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Monday, July 6, 2015

Qual é o pior dos males: hipocrisia ou pouca vergonha?


A hipocrisia- bem prega Frei Tomás, faz como ele diz, não faças como ele faz - é uma coisa terrível; saber que algo está errado, condenar esse mal pela frente e ir por trás e fazer a mesmíssima coisa, tendo obrigação para mais e consciência do erro que se comete...é péssimo, principalmente se a pessoa cai repetidamente nisso, tornando-se uma anedota ambulante.

 No entanto,  parece ser o mal do século condenar a hipocrisia...com o propósito de absolver qualquer descalabro (feito com muita sinceridade, pois claro).

Agora até parece que é moda fazer toda a sorte de tropelias e orgulhar-se disso, com a desculpa "ao menos não sou hipócrita!" e pronto, fica tudo santificado...

Uma falta de delicadeza, dizer rudemente coisas que magoam sem necessidade? Quem diz a verdade não merece castigo -  ao menos não sou hipócrita! - é a resposta pronta, esquecendo que franqueza sem delicadeza é grosseria.

Promiscuidade, comportamentos desviantes, excessos, tristes figuras em público...ao menos não sou hipócrita! - algo que até ofende quem é bem comportado, pois é o mesmo que dizer que TODAS as pessoas, sem excepção, que procuram ter uma forma honesta e limpa de estar são umas mentirosas que mal se apagam as luzes, mal se apanham longe da vista, fazem trinta por uma linha...ou pelo menos, gostariam de o fazer e não se atrevem!





Pela ordem de ideias vigente qualquer alma discreta, cavalheiresca, digna e/ou religiosa é automaticamente um satã encapotado...

Todos os seres humanos são frágeis e se ser virtuoso fosse fácil, não era virtude nenhuma; e é claro que, em modo "do mal, o menos" por vezes há quem, embora falhe, tenha no mínimo a discrição de não dar nas vistas segundo a máxima "vícios privados, públicas virtudes".  Não basta ser sério, há que parecê-lo. Mas não exageremos. Quero acreditar que ainda há quem ponha em prática o que prega.

E embora seja certo e sabido que muita gente elegante, discreta, bem educada e cumpridora - muita gente religiosa, até - diz uma coisa e faz outra, entre o mal da hipocrisia e a devassidão declarada, não sei se a segunda não será pior.

Quando ouço alguém desculpar a sua corrupção com "eu cá não sou hipócrita" penso às vezes "olha que grande avaria! Um hipócrita não é bom, mas ao menos tem vergonha na cara!"

 Ora pensemos: a hipocrisia é má porque nos faz descrer de tudo. Se este, que parece tão boa pessoa, um exemplo para a sociedade, um modelo de virtudes....vai-se a ver e é do piorio...não resta gente boa neste mundo. Mas a hipocrisia choca pelos exemplos isolados. Um hipócrita tem consciência (a consciência pesada, muitas vezes) do mal que faz. Se comete uma maldade, tem pelo menos a noção de a classificar como tal. E por vezes os erros de um hipócrita são pontuais; tendo os princípios, sabe o que está certo e o que está errado e pode sempre emendar-se. No mínimo, possui a percepção de que deve esconder as suas maldades, quanto mais não seja para não escandalizar e contaminar os outros.


 Já um degenerado, um desavergonhado...não vê mal em nada, ou finge que não vê. Gosta verdadeiramente do que faz. Não se importa de corromper o ambiente que o rodeia - por vezes, faz de propósito para contagiar os outros, já que o vício adora companhia. Ainda troça, se for preciso, de quem tendo as suas falhas, se envergonha delas, chamando-os, precisamente, hipócritas. Não tem remorso ou se o tem, abafa-o. Se lhe chamam a atenção, arranja toda a sorte de desculpas tíbias e cobardes: sou íntimo de fulano, que tem uma fama horrível...não me importo com o que as pessoas dizem de mim! Sou amigo de fulana, que se entrega a esquemas duvidosos...a vida é dela! O desavergonhado, o dissoluto, o rebelde por conveniência, com uma moral que não existe ou se existe é de uma elasticidade que dá volta a um estádio, desculpa tudo... menos os preceitos, menos os princípios.

