensar que uma mulher, mais detalhista, talvez estudasse uma forma inteligente de desatar a corda em vez de partir logo para uma solução radical. E que um homem pensasse, como Alexandre, "não estou para lacinhos e cordinhas, que mariquice!"

Alexandre e Roxana, sua mulher

Mas quer-me parecer que há cada vez menos Alexandres Magnos entre a população masculina; que o pensamento racional, despachado e decidido tem vindo a ser substituído por uma mentalidade que é mais de criar nós do que de os desatar...mercê da vida sedentária ou de uma hipotética maleita que para aí anda, não sabemos.

A verdade é que é uma surpresa ver um cavalheiro que pensa como Alexandre! E que por outro lado, quando uma mulher com o seu quê de Alexandra (ou de Roxana, vá) encontra um nó górdio e tenta durante muito tempo resolver o enigma, acaba por ser movida pela razão. E não sei por que graça, não sei por que inspiração, trata de o separar com uma lâmina e pronto.

Morre o nó, acaba-se o mistério. Não se fica senhora da Ásia Menor mas fica-se senhora de si mesma, o que já não é mau...






Friday, July 31, 2015

As coisas que eu ouço: o sentido de humor é como o vinho do Porto


Ouvido hoje num café: um velhinho que chamá-lo velhinho é pouco, bastante corcovado e apoiado em duas muletas, mas com um sorriso de orelha a orelha, na brincadeira com o empregado e os clientes que lá estavam:

- Cuidado com os coxos, cuidado com os coxos...

-...que eles andam armados!? - atalhou alguém.

-....não - respondeu o idoso - que eles caem e já não se levantam!


Não esperava por aquela tirada! Fez-me rir e deu-me que pensar no que conheço para aí de gente nova, com perfeito uso das duas pernas e do resto mas sempre com cara de quem comeu e não gostou. Troçar dos desaires e de si próprio, ter um certo humor negro ou chapliniano, não perder a ironia é das características que mais admiro. Quem leva tudo demasiado a sério corre o risco de não ser tomado a sério porque anda sempre inseguro e tem menos chances de chegar a velho.

De certeza que aquele senhor, na sua juventude, conquistava muitos corações, que isso de as mulheres gostarem dos homens que as fazem rir não é mito nenhum. Um homem razoavelmente atraente que seja expressivo e invente private jokes é um perigo, porque nada baixa tanto as defesas femininas nem une tanto as pessoas como partilhar gracinhas. Deve ser o terror lá no centro de dia...



Respondendo a 5 frases (deles) sobre as mulheres- de Byron a Cervantes


Há muita utilidade em entender a forma masculina de pensar sobre as mulheres - uma arte que as nossas avós (e as publicações que eram escritas para elas) dominavam, mas que tristemente, anda bastante esquecida.

É óbvio que as senhoras tiram valiosas lições da experiência umas das outras, e não só no que toca a modas & elegâncias. Porém, tanto homens como mulheres só têm a ganhar em compreender como o outro lado sente e raciocina a seu respeito.

Acredite-se na "guerra dos sexos" ou na saudável cooperação, apliquemos Sun Tzu: quem conhece o "inimigo" e a si mesmo (a), não tem de temer o resultado de cem batalhas

Ora vejamos cinco frases sobre nós: umas elogiosas, outras que no mínimo dão que pensar. Mas lembrem-se: da basófia masculina, há que acreditar em metade para não nos descabelarmos...


1- Montesquieu: "Não se fala o suficiente nas mulheres virtuosas, mas fala-se demasiado nas que não o são".

O nobre filósofo mal sonhava que em pleno sec. XXI, isto seria verdade como nunca. Já por aqui se criticou a velha falácia "as meninas boas vão para o céu, as más para toda a parte" que tão desagradáveis resultados dá...



2 - Lord Byron: "Vi a fúria das mulheres e a das ondas e lamento mais os maridos que os marinheiros".

