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Monday, March 30, 2015

Sabem aquele momento extraordinário...


... em que se perde a noção do razoável e se deita as culpas ao "caos criativo"? Aconteceu-me esta semana e é muito bem feito, porque não há caminho mais certo para o aperfeiçoamento do que uma boa dose de disparate prévio...

Testam-se os limites, arma-se uma confusão do outro mundo, mas como somos pessoas muito compostas e blasé dizemos a nós próprios que atirar hipóteses a esmo, sem grande ideia do que estamos para ali a fazer nem do que vai sair daquela trapalhada toda, é um estupendo "método de trabalho" e que está tudo controladíssimo.

Não sei se o termo auto basófia já foi cunhado por algum guru da motivação, mas que dá imenso jeito, isso dá. Cuidem-se, guias espirituais do facebook, que ainda acabo a encher o Pavilhão Atlântico com pérolas de auto ajuda destas e a fazer-vos concorrência.

Pequeno tratado do dia: o feio defeito da "garridice"

Ilustração de "As Preciosas Ridículas" de Molière

Garridice

s.f. Qualidade do que é garrido; apuro excessivo no vestuário.

Sinónimo de garridice: coquetismo, faceirice e louçania 


Os velhos compêndios de educação ( e os guardiães dos respectivos princípios ou seja, pais e avós mais tradicionais) reprovavam veementemente a garridice. Confundida muitas vezes com vaidade feminina - ou conotada erradamente com o amor à elegância - a garridice está associada à pretensão, afectação de maneiras, brejeirice, tafularia (ou ostentação) e à coquetterie demasiado evidente.

Quem recebeu esse tipo de princípios lembrar-se-á decerto de ouvir em casa coisas como "uma rapariga não deve ser coquette" ou pior, "levantada", que é um superlativo insultuoso de "estouvada". Tudo falhas de carácter que têm consequências desagradáveis, logo convém a pais e educadores limar desde cedo...

A garridice é um pouco disso tudo, e tem uma particularidade:

Nunca um defeito esteve tanto na moda e ao mesmo tempo, tão fora de moda.

É que a garridice está por todo o lado, mas ninguém fala nela. Ou pelo menos, ninguém a trata pelo nome. O termo caiu em desuso, mas poucas vezes terá sido tão necessário empregá-lo.

 Nos nossos dias a garridice será mais brutalmente classificada como "attention whoring" e é um mal que afecta tanto pré adolescentes como mulheres feitas. O extremo da garridice actual manifesta-se no exagero de selfies e trajes demasiado reveladores ou poses pouco dignas, em conversas namoradeiras ou provocantes em público (chega a ser chocante ver como algumas meninas que mal saíram da infância falam sem que ninguém as corrija) ou na ostentação do "vejam o que comprei".


 Porém, não é preciso fazer coisas tão óbvias e de gosto duvidoso para "escorregar" da elegância para a garridice: é fácil a qualquer mulher que se orgulhe da sua aparência e faça por andar bem e à moda, mesmo moderadamente, cair na tentação de "dar nas vistas" ou de "ofuscar" fulana e sicrana por algum motivo. Mais subtil ainda, não basta preferir roupas discretas e de bom gosto para evitar a garridice, porque ela também se manifesta nas palavras, actos e pensamentos...e pode surgir por capricho, insegurança ou distracção. Como sem elegância interior não pode haver elegância alguma, a vigilância deve ser constante. 

 Então como se foge a tal armadilha na época do "eu, eu, eu", das mulheres super poderosas e super confiantes? Como sempre, procurando o equilíbrio, chamando a si mesma toneladas de bom senso e fazendo diariamente um exame de consciência e de aparência. O maior erro é apontar os defeitos nas outras sem olhar seriamente para si e pensar que se sabe tudo.