Porque os princípios podem falhar - como todos os padrões, não são garantia de nada. E quanto mais exigentes, mais difíceis são de cumprir na perfeição.  Mas elevam a fasquia e ditam as regras, mostram como as pessoas se deveriam conduzir. Têm pelo menos a virtude da tentativa. Um hipócrita pode ser mau, mas um devasso, um amoral assumido, nem sequer se esforça. É muita lata.


Sunday, July 5, 2015

As mulheres de 1947 x as de hoje: será que as coisas mudaram assim tanto?




Em 1947, uma jornalista entrevistava o Dr. António Emílio de Magalhães, (médico, sociólogo, filantropo e um dos fundadores da Liga Portuguesa de Profilaxia Social) para a revista de que temos aqui falado, numa rubrica dedicada a saber a opinião masculina sobre o papel da mulher na sociedade.

Eis mais uma diferença que noto entre as revistas femininas de antigamente e as actuais: preocupavam-se em saber a opinião "deles" sobre nós. Não deixava de ser sensato ouvir os homens e assumir que eles eram, afinal, parte interessada...tal como são hoje. No entanto, as publicações de agora parecem, na maioria, preocupar-se com isso apenas quando se trata de conselhos de alcova. É como se fosse ofensivo pensar que os homens possam ter voto na matéria em qualquer outro ângulo da vida feminina, porque afinal, já sabemos fazer tudo o resto sozinhas sem dar cavaco a ninguém. O que me leva a pensar cá com os meus botões "depois não se admirem se as mulheres, não se preocupando em agradar senão nesse aspecto, sejam vistas por alguns apenas nesse sentido..."

Voltemos ao entrevistado: à data, a organização que co-fundara ocupava-se  em combater os males de saúde pública e as chagas sociais mais preocupantes (como o hábito de andar descalço, a sífilis e a tuberculose) recorrendo, entre outros métodos, a campanhas de comunicação bastante inovadoras. 



O bom doutor dedicava-se a várias causas nobres: os sem abrigo, as crianças e jovens em risco, as mulheres de rua, a criação de sanatórios...e apesar de se declarar celibatário (embora não recomendasse tal receita) tinha ideias bastante interessantes sobre a intervenção feminina na vida pública e no mercado de trabalho. É preciso notar que a sua organização se bateu ainda pelos direitos das profissionais da altura, movendo influências pelo "casamento das telefonistas e enfermeiras" já que era suposto apenas as solteiras trabalharem!


 A repórter Isa de Corsa  ia para a reunião com o Dr. Magalhães "alegre e saltitante como um pardal" porque um artigo que escrevera anteriormente sobre a Liga tinha comovido um leitor desconhecido do Rio de Janeiro, que enviara "um cheque de dez contos" (cerca de €400, corrijam-me se estou errada) para o Lar das Raparigas de Rua, uma das obras geridas pelo entrevistado. Eis como o jornalismo no feminino tocava as consciências...

 Depois, perguntando-lhe "concorda que a mulher trabalhe fora do lar?" ele deu uma resposta que, embora segundo  pensamento de um homem do seu tempo, quer-me parecer que levantaria algumas questões válidas ainda hoje:

"Em princípio, quanto à obreira, e outra que não seja a empregada de escritório, a enfermeira, etc...eu preferia que elas não trabalhassem fora do lar. Mas sabendo que isto não passa de puro idealismo tendo em vista o baixo nível económico do país, tenho não só que concordar como
 louvá-las pela heroicidade do seu trabalho - tantas vezes executado em meios mal preparados, que não têm pela dignidade da mulher o devido respeito. Chega a ser necessidade imperiosa ajudar os maridos...e faz pena que algumas sejam tão mal remuneradas, e por vezes por patrões que têm fabulosas fortunas!".

(Nada disto mudou assim tanto desde 1947 - Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de mulheres no mercado de trabalho, mas não só por bons motivos -  o número elevado deve-se também aos baixos salários que não permitem a uma família sobreviver apenas com uma fonte de rendimento, por muito que isso complique a educação e acompanhamento dos filhos). 

