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Thursday, September 3, 2015

Às armas, ou melhor: ao chinelo!

Eu ainda sou do tempo - e não foi há muito-  em que a mania de ser todo yo!ma man, de fazer de mitra ou de guna ou coisa que o valha, ter muito swag e gingar por aí com os manos e as calças ao fundo dos rins era como o outro. A garotada fazia isso porque ouvia hip hop e queria parecer mazona e durona; uns porque andavam com os putos do bairro a fazer tropelias, outros a fingir que sim porque nem lá tinham nascido, até eram de umas famílias do mais compostinho que se pode, uns betinhos de primeira e não andavam em tais companhias; se apanhassem um dread à séria (não sei se é isso que lhes chamam agora) ficavam cheios de medo e lá lhes caíam as calças aos pés para fugir mais depressa, mas enfim.
Não eram os modos mais cavalheirescos, além de ser coisa de poseur, mas aturava-se. Entretanto (malhas que as redes sociais e as hashtags tecem) começam a chegar-me imagens de meninos que se portam - e tiram selfies - assim:

Uma mistura entre gestos à gangsta, modos "à bairro", todos durões, todos bué da maus, ´tás a ver...e uns modos amaneirados e ameninados. Bracinho estendido e torcido a fazer "V" e beicinho ou duckface. Estilo "sou gangster mas também sou fofinho", ou será mais uma moda estilo beijinho no ombro (blhec)? Uns todos musculados e invariavelmente sem t-shirt a fazer isso, outros magrinhos e meio corcovaditos, mas todos nesses preparos, que não sei se é a imitar o Justin Bieber nem o que significa.


 Já tinha reparado nisto quando escrevi este post sobre a falta de testosterona que para aí anda e o cavaleiro andante dos tampax (que também faz essas caretas) mas entretanto notei que era praga.

 No entanto, posso não conhecer as causas, mas o remédio sei eu: era chinelo e/ ou colégio militar, já.



 Aparecesse um rapaz da minha família nessa figura e não lhe faltaria que fazer: um veja-se-atina-menino ou abre-a-pestana-boy-que-isto-aqui-não-é-um-filme de deixar tudo em pratos limpos.



Era calçado para engraxar, pátios para varrer, louça para lavar, descascar batatas e se calhar cavar o jardim porque já se sabe, um jardim é uma canseira constante e um hobbie adequado a pessoas de bem, além de não haver melhor terapêutica para estas coisas do que, como diz o povo, uma enxada na mão de manhã à noite. Até podia convidar os manos, aproveitar o gingar do swag para dar impulso às pás e aos ancinhos ao som da música. Depois ia fazer caridade, começando por doar aquelas vestimentas horrorosas para serem vendidas para reciclagem a favor de alguma organização solidária e se isso não resolvesse, vai de boot camp, que nada forma um homem nem endireita as costas e cura gingados como a disciplina militar.

 Andam uns portugueses a combater o ISIS e outros armados em maus que fazem beicinho. Gangsta pé-de-salsa. Francamente.


Wednesday, September 2, 2015

5 detalhes que as roupas actuais não têm (e que evitavam muitos faux-pas!)

Já se sabe que não se pode pedir qualidade de couture em pronto a vestir, principalmente quando falamos de fast fashion. No entanto, as roupas de antigamente tinham alguns detalhes engenhosos que hoje faltam - até em marcas de luxo - e que poupavam muitos embaraços. Em alguns artigos de alta costura actuais esses pormenores ainda se vêem, mas é mais comum
 encontrá-los nas peças vintage - tanto couture como nos vestidos elaborados por boas modistas.

 E no entanto, não estamos a falar de nada que tornasse a produção muito cara. Principalmente tendo em conta o "efeito luxo" instantâneo que acrescentam a qualquer trapinho. À falta de visão por parte das marcas, é sempre possível pedir à costureira que faça essas alterações: pode não ser prático mandar fazer isso em peças que se tenha em grande quantidade, mas que compensa, compensa .