  Na aparência:  tão ou mais importante do que ter um personal stylist, boas fontes de inspiração (de revistas e sites fiáveis) e/ou muito sentido de estilo, é ouvir a nossa consciência, mas jamais achar que só a nossa opinião vale. Se uma toilette nos desperta dúvidas - por ser reveladora, ostensiva ou literalmente garrida demais - por algum motivo é. Em vez de despir a roupa em público (o que muita gente faz, salvo seja) uma mulher deve despir-se do conceito demasiado alto de si mesma.
 Não custa nada descer do pedestal e pedir a opinião a pais e avós (ou outras pessoas sensatas) e ao pai/cara metade/irmão, pondo de parte a ideia de que tal parecer será automaticamente "careta" e "antiquado". 

Pessoas mais velhas possuem geralmente uma noção melhor da elegância clássica os homens têm uma visão concreta do certo e do errado onde as mulheres podem errar por ingenuidade.

 Escusado será dizer ainda que a fórmula mais segura será procurar a correcção e harmonia no vestuário, privilegiando a qualidade em detrimento da vontade de ser notada. Abandone-se o instinto de competição, que é o pior inimigo das mulheres. É certo que situações de tensão acontecem e usar algo que transmita confiança é um grande remédio, mas há formas razoáveis de o fazer sem cair no  ridículo. O que é digno de nota destaca-se sem esforço e pelos melhores motivos...

Há que encontrar fórmulas de styling, cabelo e maquilhagem que resultem para que estar apresentável surja facilmente e não seja uma fonte de obsessão constante. 


Nas atitudes: um dos principais (e mais esquecidos) requisitos da elegância é colocar-se em último lugar. Se não pensarmos demasiado bem de nós, dificilmente seremos beliscadas pelas tolices dos outros. Procure-se então ser prestimosa, amável, serena e indulgente com as falhas alheias. Numa festa, ocupemo-nos de ver se a convidada idosa precisa de alguma coisa, se a recém chegada tímida se sente à vontade, etc...e automaticamente deixaremos de nos ralar com a nossa aparência, com a reacção de quem olha ou de cair em comparações com sicrana. A garridice nasce do desejo de importância e da ansiedade em ser notada; procuremos ajudar ou pelo menos, não ser pesadas a quem está, em vez de criar mau ambiente com picardias ou ressentimentos passados. Desculpemos as patetices alheias para sermos nós desculpadas, em vez de encarar cada "desconsideração" como crime de lesa majestade...
 Quem se ofende muito ou procura impor-se a todo o custo desdobra-se por agradar ou ofuscar, e é pior a emenda que o soneto. A discrição cabe em toda a parte, já o espavento pode cair mal.

  Perante irmãs, primas e sobrinhas mais novas, esforcemo-nos por ser naturais, despretensiosas, com um discurso articulado e livres de quaisquer comportamentos brejeiros, de modo a dar um bom exemplo.

Por cada revista de moda que lermos, ou qualquer leitura leve, façamos por contrabalançar com o estudo de um assunto complexo ou elevado, de modo a exercitar tanto a fantasia como o raciocínio - sem no entanto fazer alarde da grande inteligência e cultura, o que pode ser outra forma de garridice e dar uma imagem ainda mais pateta.

 E naturalmente, refreemos a tentação da gabarolice ou de começar toda e qualquer frase com um "eu isto, eu aquilo...".

Pondo em prática a capacidade de observação, torna-se mais fácil dominar essa desagradável inclinação feminina de que quase ninguém está livre...








Thursday, March 26, 2015

Sensibilidade ou bom senso?


Essa é a grande questão do imortal romance de Jane Austen. A propósito deste tema, já tenho dito que lessem as mulheres de hoje mais Jane Austen e menos disparates... evitar-se-ia muito coração partido e muitas tristes figuras (porque se um coração partido pode acontecer à mais sensata, dar nas vistas já está na mão de cada uma).

 É verdade que as opções das meninas e senhoras dos nossos dias são muito mais amplas do que as das mulheres em inícios do século XIX - mas no que toca ao aspecto pessoal, às emoções e à dinâmica entre os sexos as coisas não mudaram tanto como se prega por aí.

A dignidade feminina de uma Lizzie Bennet cabe em qualquer época. E também podemos aprender bastante com as irmãs de Sensibilidade e Bom Senso: a expansiva Marianne e a discreta Elinor.