"Seria óptimo que assim fosse [as mulheres viverem só para o lar] em determinadas condições isto é, se os maridos ganhassem o suficiente. Mas não vejo a mesma necessidade [de ser só dona de casa] quanto à mulher que se dedica às artes, às ciências, aos problemas pedagógicos e sociais. A mulher que seja inteligente e bondosa pode e deve agir num vasto campo em que útil e brilhantemente se poderá evidenciar"...

Depois, perguntaram-lhe o "palavrão": não concorda que a mulher se intrometa em política? 

- "Conforme o que se depreender por política. - respondeu - Se o termo for tomado na acepção vulgar - o de politiquice - de modo algum. A mulher é séria demais para se deixar diminuir ou desprestigiar por essa paixão que nada tem de edificante. Mas se o termo for empregado como sinónimo de arte de unir os povos, de ser útil à pátria, de cuidar da assistência aos cegos, tuberculosos, etc, etc, assim como de agir nos campos da pedagogia, das artes, da protecção à criança, etc, acho muitíssimo bem que a mulher se envolva em política".




 Estes aspectos estariam na ordem do dia no pós Guerra (quando as mulheres tinham recentemente montado bombas e pilotado aviões). Porém,são discutidos ainda hoje, com muitas profissionais a dar cartas em áreas tradicionalmente masculinas - como a engenharia - mas ainda em acentuada desvantagem numérica, não se sabe se por uma questão cultural ou aptidão natural. Se por um lado, algumas mulheres se sentem diminuidas ao serem incentivadas a escolher profissões ou especialidades  "mais a condizer" com um perfil tradicionalmente feminino, outras defendem que não há necessariamente mal algum em tirar partido da nossa sensibilidade natural, actuando maioritariamente em campos como a educação, a saúde feminina e infantil, a acção social, as artes, etc.

Quanto à política, muito já foi dito aqui sobre o assunto - a história e a actualidade provam que há o muito bom e  muito mau! Nisso quer-me parecer que as mulheres são mais de extremos que os homens...

 Sobre a dinâmica entre marido e mulher, o médico achava que "o homem superior tem de ser educado para elevar a mulher"

Muito engraçada também era a sua opinião acerca daquilo que era melhor: a mulher "antiga" ou a "moderna"? Quase podia pedi-la emprestada para usar como manifesto aqui do IS...

- "Conforme! Se a mulher antiga é a bota de elástico sem pensar elástico para compreender os problemas modernos, fora com ela! Se a mulher moderna é das frívolas, que se apresentam quase despidas, falam em calão grosseiro, contrário à fina ironia, etc...fora com ela! Mas se a mulher antiga é da categoria de Carolina Michaelis de Vasconcelos e de outras tantas ilustres- venham as antigas! E venham também as modernas que se vistam com elegância e aprumo, que tirem cursos secundários e superiores, que saibam, enfim, ocupar brilhantemente o seu lugar qualquer que ele seja. Resumindo, seria óptimo que a mulher actual fosse um traço de união entre a beleza antiga e a moderna... beleza que eleva o espírito em prol da decência e do progresso e também a que obedece às regras da estética. E é por isso que tudo o que os governantes façam para elevar o nível mental, moral e social das mulheres, nunca será demasiado...".


Saturday, July 4, 2015

6 "Pecadilhos" pouco levados a sério (mas que são um atraso de vida)


A mentira, as cordilhices, mexericos, intrigazinhas, desconfianças e derivados são, como todos sabemos, coisas desagradáveis - e por vezes, com consequências graves - em qualquer época. Mesmo nos tempos de grande ligeireza de costumes e elasticidade moral que atravessamos, em que tudo se relativiza - e em que tão feias acções ocorrem mais por via virtual (e bem mais rápida) do que nos salões ou junto à fonte da aldeia, a queixa mais frequente que se ouve por aí, quando alguém se lamenta das acções de outrem, é "fulana é uma falsa!".

 A Doutrina foi um bocadinho mais longe ao detalhar as infracções ao 8º Mandamento: "não levantarás falso testemunho", com esclarecimentos que são puro bom senso ou seja, úteis a quem é espiritual, mas também a quem se preocupa apenas em ser uma pessoa decente. Ora vejam (ou recordem, caso tenham feito gazeta e pregado toda a sorte de partidas à vossa catequista que era boa pessoa, mas super rabugenta) este pequeno glossário de patifarias:



1- Detracção ou murmuração- manifestar, sem justo motivo, os pecados ou defeitos alheios. Vulgo, chegar à mesa do café e queixar-se gratuitamente do marido, da prima ou pior, contar os pecados íntimos da Mariana ou do Alberto, que não dizem respeito a nenhum dos presentes.