1- Molas entre os botões da camisa



Qualquer menina ou senhora com um busto minimamente acentuado percebe esta: é um desafio manter os botões que incidem sobre o peito devidamente fechados! Por esse motivo ando sempre a bater na tecla das pregadeiras, mas às vezes um alfinete mal colocado, ou que não tenha o formato certo, pode não garantir a necessária "privacidade"... e pronto, lá se vê um pouco da lingerie ou algo mais, cruzes. Contra isso, além de mandar apertar bem as casas dos botões, convém aplicar umas molas entre eles nessa zona: problema resolvido. Como camisas são algo que quase toda a gente tem em grande número (ou devia, pela versatilidade que permitem) não dá muito jeito mandá-las adaptar todas. Não custava nada que já viessem assim, não era? Pois...

2 - Forros em condições



Já se sabe que a maior parte das roupas - especialmente vestidos e saias - assentam melhor se forem forradas, de preferência com um tecido macio que deixe a pele respirar. Principalmente se falarmos de saias ou vestidos de material vaporoso, fino ou muito maleável (como certas malhas) que adere à pele, revelando demasiado, mostrando certas gordurinhas de quem as tem ou criando volume onde ele não existe. Infelizmente, roupa bem forrada não é a norma actualmente. Arrepio-me quando vejo mulheres com vestidos de malha colados às coxas, a aumentar desnecessariamente uma data de centímetros ou a expor em grande detalhe os contornos da roupa interior. Um spanx é um remédio aceitável e aconselhável, mas nem sempre resolve tudo. Colocar forros não é das alterações mais acessíveis ou fáceis, mas vale a pena pensar nisso se gosta muito de uma peça, ou investiu bastante nela, mas não cai como deveria.


3- "Chumbos" nas saias rodadas



Um antigo (e baratíssimo) truque muito comum em saias e vestidos vintage, para evitar o indesejado "efeito Marilyn": pequenos pesos, vulgo "chumbos de cortinado" inseridos estrategicamente sob o tecido!  Sua Majestade Isabel II, invariavelmente impecável, pede sempre à sua costureira que não se esqueça deste "salva modéstia" que lhe permite sair de helicópteros ou assistir a paradas em dias ventosos sem o mínimo risco ou constrangimento. É útil pensar nisso para saias amplas, mas leves ou pouco consistentes.

4 - "Respiradouros" em vestidos justos



Esta artimanha só a vi mesmo em vestidos de alta costura e tive de fotografar para vos mostrar. Trata-se de uma abertura sob a axila, que não se nota, para evitar quaisquer apertos ou manchas indesejadas em vestidos de mangas justas feitos de tecidos porosos, caros e difíceis de limpar, como certas sedas. Truques semelhantes são utilizados em roupas de desporto ou militares (sob a forma de fechos ou aplicações, nessa zona, de pano com pequenos buracos).

5 -"Segura-alças" de lingerie




Vestidos e blusas com formatos exóticos ou desconfortáveis, que dificultem usar roupa interior adequada, são de evitar o mais possível, mas às vezes torna-se difícil manter as alças da lingerie no lugar até com decotes relativamente comuns (como o "Bardot", shoulder-to-shoulder ou coração). Isto acontece com frequência em vestidos de noite, cujos tecidos são mais pesados e /ou escorregadios. Contra isso, há dois remédios: coser sob o vestido um soutien especialmente bom, na posição certa, que suporte e não descaia (o que requer uma costureira com o poder de cálculo de um engenheiro). Mais fácil e prático ainda: mandar fazer umas pequenas presilhas por dentro dos ombros da peça, que prenda as alcinhas do soutien no lugar. É remédio santo e só exige uns centímetros de tecido e umas molas minúsculas.

Engenhocas, não acham?


O amor não é ligeiro.