 Marianne é romântica, sonhadora e mostra sempre o que lhe vai na alma. A sua meiguice conquista rapidamente dois pretendentes- o íntegro Coronel Brandon e o galã John Willoughby. Ora, ser carinhosa e doce é uma das maiores qualidades femininas. É difícil levar qualquer relacionamento a bom porto se uma mulher esconder demasiado os seus sentimentos; porém, a tradição manda que uma mulher retribua os afectos com subtileza e cautela, o que tem razão de ser...

 Pois Marianne - como tantas mulheres actualmente - considera isso uma hipocrisia e manipulação desnecessária. Gosta tanto de John que não disfarça o seu entusiasmo, alimentando o relacionamento com demasiada rapidez, mesmo antes de estar certa do carácter ou das intenções dele. Mais tarde, quando John se desinteressa e procura outra mulher que sirva melhor os seus propósitos egoístas, Marianne tenta desesperadamente recuperar o seu afecto (o que como todo o mundo sabe ou devia saber, nunca serviu para nada em século algum) tornando-se alvo de chacota. Faz o equivalente a inundá-lo de SMS, mas por cartinhas e lembrancinhas. O que não resulta, claro, porque quando um homem não está assim tão interessado...sabem o resto.


 Só depois de adoecer de desgosto é que Marianne decide tomar juízo e ser mais como Elinor- que é sensata, reservada, racional e põe sempre a lógica mundana e as necessidades dos outros à frente dos impulsos superficiais. Porém, a ponderação de Elinor e a forma como guarda os seus sentimentos para si fazem-na passar injustamente por ser uma pessoa fria e desapaixonada.

 O final feliz só acontece quando as duas irmãs conseguem equilibrar a sensibilidade e o bom senso. 

 Se refrearmos totalmente a nossa sensibilidade e delicadeza femininas, é impossível viver e sentir verdadeiramente. Mas nenhuma felicidade durará se não aplicarmos bom senso, calma e racionalidade ao que sentimos. Sem o uso da razão, não se pode usufruir daquilo que o coração, a energia e o entusiasmo conquistam - seja a nível profissional ou afectivo.

 Em cada mulher há uma Elinor e uma Marianne: resta descobrir qual delas fala mais alto, e invocar a outra para temperar a frieza ou o excesso...


AXIS Póvoa de Varzim: escapadinha à moda da Belle Époque


Desde pequena que não passava pela Póvoa de Varzim, mas a sua história como uma das "zonas de banhos" mais elegantes do País sempre me despertou curiosidade. Frequentada pela boa sociedade nortenha desde finais do século XIX, quando "ir a banhos" passou a ser moda, a então vila ganhou uma dimensão cosmopolita, passou a ser um centro de requintadas tertúlias e recebeu convidados ilustres, como o Rei Carlos Alberto de Sardenha, que se veio exilar no Porto e escolheu a Póvoa de Varzim para recuperar do desgosto de ter abdicado do Trono.


O bulício na "Avenida dos Banhos" em 1921

 Sobre o ambiente de ócio que aí se vivia, típico do tempo, escreveu em 1881 o autor Alberto Pimentel: "A mais movimentada de todas as praias que eu conheço. Parece uma peça de Sardou. Ha lojas cheias de gente e gente para encher as lojas. Falla-se, descute-se, joga-se, dança-se. Há animação. A noite, a villa enche-se de luz e de murmúrios. Tem um aspecto venesiano, vista do mar. O amor faz ali cincoenta casamentos por anno; mas as victimas da roleta são em muito maior numero." 


Aspecto da praia em 1882
 Hoje, a cidade conserva muito da sua aura de "destino de recreio"  - ou seja, um passeio ideal para dandis do século XXI. Além da beleza da cidade em si, as acessibilidades são excelentes - é possível ir ao Porto de comboio e voltar a tempo de passar uma bela tarde de praia.

Por isso, fiquei encantada por me convidarem a conhecer o bonito AXIS Vermar Conference & Beach Hotel.
Junto ao jardim, literalmente a dois pulinhos do mar
 Acabado de remodelar, o edifício - com o estilo acolhedor dos anos 70 - apresenta hoje toda uma inspiração náutica. 