O autor de D.Juan teve dois casamentos profundamente infelizes, inúmeros affairs e viveu pelo menos um grande amor (com uma mulher casada) que durou até à morte - o que nos permite supor que terá testemunhado a ira justa de mais de uma mulher. É claro que as há rezingonas, tagarelas, destemperadas e inseguras, de fazer perder a paciência a um santo, que peguilham por tudo, não sabem quando refrear a língua e dão má fama a todas as outras. Mas no caso de Byron (bonito e genial, mas instável) só uma santa para viver com ele. Ou um tapete.


3- Do Talmud: "Dez medidas de palavras desceram ao mundo: as mulheres ficaram com nove e os homens com uma".

Algumas vozes da ciência sustentam que os homens são mais visuais e focados numa só tarefa de cada vez, enquanto as mulheres são mais verbais e capazes de se concentrar em várias coisas em simultâneo. Acredito que isto seja até certo ponto verdade, embora não haja duas pessoas iguais. No entanto, permitam-me discordar da máxima rabínica: há homens mais dados à cordilhice e mexeriquice do que várias mulheres juntas, especialmente quando são ciumentos e querem marcar território. Aí perdem toda a discrição e racionalidade masculina, perdem a cabeça e tornam-se do mais indiscreto que há, mandando às urtigas a regra "a gentleman won´t tell". Se for preciso, exageram e inventam só para pôr um rival a andar. E não falemos das gabarolices de alguns uns com os outros  sobre as raparigas com quem não se importam (ou que os deixaram de coração partido; também acontece).  Acham que era à toa que as avozinhas avisavam "portem-se bem, que é muito fácil uma rapariga ganhar má fama"? De certeza que não eram os passarinhos a espalhar boatos...


4 - Cervantes: "Deus criou o Homem e a Mulher a seguir. Primeiro fazem-se as torres, depois os cataventos". 

Não vamos aqui dissertar sobre a nobre utilidade dos cataventos, nem sobre a obsessão do autor de D. Quixote com moinhos de vento, cataventos e tudo o que era empurrado pelo dito. Then again, é inegável que há muitas mulheres catavento, ou cabeça de vento, que dão às restantes a reputação de desmioladas. Mas creia-se ou não nas máximas "o homem é a cabeça, a mulher é o coração" ou "os homens governam o mundo, mas as mulheres governam o coração dos homens" (há quem ache isto romântico, há quem fique furiosa só de pensar em tais ideias) a verdade é que Cervantes parecia detestar mulheres levianas, mas valorizava as sensatas e virtuosas. Ou seja, não media todas pela mesma bitola. Reconhecia a raridade de uma mulher serena e discreta, pois disse "nenhuma jóia sobre a terra se pode comparar à mulher de honra e virtude".



5 - Nietzsche: "A influência de uma mulher diminui na medida em que aumentam os seus direitos e pretensões".

Não querendo pôr os meus sapatinhos em seara alheia, tenho para mim que Nietzsche deu ao mundo algumas ideias geniais ("o abismo atrai o abismo") mas outras francamente assustadoras e que se toda a gente lhe desse ouvidos, que seria. Acabou louco, por isso há que tomar o que diz com o devido grão de sal. Esta frase é daquelas que dá realmente que pensar. É verdade que muitos pontos fortes tradicionalmente atribuídos ao feminino - a astúcia, a subtileza, a  delicada capacidade de mover os acontecimentos nos bastidores - terão sido aguçados pelo papel não oficial que desempenhavam na vida pública. Não possuindo, em determinadas épocas, poder de facto (embora tal não as impedisse de levar a água ao seu moinho ou de serem levadas a sério quando era caso disso) valiam-se do poder psicológico, faziam da fragilidade força, usando a ideia Bíblica "Deus pôs no mundo as coisas delicadas para vencer as fortes". E para o bem e para o mal, essa é uma forma de poder que fica esquecida, ou que deixa de ter tanto efeito, num cenário de absoluta igualdade entre os sexos. 
 No entanto, há outro aspecto: quanto mais barulhenta e reivindicativa uma mulher é, menos probabilidades há de ser levada a sério, até pelas outras mulheres, ainda que defenda pontos de vista justos. O comportamento senhoril e sereno é bem vindo em toda a parte. Por isso, nesta Nietzsche tem uma certa razão, faltou-lhe foi diplomacia...