Já se sabe que vivemos tempos em que há quem traga o "amo-te" na boca como certos hipócritas trazem o "Credo". Muita gente se queixa disso. Da mesma forma, mesmo entre quem se queixa, não falta quem confunda a paixão, que é, e convém que assim seja, um instrumento, faceta ou consequência do amor, com o amor em si.

Não nos enganemos, o amor tem as suas futilidades, os seus requintes. Até no sentimento mais elevado a paixão, que num casal unido por laços indissolúveis (sejam sentimentais, legais, espirituais  ou tudo isso junto) tem uma função unitiva, e outras, não deixa por isso de ser o luxo do amor- mesmo antes de consumada. A mulher que ama ficará fraca só de ouvir a voz do amado; num homem apaixonado, a mais leve aproximação pode transtornar-lhe os nervos. Em tempos idos, um olhar por trás do leque, o segurar de leve na mão à saída do teatro às escondidas da parentela, eram assunto para muitas noites sem dormir, muitas lágrimas de emoção, páginas e páginas de cartas, tragédias às vezes.

 Depois há outro tipo de futilidade no amor - como dizia o Afonso da Maia, "o amor é um luxo caro". Todos os apaixonados, dentro das suas posses, gostam de ser agradáveis ao objecto da sua devoção: vêm então as flores, os presentes, os passeios românticos, tudo bugigangas, algumas materialmente valiosas, mas bugigangas, e outras que têm valor sentimental (o tempo gasto com o outro porque sim, horas de conversa que para quem está de fora parecem um verdadeiro desperdício pois lá diziam os avoengos, "a conversa dos namorados é de elástico", um bilhete, uma flor seca...antigamente uma madeixa de cabelo estava muito na moda...) que são pequenos símbolos, algo que se guarda do outro.  Para quem ama, qualquer disparate é uma relíquia. Tudo "pieguices" que adornam, mas não são essenciais; luxos dentro desse luxo que é estar apaixonado.

 Chamemos-lhe luxo por ser algo sem o qual se vive - ou sobrevive. 



Porém, voltemos a dizer, o amor não é isto. Daí que tanta se gente se confunda,  que fique muito surpreendida quando estas avassaladoras manifestações acalmam pela ordem natural das coisas, dizendo que afinal já não ama, que "deixou de amar" (o que soa mais ridículo e lamechas do que as mais lamechas frases de namorados). 

 O amor, da espécie verdadeira, tem mais a ver com sacrifício do que com alegrias. As alegrias são um sintoma, por vezes em modo "quem corre por gosto não cansa". Logicamente ninguém se aventura a doar-se a outrem no firme propósito de sofrer, mas quem se une a outro com o único objectivo de que o façam feliz só pode esperar, como vi há dias num filme, sair pela porta fora no momento em que, ainda que temporariamente, deixe de o ser. Salvo em casos realmente graves (em que a cara metade se dedica a fazer sofrer a outra parte de propósito, porque pode) largar barcos e redes com a desculpa "já não sou feliz" é o egoísmo da paixão que se extingue. Ou a percepção de que nunca se amou, ainda que as pessoas não o admitam nem para si próprias.

 Se é amor, não depende do êxito, por vezes nem da presença física ou da segurança, e não pode ser substituído, não sem grandes penas pessoais. Não assenta na futilidade nem na "felicidade" transitória, por isso não é curável com remédios mundanos. Pode ocupar a alma durante anos, mesmo sem estímulo; com estímulo, facilmente é eterno. Qualquer um, principalmente se está ferido no seu orgulho, pode cair no erro (compreensível) de se relacionar com outras companhias, mudar de ares, achar conveniente "distrair-se", aturdir-se com festas, passeatas, obrigações, ou no limite, "seguir com a sua vida". Mas por piroso que possa soar, isso é ser um corpo sem alma, ou ter a alma a viver noutro corpo, o coração a bater noutro peito. Os amantes de lenda ou, de forma mais concreta, muita gente da geração dos nossos avós sabiam a diferença. Hoje é mais raro encontrar quem saiba...pois a maioria, entretida com paixonetas que fingem de amor, nunca a sentiu. Sinais dos tempos.