A decoração dos corredores (que nos transporta para um filme de Stanley Kubrick) dos quartos com varandas para o mar (soberbos, que nos dão a impressão de estar no interior de um yacht) e do spa (cuja piscina me lembrou os aposentos d´A Pequena Sereia) consegue criar um ambiente muito particular, que desperta a imaginação. 


Com as suas "escotilhas" e jogos de luz, o SPA tem uma atmosfera muito especial

  Apropriado para deslocações de negócios mas também para fugas românticas ou dias de praia em família (os quartos duplos, de dois pisos, são uma opção convidativa para casais com filhos pequenos)  o AXIS Vermar é uma escolha elegante e despretensiosa.

 Interessante também foi ficar a conhecer o projecto internacional de boas práticas OMO, que os Axis Hotéis vão acolher e que se destina a integrar jovens com síndroma de Down no sector hoteleiro. 

Recomendo uma visita e espero voltar em breve para explorar melhor...


Wednesday, March 25, 2015

Top 10 do disparate (ou pérolas a ignorar... pela sua saúde)

Menciono muitas vezes o termo "higiene mental" porque tê-la em conta é tão importante como qualquer cuidado com a nossa pessoa.  Hoje em dia ser uma "mente muito aberta" é considerado uma grande qualidade. Tenho as minhas dúvidas quanto a isso, pelo menos se for em exagero. Uma mente escancarada, que não se apoie  em valores firmes e opiniões sólidas, sujeita-se a ser influenciada para pior...

Logo há que ter sempre à mão uma esponja mental (não das que absorvem, mas daquelas de apagar quadros) e uns tampões imaginários para os ouvidos, de modo a fazer um gélido laissez faire, laissez passer a certos conteúdos, comportamentos e conversas. Já que nem sempre é correcto mandar calar as pessoas ou fazer alguma intervenção, ao menos que se salve a integridade interior com um "entra por um ouvido, sai por outro". Anuir ou ser cúmplice é elasticidade moral; calar-se bem calado, não dar seguimento e desaprovar furiosamente com os nossos botões é outra história.

 Vejamos então o top de disparates que entram pelos nossos olhos/ouvidos dentro (na rua, entre conhecidos, nos social media...) e que caem na categoria  "fala para a mão" ou "vou rezar por ti, pobre alma transviada" (pensem, mas nunca digam isto a ninguém; as pessoas ficam mais furiosas do que se as tivessem mandado a um lugarzinho muito feio...).

1- "Ofendedismo"



Na época do politicamente correcto por excelência, é complicado confiar nos média ou na civilidade que nos foi ensinada. É que não se pode dizer nadinha e daqui a pouco cai-se em crime-pensar, como no livro 1984: um simples verniz de unhas ou um filme clássico são taxados de sexistas; a coisa mais inocente é taxada de machismo, slut shaming, body shaming ou discriminação de qualquer ordem. Como dizem no país irmão, é procurar piolhos num ovo.  As pessoas andam num permanente estado de melindre e procuram em tudo desculpas para se melindrarem. Se não estamos a maltratar ninguém, a ir contra os direitos humanos nem contra as regras de boa sociedade, ignore-se todo o extremismo sem pedir desculpas por isso.

2 - Política de pacotilha


Conversa que começa e termina interminavelmente com corja de bandalhos, ladrões que querem é encher os bolsos, etc. Mesmo que possam ter razão, não é novidade nenhuma, não resolve nem acrescenta nada e em todo o caso, há maneiras mais elegantes de expressar descontentamento.


3 - Sou uma mulher guerreira/ele não sabe o que perdeu, etc



Bem se diz que o inferno não pode competir com a  fúria de uma mulher rejeitada, mas na era em que as mulheres magoadas (tenham ou não razão) podem ventilar publicamente as suas dores, haja paciência. Um desabafo é compreensível - mas dar detalhes, entrar em modo raposa que não foi às uvas e gritar ao mundo que é um partidão sem defeitos e ele um ceguinho que não soube apreciar já é perder a classe. A ignorar e não copiar, por mais que o Eduardo fuja com a camareira do hotel levando todas as suas jóias e lhe apeteça nadar em solidariedade feminina.