2- Calúnia- esta é fácil: atribuir ao próximo culpas e defeitos que não tem. Pode ser uma calúnia grave, daquelas que custam carreiras, negócios e casamentos (e que muitas vezes vão parar ao tribunal) ou apenas dizer a terceiros, de cabeça quente e sem ser verdade, "a minha namorada é a pior pessoa do mundo! Fez isto, fez aquilo, etc". Muitos casais (e amigos ou familiares) caem neste terrível hábito e depois, quando voltam a estar bem, é  complicado reabilitar a imagem do visado aos olhos de quem ouviu, graças a parvoíces ditas quando se está zangado. No mínimo, perde-se a seriedade...na dúvida, guardar tudo para si até prova de contrário!




3- Adulação - a.k.a. graxa. Esta acho que não é só pecado, é repugnante. Consiste em enganar uma pessoa dizendo-lhe falsamente bem dela ou de outra, com o fim de tirar daí algum proveito



4- Mentira jocosa: é aquela pela qual se mente por gracejo e sem prejuízo para ninguém. Pode não prejudicar, mas quem o faz constantemente torna-se cansativo para os demais. Sabem as criaturas que brincam, alfinetam, contam patranhas só para arreliar, macaqueiam o tempo todo e com quem nunca se consegue ter uma conversa direita ou uma discussão em termos, nem quando o assunto é grave? Ufff!




5- Mentira oficiosa: é a afirmação de uma falsidade para proveito próprio, sem prejuízo de ninguém. Vulgo mentira piedosa, mas para ganhar alguma coisa com isso. 

6 -Mentira danosa: é a afirmação de uma falsidade, com prejuízo do próximo. Estas são as piores (e "pecado mortal se o dano em causa é grave", valha-nos isso!) mesmo quando parecem pequenas. No entanto, há quem as conte todos os dias como quem diz "pão". Das contadas para prejudicar deliberadamente terceiros às ditas para enganar o próximo (ex: eu? Eu nunca mandei mensagens à Catarina!! Juro que mal a conheço!") o catálogo é grande.


E conclui-se a explicação dizendo, claro, que nunca é lícito mentir, porque a mentira é coisa má por si mesma; no entanto, o silêncio pode ser a melhor defesa já que não é necessário dizer tudo conforme se pensa, especialmente quando quem pergunta não tem o direito de saber o que pergunta.

 Com seis maneiras diferentes de fazer asneiras contra o 8º Mandamento, há muito por onde escolher...e para quem não quer perder a face nem a reputação e seguir bons princípios (mesmo que não acredite em Mandamentos) muito a vigiar...porque é tão fácil (por desabafo, por nervos, por patetice pura) escorregar para uma mentirinha ou duas...a discrição cabe em todo o lado, e o calado vence tudo!



Por trás de um grande livro, há sempre uma grande mulher.



Ainda que não inspire de todo o enredo - pelo menos de forma óbvia. O famoso escritor americano Nathaniel Hawthorne era muito amigo da mulher, Sophia. Tinham um casamento perfeito, pois além de se amarem muito partilhavam a mesma forma sossegada de estar, vivendo quase um para o outro, muito retirados. Nathaniel dizia dela "é a minha pomba...a minha companhia, e não preciso de outra". Sophia, que se dedicava à ilustração, era também uma mulher bastante espiritual. Curiosamente, toda a vida sofrera de enxaquecas, que só haviam desaparecido após conhecer o marido...um dos casos em que o amor cura tudo!

 Ora, sucedeu que em 1848, Nathaniel perdeu - devido a politiquices - o seu emprego na alfândega de Boston, voltando a casa desesperado, angustiado, a barafustar...como seria normal e compreensível.

 A serena reacção da esposa surpreendeu-o. "E então? Agora já pode escrever o seu livro"....disse simplesmente, referindo-se à ideia para um novo romance que tinham discutido tantas vezes. "Fiz algumas economias e podemos bem suportar este pequeno sacrifício".