Ai as boas raparigas não fazem história, não?


"As raparigas bem comportadas raramente fazem história" (ou vão a algum lado). Já por aqui resmunguei que essa é uma ideia perigosa para pôr na cabeça das mulheres, além de ser uma falácia de todo o tamanho. A História está cheia de mulheres poderosas que não precisaram de fazer batota ou dar escândalo para deixar marca- a começar, claro está, pela Virgem Maria. Já vimos alguns nomes famosos neste post, mas vamos ao top dos tops das meninas boazinhas, mas poderosas: de santas a rainhas passando por cientistas e guerreiras, aqui ficam alguns exemplos, sem nenhuma ordem especial.


1- Florence Nightingale



Oriunda de uma privilegiada família inglesa numa época em que era impensável para uma rapariga bem nascida tornar-se enfermeira, Florence mudou mentalidades e hábitos. Determinada a prestar cuidados adequados aos pobres e soldados caídos no campo de batalha, rompeu com a família e seguiu a sua vocação, impondo a figura da enfermeira como mulher com formação específica e de moral irrepreensível (pois até aí, em Inglaterra essas funções eram muitas vezes desempenhadas por vivandeiras, criminosas ou prostitutas obrigadas a tratar doentes como castigo). Revolucionou o tratamento dos feridos durante a Guerra da Crimeia, contribuindo grandemente, com os métodos que desenvolveu, para a Enfermagem tal como a conhecemos hoje.

2- Madame Curie


Filha de professores cultos e bem colocados na sociedade, mas empobrecidos, enfrentou dificuldades económicas, políticas e sociais (nomeadamente, por ser mulher) para avançar nos seus estudos. Foi governanta enquanto estudava Medicina em Paris, fez inúmeros sacrifícios, chegava a desmaiar de fome enquanto trabalhava no laboratório. Apaixonou-se mas a família do noivo não permitiu o casamento pois considerava Marie (então Maria Sklodowska) um fraco partido. Prova provada de que o destino escreve direito por linhas tortas, pois entretanto conheceu Pierre Curie, por quem se apaixonou e com quem dividiria o Prémio Nobel da Física em 1903. Em 1911 seria de novo galardoada, desta vez no campo da Química, tornando-se a primeira pessoa a ser laureada duas vezes.


3 - Santa Joana D´Arc

Sem a "Donzela de Orleães" possivelmente Carlos VII  não se teria sentado no Trono nem posto fim à Guerra dos 100 Anos. Camponesa, analfabeta, mas valente e inspirada pelas suas "vozes do céu" conseguia motivar as tropas para a vitória de forma extraordinária- apesar de segundo ela, não chegar a tirar vidas no campo de batalha e (conta-se) de ter proibido aos soldados que praguejassem ou tivessem comportamentos malcriados na sua presença. Até o infame Gilles de Rais se sentia impressionado por ela, e diz-se que foi a sua morte que o enlouqueceu. Rapariga mais bem comportada do que isto é impossível...foi canonizada em 1920 e proclamada Padroeira de França.

4- Boadicea



Rainha dos Icenos , tribo celta da Britânia, durante o reinado de Nero, voltou-se definitivamente contra os invasores romanos quando eles atraiçoaram o seu marido, o Rei Prasutagus, roubando-lhe todas as terras. Como castigo, foi açoitada e os legionários violaram as suas filhas. A vingança da Rainha - uma figura impressionante de mulher, alta, ruiva e feroz- não se fez esperar. Liderou várias tribos numa revolta e massacrou cidades, aterrorizando os romanos e varrendo tudo à sua passagem. Uma boa rapariga tem limites.