4 - Nunca olhes para trás/se o teu passado ligar não atendas, ele não tem nada de novo para te dizer, etc




Não sei quanto a vocês, mas quando eu ando ocupada em modo aviar a minha vidinha sem olhar para trás, não me sobra tempo nem lembrança para avisar o resto do mundo de que estou nesse entusiasmante processo, nem de dizer às pessoas "olha, sabes? Vais ficar para trás na minha vida. Confessa lá que isso te aborrece imenso, vá, estou ansiosa". Uma vez tentei andar de bicicleta a grande velocidade olhando para trás e dei uma valente queda, por isso não repeti a façanha. Cada um terá a sua maneira de andar para a frente sem olhar para trás, mas parece-me uma contradição. 

5 - Relatar em público desgostos de amor/intrigas/escandaleiras (dizendo ou não nomes)

Os mexericos são sempre uma baixeza de evitar - porque é feio e porque acabam inevitavelmente por gerar confusões. Porém, nem a  pessoa mais íntegra e mais sóbria está livre de se ver envolvida num e ser maltratada injustamente, como ninguém está livre de um desgosto de amor que não merecia. É a vida e convém ter a humildade de pensar que estamos sujeitos a isso como os outros mortais. Se tal acontecer, qual é o remédio? É continuar a  proceder com integridade e sobriedade, esperando que a verdade se esclareça sem dar demasiada importância ao assunto. Isso ou confrontar o mexeriqueiro discretamente, atirar-lhe balões de água, esborrachar-lhe ovos contra a porta  (muito discretamente, se possível) ou comprar uma boneca de voodoo para aliviar o stress- tudo, menos fazer figura de urso. Se o caso é mesmo grave, há tribunais. A não ser que se trate de uma figura pública que tenha sido enxovalhada de forma igualmente pública é ridículo alimentar o diz-que-disse com "comunicados de imprensa à facebook".

6 - Dizer que a religião é a raiz de todos os males...ou queixar-se da família



Poucas coisas mostram tanta imaturidade. Quem quer ser ateu, força - a Fé (ou falta dela) é livre - mas convém largar a atitude de "eterno rebelde". Já houve um rebelde por excelência que fez esse trabalhinho todo, chamava-se Lúcifer e ao menos caiu do Céu com um panache assinalável e conhecimento de causa. Atacar a religião alheia (e muitas vezes, de forma pouco fundamentada) é um debate gratuito que ofende quem acredita e não leva a lado nenhum. Quem tem tanta necessidade de bradar contra o assunto pode sempre pôr-se caladinho a ler o Paradise Lost, que parece menos pindérico. Do mesmo modo, um adulto queixar-se em público da mulher esbanjadora ou dos pais que o deixaram muito traumatizado porque compraram um pónei ao irmão e ele só teve um triciclo, não alivia os seus problemas nem dá a imagem de uma pessoa muito forte e resolvida: parece um bebé chorão com ressentimentos graves que não sabe perdoar.

 7 - Falar com amargura nas "cunhas" dos outros....



...e invariavelmente terminar acentuando a sua condição de self made man/woman, vulgo "coitadinho de mim que subi a pulso". Passa uma imagem de pessoa miserabilista e rancorosa (o que é sempre deselegante) e além disso, há a  hipótese das "cunhas" que tanto o incomodam nos outros nem sequer existirem. Por fim é uma hipocrisia, porque quem tanto repara na fortuna alheia só pode ser ganacioso, e nunca vi um ganancioso recusar uma "ajudinha" para subir na vida, nem um invejoso não desejar ardentemente aquilo que condena. 

8 -...e do mesmo modo, reparar na "boa vida" de fulano ou beltrano. Para dizer mal, claro.



A não ser que quem fala tenha sido vítima de um roubo descarado (vulgo levaram-lhe o descapotável, passeiam-se com ele pela cidade obrigando-o a ir a pé para o emprego e a polícia não tomou conta da ocorrência) a riqueza/vida de lazer/existência glamourosa de alguém não é da sua conta. Pior do que ser invejoso, só demonstrá-lo: é um rebaixamento social instantâneo.