 Animado pela previdência e tranquilo optimismo da mulher, Nathaniel assim fez e em 1850 publicou A Letra Escarlate - um best seller imediato, que lhe rendeu uma soma apreciável logo no ano em que saiu para as livrarias e que é considerado uma das maiores obras da literatura norte americana, senão um dos grandes romances da Humanidade...



 Sophia fez bem justiça à ideia bíblica de que nada vale tanto como uma mulher ajuizada e sensata. Se ela não demonstrasse tanta fé no marido (e se não fosse uma hábil gestora) talvez A Letra Escarlate nunca tivesse visto a luz do dia. 

 Por outro lado, se Nathaniel não tivesse igualmente confiança no juízo da esposa, se o desconsiderasse dizendo "ora, tolices de mulheres! Vou lá agora parar um ano a escrever um livro?" se calhar tínhamos sido privados de uma belíssima obra, amplamente traduzida, analisada e dramatizada até hoje...

Não há nada como um casal que trabalha em equipa - nada como um homem e uma mulher que confiam inteiramente um no outro.

Friday, July 3, 2015

E a capacidade masculina de embirrar por hoooooooras?


É inegável que há diferenças físicas entre homens e mulheres: eles têm mais força, músculos mais vigorosos, um cérebro ligeiramente maior (o que nada tem a ver com qualidade, que isso da burrice é democraticamente unissexo) e...pulmões grandes, que lhes permitem refilar com enorme resistência. As mulheres podem ser rezingonas, podem ser acusadas - com certa justiça, algumas - de murmuração, de ralhar e ralhar non stop e de ir buscar coisas do tempo da arca de Noé a cada discussão, mas eles não ficam atrás.

Às vezes os homens chegam a cair em estereótipos femininos, por muito másculos que sejam, e a comportar-se como autênticos bebés. Se um bebé está incomodado com qualquer coisa que não sabe ou não quer explicar, vai peguilhar por tudo. Berra, chora, atira o biberon, a taça da papinha, os ursos, esperneia....e só ao fim de um longo bocado a mãe (ou a ama) atina com o que se passa: é um dente a romper, calor, sono ou dor de barriga. Resolvido o problema, já quer o urso, já come a papa e dorme a sesta satisfeito. 


Assim são eles, quando algo os mói lá por dentro e não querem admitir ou não conseguem precisar muito bem o que os perturba: cansaço, desconfiança, uma má recordação, um dia difícil no trabalho, uma insegurança qualquer...e zás, a culpa é toda da mulher (ou da mãe, namorada, irmã...). E como são demasiado crescidos para chorar aos guinchos, refilam, em modo disco riscado.  É que bem podiam chegar e dizer, como adultos "estou aborrecido porque fizeste assim, disseste assado ou não procedeste frito e cozido como eu queria" ou ainda "estou frustrado cá com as minhas arrelias, não é nada contigo mas não me maces muito". Isso é que era bom!

 A maioria faz como aquele camponês do conto popular, que arranjava todas as desculpas para quezilar com a companheira: 



   Vão inventar pretextos do arco da velha, dizem os piores disparates, colocam defeito em tudo, evocam coisas que já lá vão e não são para ali chamadas...e isto horas! 

Depois de descarregada a nuvem negra acalmam, como se não fosse nada com eles. E só ao fim de não sei quanto tempo a pensar "que raio foi isto?" é que uma mulher, tal como uma mãe ou uma ama, dá com a causa...

 Bem diziam as avós que se tem de saber ser maternal com eles, 


dar-lhes o desconto, ou nada feito...

Thursday, July 2, 2015

Será este um blog simpático para as mulheres?


Ponho esta questão hoje não porque alguém mo tenha dito - mas porque a semana passada estive a analisar algumas discussões tidas em (e sobre) outros blogs e plataformas. 

E são sempre as mesmas: certas mulheres nunca estão satisfeitas. O mínimo uso da liberdade de expressão, a mais remota e inócua brincadeira que sugira que uma mulher "lave a louça" é logo um princípio de machismo, o mesmo princípio que leva a que as mulheres sejam lapidadas em paragens menos (olha o politicamente incorrecto a saltar-me dos dedos) civilizadas. Depois, qualquer patetice é louvada, por frívola que seja, desde que tenha um ar panfletário e ponha umas brejeirices e más criações lá no meio.