5 - Rosa Parks


Costureira, trabalhadora, casada, uma mulher igual a tantas...deu o mote para a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos por em 1955 se recusar a ceder o assento a um branco - conforme lhe exigiam invocando o sistema de segregação racial em vigor em vários estados sulistas. Mais tarde ela recordaria que não sabia de onde lhe tinha vindo tal serena determinação, que a envolveu "como uma colcha numa noite de frio". Apesar de se ter tornado um símbolo do movimento pelo fim da segregação racial e de ter recebido várias distinções, sofreu represálias e passou por inúmeras dificuldades, especialmente depois de enviuvar, até o público americano ser sensibilizado para o seu caso. Morreu em 2005, sendo sepultada com honras de estado.

6 - Ester


A bela judia conquistou o Rei Assuero com a sua diplomacia e meiguice , tornando-se Rainha da Pérsia. A inteligência com que se conduziu permitiu salvar o seu povo da morte certa. É uma das mulheres mais fascinantes da Bíblia (mais sobre ela aqui) homenageada até hoje com a festa de Purim.

7 - Santa Beatriz da Silva e Menezes


Se fosse a enumerar todas as Santas que marcaram a história (de rainhas como Santa Isabel da Hungria ou a nossa Rainha Santa Isabel a sábias como Santa Teresa de Ávila) este post ficaria interminável, por isso escolhi uma santa portuguesa que se comemora hoje (1 de Setembro). Nascida em Campo Maior, Alentejo, em 1437, era filha da Condessa de Portalegre e do Alcaide de Campo Maior. Dotada de uma beleza deslumbrante, foi convidada pela sua prima, a Princesa Isabel de Portugal, a acompanhá-la a Castela como dama de companhia. Uma vez na corte castelhana, porém, e feita Rainha, a prima que até então a adorava começou a sentir ciúmes da atenção que a formosura, graça e gentileza de Beatriz atraíam. Zangada, fechou-a num baú sem ventilação. Quando o tio de Beatriz, aflito ao fim de três dias à procura, instou com a Rainha para saber do seu paradeiro, foram dar com ela perfeitamente sã e mais bela do que nunca. Beatriz contou então que a Virgem Maria a tinha salvo para que ela fundasse uma Ordem dedicada ao mistério da Imaculada Conceição.
 Beatriz perdoou a Rainha, que lhe deu permissão para viver onde desejasse; retirou-se então para Toledo, onde mais tarde cumpriria a sua promessa de fundar a Ordem da Imaculada Conceição com o apoio da filha da prima ciumenta - a grande Isabel, a Católica. Para que a sua beleza não perturbasse mais ninguém, passou a andar velada. Porém, quando morreu, com cerca de 60 anos, espantou toda a gente pois mantinha o aspecto de uma linda jovem. 

8 -Lucrécia


Jovem matrona romana de grande beleza, está associada a uma lenda que contribuiu para que Roma passasse de reino a república. Sexto, filho do Rei Tarquínio, encontrava-se com vários rapazes nobres num acampamento militar, bebendo e contando chalaças. Começaram então a comparar quem teria a mulher mais virtuosa e decidiram voltar à cidade para as espiar, determinando quem ganharia a aposta. O príncipe viu, desgostoso, que a sua própria esposa estava numa festa com todas as amigas, enquanto Lucrécia, mulher do seu amigo Lúcio, era a única que fiava quieta em sua casa.
 Invejoso, envergonhado e ferido no seu orgulho, atacou Lucrécia, mandando depois mensagem a todos os parentes da pobre coitada dizendo que se tinha deitado com ela. Desesperada, Lucrécia suicidou-se, o que motivou a vingança do marido e da família que com o apoio do povo, revoltado com esta violência, depuseram a família real. Lucrécia passou à História como símbolo por excelência de virtude e lealdade conjugal. 











Monday, August 31, 2015

Agora tentem lá fazer-nos rir com classe.