9 - "Eu cá sou muito simples e humilde" (implicando que os outros são uns snobs)

Uma coisa é ser simples (e isso é como a riqueza, bondade, nobreza, inteligência ou beleza: quem a possui nem se lembra de falar nisso) outra coisa é ser simplório.

10 - Dizer "eu não julgo ninguém" (geralmente seguido de um "mas")



Das duas uma: ou faz das boas e não quer por sua vez ser julgado, ou é o primeiro a fazer julgamentos. Todos nós tiramos impressões do que vemos e ouvimos. Ser cordial e ter respeito por todos não implica ser isento de valores, e ter capacidade de julgamento não é uma coisa má (antes pelo contrário) desde que sejamos tão exigentes connosco como somos com os outros. Hipocrisia much?













Tuesday, March 24, 2015

Em defesa do Herói Byroniano: have you ever really loved...?



Sometimes I have the strangest feeling about you. Especially when you are near me as you are now. It feels as though I had a string tied here under my left rib where my heart is, tightly knotted to you in a similar fashion. And when you go(...) with all that distance between us, I am afraid that this cord will be snapped, and I shall bleed inwardly.

                                                Charlotte Brontë, in Jane Eyre

Sempre tive uma queda pelo Herói Byroniano - que é um tipo ligeiramente diferente do bad boy. Podia estar muito tempo a elaborar a teoria, mas digamos que o bad boy é realmente mauzinho (e dado aos mais baixos instintos) enquanto o herói byroniano apenas parece mauzinho, mas na verdade é capaz dos sentimentos mais arreigados, de constância, da maior lealdade. É o que os ingleses chamam rough around the edges: um fundo doce sob uma camada de timidez, frieza ou brusquidão.

Um herói byroniano não serve à maior parte das mulheres (embora a maioria o procure, 
confundindo-o com um bad boy) e nem todos os homens assertivos e masculinos que as mulheres buscam (tropeçando em bad boys pelo caminho) são heróis byronianos.

 Estes anti heróis não combinam com todas porque se os outros cavalheiros já são complicados, este espécime leva a palma. É dado a infinitos humores, profunda possessividade, muitas camadas para desvendar- e sente-se atraído pela mulher que é igualmente complexa. Feminina o suficiente para se harmonizar com a sua masculinidade vibrante, forte que chegue para não vergar sob a sua força. Para cada Heathcliff, tem de haver uma Catherine...porque uma Isabella falha miseravelmente. Cada Mr. Rochester precisa de uma Jane, porque as Blanches deste mundo são demasiado comuns...e nunca teriam compreensão para uma alma daquelas.


  Quando uma Catherine e um Heathcliff ou uma Jane e um Rochester se encontram, a conjugação é perfeita embora pareça demasiado intensa ou demore muito a estabilizar; todos se perguntam como é que aqueles dois se conseguem entender... mas concluem que não sendo um com o outro, não haveria paz possível. Esses amores nunca são tranquilos, mas desenvolvem o seu próprio tipo de segurança. 

Funcionam a um nível mais visceral, quase telepático.

 No entanto, é preciso tempo e maturidade para perceber que afinal, talvez o amor byroniano seja o melhor tipo de amor verdadeiro dentro de todos os amores verdadeiros. No romance, Jane Eyre dizia preferir a rudeza à lisonja;  por aqui já se comentou várias vezes que muitos "amo-tes", muitos elogios, não significam necessariamente sentimentos genuínos, tão pouco intenções firmes. Há quem diga meiguices com o coração nas mãos apenas para esquecer o que disse dali a nada. Quem muito promete, tenciona cumprir pouco. Prometer, jurar aos pés juntos, é muito fácil quando não se tem o mínimo propósito de levar a cabo tais tarefas - e desenganem-se, amor é tarefa árdua. 