Thursday, July 30, 2015

Lição de 1905: beleza sem isto é perigosa.

 


Esta semana veio ter-me às mãos outra remessa cuidadosamente seleccionada dos livros que mais me agradam e que ando sempre a caçar - velhinhos e cheios de conteúdo, do tempo em que era seguro entrar numa livraria sem sair de lá com uns neurónios a menos, com ideias quaestionáveis e muitas dúvidas de gramática, estilo e ortografia. 

Alguém se há-de ter desfeito da vasta biblioteca do avô ou tio, um tal Sr. Azevedo que possuía volumes e mais volumes sobre religião, ciência, história e costumes em pelo menos quatro línguas e comprados entre 1930 (embora alguns fossem mais antigos; as dedicatórias lá estavam) e 1970 e pouco. Trouxe uma caixotada deles, pensando com amizade no desconhecido Sr. Azevedo, essa alma irmã cujos herdeiros não teriam grande apreço pela sua cuidadosa escolha de leituras...coisa assaz estranha. Desde pequena adorava virar do avesso os livros que o avô, que não conheci, deixara lá em casa, e ainda guardo a maior parte. Com muita pena minha, perdi a edição de Jane Eyre que a avó adorava e que me recomendou. Foi a minha primeira introdução às irmãs Brontë.

Por respeito ao Sr. Azevedo, esperemos que as suas netas e sobrinhas não se regalem a ler asneiras! Mas não apostava...

Adiante; entre os que trouxe comigo, estava um encantador livrinho de contos italiano, pretendendo ser um estudo da psique da mulher: Psicologia Feminina -A proletária- A burguesa- A aristocrata, de Paolo Mantegazza, Florença, 1905.


Depois de introduzir a obra com o aviso "às mulheres de hoje, para que nos preparem a mulher do futuro" de dissertar deliciosamente sobre a mulher do seu tempo e de tecer algumas considerações proféticas sobre a opinião que os leitores de épocas vindouras teriam sobre o seu livro-documento (voltarei a isso noutro post, com certeza), o autor lança-se então na análise  de mulheres de todos os cantos da sociedade.


 Achei particular graça a este trecho de uma das estórias, sobre uma rapariga lindíssima:

"A nossa rapariga lia no rosto dos homens todos esses desejos, dos quais media a força, descobria a direcção e interpretava a origem. E sem o ter aprendido com pessoa nenhuma, a não ser com Eva dos tempos remotos, sabia, com o olhar e com o sorriso, sem palavras, aquecer os desejos muito frios e friar os muito ardentes (...) aquecendo e regelando, mas espalhando sempre pelos sulcos das almas as sementes subtis e infinitas da esperança. Nesta arte as mulheres muito belas, que devem quase sempre e necessariamente ser loureiras** empregam uma diplomacia de tal ordem que bastaria para imortalizar muitos estadistas."

 E atrevo-me a dizer, fazendo a vontade ao autor que muito curioso estava sobre a opinião das mulheres do futuro: ai da mulher, bonita ou feia (mas se for bela, pior ainda) que não possua esse dom instintivo, de auto domínio e de controle sobre as emoções que provoca nos outros. Sem o golpe de vista, carecendo da capacidade de ler os rostos alheios e de gerir estrategicamente as reacções que causa, a mulher torna-se uma presa fácil, uma vítima dessa "primeira divindade" que é a formosura...


**NB- loureira: Sedutora; que faz por agradar.



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