É certo que por vezes o humor, ou certos estilos de humor- quer no masculino, quer no feminino - pode estar associado a um pouco de brejeirice. Não é a melhor nem a única fórmula, há quem o consiga fazer resultar e quem não consiga, mas mesmo artistas muito talentosos podem ter uma "queda" para dizer disparates que noutras pessoas cairiam mal. Por algum motivo os bobos da corte estavam autorizados a tocar em assuntos e utilizar termos vedados aos restantes...

A nossa Beatriz Costa, por exemplo, embora em palco ou na tela se contivesse pelos costumes do tempo, orgulhava-se de ser uma "língua de trapos" e de dizer das boas e das bonitas entre amigos (que isto do saber estar em todo o lado e adaptar-se às circunstâncias é um talento per se). Até conta num dos seus livros que uma senhora fidalga sua amiga, já idosa, titular e do mais educado que pode haver, a convidava de propósito a sua casa para que ela a fizesse esquecer as tristezas; a actriz, atrapalhada, tentava censurar as piadas, mas a dama perguntava "minha filha, não tem nada mais forte?" e quanto mais picante e abundante o asneiredo, mais divertida ela ficava!  Digo muitas vezes que usar asneiras e ter piada com isso é um dom muito particular e muito raro...uma "arte" difícil!

 E se há homens, mesmo comediantes, que tentam e falham redondamente, pois a linha entre o humor, a fanfarronice masculina e o inconveniente é bastante ténue às vezes, quando se trata de mulheres é preciso ter um cuidado extra. 

Porém, como temos visto, o humor feminino actual - ou as crónicas escritas no feminino - vivem muito do brejeiro. Se uma blogger ou cronista quer dar nas vistas com um texto por vezes mal amanhado, basta pôr uma asneira bem forte no título, e já toda a gente acha "lindo, subversivo, profundo". Se uma "cómica" quer fazer humor, o mais certo é recorrer ao seu historial amoroso, tirar a roupa e/ou fazer piadinhas gratuitas e infantis com funções do organismo. Assim à maria rapaz, como se uma mulher não pudesse contar uma graça com cabeça, tronco e membros.

Se ela própria o diz, eu acredito.

 É o caso de Chelsea Handler (que só conheço de vista por às vezes fazer zapping; sei que tem um programa qualquer de entrevistas nesse mata-neurónios que é o canal E!) para quem ter piada se resume a "descarcar-se" nos social media embora já tenha idade para ter juízo, fazer caretas, ser desagradável e pôr-se com certo ar de desarranjada (do visual e dos nervos), aparecer, enfim, nestes preparos um bocadinho repugnantes. O link é só uma amostra, já que ela parece ter uma verdadeira fixação por atirar a roupa fora em público (cada uma sabe lá da sua vida, mas se isso faz rir já é outra história). Não sei quanto a vós porque as coisas que provocam gargalhadas a cada um são diferentes, mas não me arranca nem um sorriso.

 O  estranho é que são as comediantes que mais se assanham contra os "papéis de género", a objetificação, a opressão e etc. Mas depois mostram-se incapazes de criar um guião com piada sem usar argumentos tão baratos. Queixam-se, queixam-se, mas se ninguém as objectifica sentem-se desprezadas. Há pessoas mesmo cheias de contradições.




Sunday, August 30, 2015

Bárbaros, mas pouco.


Já se sabe que os romanos tinham uma enorme facilidade em chamar bárbaros aos outros e que na Germânia (particularmente na Germania Libera, a Este do Reno) era um pouco como para lá do Marão, onde mandam os que lá estão.