 Um herói Byroniano raramente jura, raramente promete - fala uma vez e está dito, e espera que a outra parte tome isso como escrito na pedra para todo o sempre ainda que as acções pareçam demonstrar o contrário. As suas declarações de amor mais facilmente passam por um surto de ciúmes ou uma manifestação brusca de preocupação com o bem estar (eg: ela não veste o casaco e depois vem com lamúrias que adoeceu!) do que por coisinhas poéticas. Mas a poesia é como a cobertura de um bolo: se existir óptimo, mas uma má cobertura arruína tudo o resto. Entre mau romantismo, romantismo postiço ou nenhum, vive-se bem sem isso desde que duas almas sejam feitas da mesma matéria. Não é o supérfluo, dito da boca para fora num entusiasmo, que une duas pessoas. Deixe-se isso para os amores vulgares. Catherine comparava a sua relação com Heathcliff às rochas sob o chão: aparentemente rudes e estéreis, mas uma base inquebrável.

 Tenho visto alguns amores byronianos desabrochar aos tombos, mas raramente vi um morrer - e os que tiveram fim, foi com a morte física de uma das partes. Mesmo quando tudo parecia perdido, aqueles dois continuavam sempre a importar-se um com o outro. Fossem para onde fossem, cometessem os erros que cometessem, viessem separações, zangas, nunca- mais- te -falo, doenças ou ruínas, havia um fio de aço que os ligava. É o tipo de amor que deixa quem fica para trás de luto carregado, daquele luto que quem está de fora acha incompreensível e a pôr em causa a velha máxima um amor cura o outro. Estes não têm cura, nem substituto, nem são deste tempo. Nem precisam.

Marina Mota dixit: gente maluca


Nos bancos de escola era difícil não ser contagiado por certas deixas de programas de televisão. Como o humor tipicamente português ainda dava cartas no pequeno ecrã, mesmo quem não fazia muito caso disso acabava por ouvir, por influência dos colegas...e as rábulas de Marina Mota, com a sua banda Bat n´Avó e outras personagens, eram muito apelativas para os mais novos. Resultado, toda a gente imitava aquilo... lembro-me de ter achado muita graça a um sketch em que a actriz fazia daquele miúdo terrível, o Bisnaga: quando face às suas partidas a mãe chamou um Padre para exorcizar a casa, julgando que estava endemoninhada, e o sacerdote disse "vamos expulsar o mafarrico!", o Bisnaga ficou aflitíssimo, refilando "querem-me pôr fora de casa!". E claro, tratou de fazer honra à fama de Mafarrico...

 Embora revisteiro e nem sempre apropriado para aquelas idades, era um tipo de conteúdo bastante inocente comparado com os horrores a que agora certas crianças assistem como se fosse programa de família.

  Mas há um jargão que não recordo a que personagem pertencia, e que me ficou: "já estou farta de gente maluca *pausa* até à peruca!".

 É que é bem verdade, mesmo para quem nem no Entrudo recorre a tais artifícios (o mais que já usei foram umas extensões amovíveis por carolice, e olhem lá...).  Enfim, maluca tinha de rimar com alguma coisa. Adiante.

 Nem é preciso ser uma pessoa muito atenta. Basta não estar completamente isolada do mundo, sair para trabalhar, ter um mínimo de interacção com o nosso semelhante e fazer parte de qualquer rede social para ter a certeza absoluta de que das duas, uma: ou os manicómios têm requisitos de admissão super exigentes (logo não admitem metade dos que precisam) ou decidiram abrir, sem dizer nada a ninguém, pequenas concessões por todo o lado, num esforço de integrar os seus inquilinos na sociedade supostamente sã e escorreita.

 Às vezes imagino se muitas destas pessoas não viverão num regime semi-aberto e à noite recolhem para tomar as gotas...

 Entre os egocêntricos que fazem do mundo virtual confessionário para as suas banalidades íntimas, os que protestam contra tudo da forma mais malcriada e fora do contexto, num permanente "estou aqui e tenho algo muito importante a dizer", os gananciosos, os alpinistas sociais, os de moral de elástico e os que acham que o mundo lhes deve tudo, dá vontade de comprar uma peruca bem extravagante só para poder dizer o estribilho com propriedade...

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