 Mas se o mesmo site publica um texto sobre moda ou qualquer outro assunto "de mulherio" aí gritam que perdeu a seriedade, que se transformou numa revista feminina igual às outras. E acabam sempre à batatada à volta do mesmo: eu é que sou radical e feminista, tu és menos feminista do que eu, umas feministas cor de rosa outras feministas da velha guarda que dizem que não era isto que se pretendia no tempo delas,  fora as outras que vêm dizer que feminismo não é nada disso, é só defender os direitos das mulheres (nesse caso "machismo" será defender os direitos dos homens?). E não se tiram disto.

Passo. A essas senhoras todas, digo mais uma vez duas palavrinhas: Margaret Thatcher. Que estava demasiado ocupada no poder para debater patetices sobre o poder, e nunca precisou de se descabelar no parlamento para provar nada. Nem tinha medo de lavar a louça. Ou de usar bâton e saias. 

É que quem não deve não teme. E nenhuma mulher de sucesso, satisfeita com a sua vidinha (seja ela modelo, cientista, autora, dona de casa, esposa, mãe ou uma combinação de várias) tem tempo para se ofender com tolices, ou medo de lavar um par de meias.

Mas fiquei cá a pensar comigo "Céus - as leitoras e autoras destas páginas, que ficam furiosas com qualquer coisinha que lhes cheire a sexismo devem detestar o que faço, caso passem por cá". Não que eu deseje debater com essas senhoras - nem elas comigo, espero, porque creio que não sairia grande luz dali: cada uma ficaria na sua em modo je suis Charlie, com sorte. Os debates cansam-me. Mas pronto, constato que sou realmente extraterrestre. Não a única por aí, mas bastante extraterrestre para o modelo vigente.

O Imperatrix é lido maioritariamente por quem se identifica ou acha graça a estes princípios (até porque quem que nunca deixou de acreditar em certos valores começa a  perder o receio de soar "antiquado" ou exótico ao afirmá-lo) e por pessoas que não concordando, respeitam. Tenho também o cuidado de não ferir ou melindrar, pelo menos deliberadamente. Interrogo-me, ponho em causa, comparo modelos de comportamento, questiono se as mulheres do meu tempo estarão  a equilibrar saudavelmente as liberdades que conquistaram com aquilo que convém à sua felicidade - e à felicidade das gerações futuras. 

Já me têm perguntado se não receio a controvérsia. Não penso nisso, pois a mesmice faz-me mais confusão... tão pouco tenho pretensões a outra coisa que não seja reflectir cá comigo e convosco, como numa roda de amigos.

É que reparem, estas publicações abertamente "para mulheres, mas que não são a publicação feminina normal" em vez de enaltecerem com naturalidade os feitos de mulheres - na ciência, na política, na diplomacia, na literatura - e de alertarem para os problemas realmente graves, com seriedade e compostura, dedicam-se a debater miudezas. Se uma mulher deve maquilhar-se, ou se é errado fazê-lo porque " isso é uma forma de procurar a validação masculina". Se são justos os padrões de beleza. Se uma mulher tem direito a andar por aí por depilar, toda descabelada, com trapos que a fazem parecer uma bruxa...e ainda assim ser considerada linda. E eu pergunto...isto interessa a alguém?

Isto é tão redutor como pensar apenas em modas e arranjos domésticos.

 A postura de Hillary Clinton, esperando que votem nela "para ser a primeira mulher Presidente" (um boneco a mais, portanto) é mais um exemplo desta confusão. Andam desde 1900, pelo menos, a "lutar" (detesto a palavra, mas seja) para serem vistas como iguais na vida pública. E em vez de quererem conquistar votos pela simples competência, por serem eventualmente o melhor candidato...aí já lhes dá jeito a diferença. Aí já vemos o jeitinho feminino a aflorar: "votem em mim- primeiro as senhoras". Não digo que está certo ou está errado, mas note-se a hipocrisia.