Porém, sabiam ser justos ao descrever o inimigo e Caio [ou Públio] Cornélio Tácito, político romano e considerado um dos maiores historiadores da Antiguidade, deixou-nos uma descrição detalhada dos germanos que nos fará pensar se esses "bárbaros" não seriam pessoas assaz decentes...(tanto que bastantes dos seus guerreiros foram escolhidos para integrar a guarda do Imperador, a dada altura). Para já, andavam lavadinhos (usavam  água quente todos os dias, nem mais) apesar de não serem fãs de construir casas bonitas nem de roupas elaboradas: mulheres e homens vestiam uns "saios" e uma espécie de tops de pano simples, com bonitas peles no Inverno.

  Tácito conta ainda que as mulheres germanas não se "enchiam de pavor" ao ver as feridas dos guerreiros seus maridos nem se afligiam de "pôr-lhes pensos" e que em batalha, lhes levavam "comida e exortações". Quanto a eles, o seu maior receio era ver as suas mulheres caírem em cativeiro. 


Tinham as companheiras e as respectivas opiniões em grande consideração: "julgam que existe nelas alguma coisa de santidade e de prudência, e nem desprezam os seus conselhos ou têm em menor conta as suas respostas".

 Também não havia cá lugar a imoralidades nem maluqueiras; eram uns bárbaros perfeitamente respeitáveis, com homens muito sóbrios e mulheres de valor: "a tal ponto ali os casamentos são severos, que não se louvará mais noutra parte alguma norma de costumes (...) são quase os únicos dos bárbaros que se contentam cada um com a sua esposa (...) . Nos próprios auspícios das núpcias, adverte-se que a mulher não se julgue livre das virtudes (...) e dos cuidados das guerras, mas que ela se torna companheira nos sofrimentos e nos perigos (...). Assim recebem o único marido, por aquele modo que têm um só corpo e uma só vida; nenhum outro pensamento, nem um desejo maior (...). Os adultérios num povo tão numeroso são raríssimos. Ali prevalecem mais os bons costumes do que noutra parte as boas leis".

Em suma, eram mais civilizados, limpinhos e honestos do que muito boa gente hoje. Há portanto que pensar duas vezes antes de chamar "bárbaro" a qualquer brutamontes com moral de elástico e ar pouco composto...por muito que apeteça!

Ainda o Bovarismo na literatura e na vida (mulheres frágeis dos nervos)


Não importa o quanto goste dos clássicos e defenda que amores sem graça, mais vale perdê-los do que tê-los, o perfil de muitas personagens femininas da literatura - de Madame Bovary a Anna Karenina, passando por Tess - faz-me confusão pela falta de sentido prático, vulgo Bovarismo.

Tudo nestas mulheres é, como dizia Eça de Queiroz, sentimento! Sempre a porcaria do sentimento (com uma boa dose de ambição e cálculo mal guiado à mistura!). Andam governadas a bel talante das suas hormonas, pois as mais das vezes, o coração pouco tem a ver com o assunto; só fica na má fama...

 Pior do que isso, só a análise actual de muitos desses romances, que desculpa as desgraças das personagens (exageradas, algumas mas reparem- são novelas) com o tempo em que viviam e o papel passivo das mulheres nessa época e no seu meio. Aristocratas, burguesas ou camponesas, pecam por ser estúpidas, romanescas e sem o mínimo de pragmatismo.




Ah, a Anna Karenina, coitadinha; foi ostracizada pela sociedade por ser mulher, mas o amante, que partilhava a culpa, já era bem recebido (pudera...ele era solteiro; ela é que era uma princesa casada com um bom homem e tinha um filho...sabendo como as coisas funcionavam em sociedade, porque sabia bem, deixou tudo para trás para fugir com um galã e não contente com ter abusado da boa vontade do esposo até ao ridículo, que se ele fosse outro internava-a num convento ou coisa assim, e com a paciência do amante que comprometia o seu futuro para estar com ela, enche-lhe a cabeça com recriminações e delírios, enfrasca-se em morfina...queriam o quê, que a aplaudissem? Não sabia viver, e duvido que soubesse se vivesse no sec. XXI. O mais certo era perder a transmontana e o desfecho ser o mesmo, mais comboio menos comboio).




Oh, pobre Madame Bovary,  com um marido que é um cepo e que engole veneno quando perde o controlo das dívidas! Não casou obrigada, mas vitimiza-se; enche-se de vaidade; não faz nenhum; acha-se a última coca cola do deserto quando lhe faltam aptidões para brilhar nos meios com que puerilmente sonha; e sendo uma mulher adulta e mãe, com obrigação para perceber que nenhum dos mariolas com quem se envolve deixará a sua vida tão arranjadinha para se arruinar com uma amante casada, ainda se dá ao luxo de ter chiliques...





E a Tess? Infeliz Tess. Essa é mais azarada, mas não sabe fazer limonada com os limões que a vida lhe dá. Acha-se muito boa pessoa, muito acima do rapaz que a desencaminhou mas mal ou bem tenta reparar o erro, e prova que é um anjo de pureza enchendo-o de facadas. Tudo porque meteu na cabeça que o traste do marido, que lhe virou costas no pior momento, é que é o bom da fita.

 Estas personagens, como tantas outras, sofrem daquela doença de nervos que é ser "mad about the boy". Ou the boys.

 Em suma, são capazes de sacrificar tudo por um par de calças, perdem a dignidade toda...mas só se houver a promessa de uma aventura bem romanesca, de subir na vida, de drama, de se sentirem muito desejadas, de satisfazerem a sua vaidade. Quando lhes cheira a dever, a sobriedade, a auto domínio, a esforço, a compostura feminina, perde a graça toda, a coragem some-se, queixam-se que morrem com um aperto no coração, sufocadinhas. E ainda se vitimizam, ou fazem com que os leitores e a sociedade lhes dêem palmadinhas nas costas.




 Calha-lhes mesmo bem que hoje se desculpe tudo: com a desculpa do "amor" (que de amor não tem nada) e com o estribilho "nada é errado se te faz feliz"...


Mas o mais mau é que nem dá para concordar com a teoria "estes autores pintavam as mulheres de uma maneira horrível...era tudo homens a escrever sobre as mulheres, não percebiam nada do assunto"...qual! Há muita diferença entre elas e uma Bridget Jones (salvo no rasgo literário, e que a Bridget Jones é uma personagem de comédia escrita por pluma feminina do sec XXI, logo ninguém leva a mal os seus desarranjos)?


Ora zumba no arsénico, ora no arsénico zumba

Haverá grande distinção entre Bovary, Anna, Ameliazinha, Monforte, Luiza,Lidya,  Clotilde, etc e muitas mulheres reais? Entre elas e as serigaitas de hoje que se oferecem de bandeja sem olhar à figura que fazem?

 Ou entre estas personagens e tantas conhecidas nossas que julgam que o casamento é só vestido "de princesa" e boda, que casam porque sim (porque hoje já nem "pressão para casar" é tão determinante, logo não há desculpa)  e dali a nada mandam tudo às urtigas por um pistoleiro qualquer, que às vezes as brutaliza...acabando muitas a saltar de relacionamento em relacionamento, sempre infelizes e instáveis, com filhos espalhados por aí mas sempre em festa à procura da próxima aventura, partilhando disparates nas redes sociais, transformando-se em cougars ou objectos que, como Bovary, acabam num farrapo que implora migalhas de carinho em modo "quanto mais me bates mais gosto de ti"?

Há tantos casos, e muitos de meios aparentemente bem estruturados!

Eu diria que os autores não se enganaram e exageraram pouco ao traçar o tipo. As regras é que eram mais claras, o que torna a imprudência delas mais flagrante, e por outro lado, as mulheres eram menos informadas, o que pode atenuar um pouco a culpa em tanta fiada de asneiras.

  Não creio que pretendessem  dar uma imagem negativa das mulheres: sempre me pareceu um aviso. "Ir atrás do sentimento sem usar um pingo de racionalidade, dá nisto".





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