 Perante tal cenário, é  preciso estar consciente de que qualquer perspectiva mais "tradicional" (ou realista, se quiserem) do comportamento, papel ou poder feminino será bastante alienígena no mar da blogosfera e de outras plataformas virtuais "para mulheres". 

Atenção, não me estou a queixar - até ver ninguém foi antipático comigo, antes pelo contrário, embora suspeite que algumas ideias aqui expostas não me vão trazer grandes louvores. 

Seria muito mais fácil conformar-me com o guião que se tornou obrigatório apesar do discurso enfadonho e constante sobre a *suposta liberdade* feminina: ou seja, dizer "dispam-se em público, digam palavrões, percam toda a compostura sempre que tentam expor um ponto de vista, sejam promiscuas, porque isso é que é ser mulher no sec. XXI e juro que a vida vos vai correr lindamente". Quem promete tal, fá-lo na perspectiva das audiências. Afinal, é muito mais simples dizer o que as mulheres "modernas", como maioria estereotipada, querem ouvir - por muito pouco que isso ajude alguém, por muito patetas que esses conteúdos sejam.

Mas tenho para mim que há por aí muita publicação em crise precisamente porque muitas leitoras estão cansadas do mesmo disco riscado...

 Em 1945, Pio XII (um Papa, que tal esta? Perdida por um, perdida por mil) dizia às mulheres que tinha chegado a hora delas. "A vida pública precisa de vós". E longe de recear o alargamento da vida feminina,  chamava a esta mudança na sociedade "uma disposição da Divina Providência" ou seja, que se estava a acontecer, por algum motivo era. Mas também, com grande sensatez, alertava que era difícil conservar o espírito de independência nos limites razoáveis.

 Ao ver mulheres formadas a defender disparates irrelevantes como se fossem coisas muito sérias, penso se não se ultrapassou há muito esse limite...

 Quando as mulheres deitam a perder os seus pontos fortes - o bom senso, a elegância, a sensibilidade, a beleza, a perspectiva maternal do mundo, o mistério, a delicadeza, a força discreta,  a subtileza - para dizerem tolices e tomarem as dores de causas disparatadas, quando berram ao quatro ventos "alto lá que sou mulher, mas só quando me dá jeito" acho muito difícil que nos levem a sério. Mas isso sou eu que acho, no uso daquela "liberdade feminina" que existe para cada uma fazer dela o que entender.
 










Wednesday, July 1, 2015

A peneira da consciência (não confundir com "peneiras")


Jean-Dominique Ingres, Raphael e La Fornarina ("padeirinha")

Há dias, uma amiga contou-me que deu a outra pessoa que lhe dizia injustamente "tu és tão bonita por fora, mas foste intransigente comigo" uma resposta bem torta e merecida:

" Pois olha...cada vez gosto mais de mim, e não é por causa do aspecto exterior; é que quanto mais vejo a podridão que por aí vai, mais bonita me sinto-não por fora, mas por dentro!".

 E recentemente, saiu-me um desabafo semelhante, ao saber das vilanias de uma conhecida "não quero pecar, mas há pessoas tão más que nos fazem sentir uns autênticos santos!".

Sempre me avisaram para ter cuidado com estes pensamentos, porque podem roçar a soberba e da soberba à tolice ou ao descuido de si mesma, vai um passo.

Além disso, não há maneira de corrigir os nossos defeitos - nem de ter tolerância com as falhas alheias-  senão achando-nos a mais imperfeita das criaturas. Todavia, é sempre bom observar os outros: não para lhes cortar na casaca, mas para ter presente aquilo que não queremos de todo ter por perto, quanto mais ser ou fazer.

 Há que peneirar muito bem o que se vê e ouve por aí, com uma peneira fina...mas passar por ela, com igual rigor, aquilo que fazemos, usamos, pensamos e dizemos. E se acharmos que a nossa "farinha" não tem impurezas, óptimo! Mas não nos descuidemos sendo indulgentes connosco, tapando o sol com a peneira, achando "já peneirei tudo ontem, não preciso de o fazer hoje". A peneira da consciência, da análise rigorosa, da imparcialidade e do rigor devia andar sempre connosco...mesmo que isso se possa traduzir, para alguns, em intransigência ou até "peneiras". 

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