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Wednesday, July 27, 2016

Shakespeare dixit: palavras apaixonadas no metro



Como vos contei, por estes lados assinala-se o aniversario da morte de William Shakespeare e o seu universo está por toda a parte - o que inclui o metro, meio de comunicação londrino por excelência... lá avisa-se, anuncia-se, recorda-se, fazem-se opiniões, educa-se o povo. O que é bastante inteligente, diga-se de passagem, uma vez que as pessoas não têm outro remédio: como tomam esse transporte todos os dias que Deus deita ao mundo, alguma coisa lhes há-de entrar na cabeça. Não é a bem, é a mal. Acho muita graça como há cartazes a lembrar, por exemplo, as boas maneiras: de respeitar o espaço privado do próximo quando o comboio vai cheio, a dar o seu lugar às senhoras, por exemplo. E de facto, a esmagadora maioria das pessoas é cortês e bem educada (até os mendigos, assinale-se) o que me confirma que não há nada para manter uma ideia viva como falar nela o tempo todo. Dos trabalhadores das obras aos executivos, não há homem aqui que deixe de oferecer o seu lugar a uma menina, senhora ou pessoa de idade (ontem vi um rapaz de fato de macaco levantar-se três vezes para oferecer o assento a três senhoras diferentes!)  ou que vendo uma mãe aflita com o carrinho de bebé escada acima, não lhe deite logo a mão para o puxar...


 Há mesmo uma campanha para melhorar a imagem dos construtores civis, pelo que os pedreiros não mandam piropos: no máximo dos máximos, dão os bons dias e guardam a sua opinião lá consigo: mas de resto, aqui quase toda a gente se fala e se saúda, apesar de ser uma cidade grande...

Mas ontem - sabeis como gosto de Shakespeare - fiquei encantada por ver que na carruagem onde ia, tinham escolhido o soneto 116 do Bardo:

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters when it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O no; it is an ever-fixed mark,
That looks on tempests, and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.
Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks
Within his bending sickle's compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
   If this be error and upon me proved,
   I never writ, nor no man ever loved. 


 Haverá poucas descrições tão exactas do amor verdadeiro, de raiz, eterno: aquele que nunca se abala, apesar de presenciar as tempestades, nem se esbate com os meses e os anos, mas tudo suporta até no perigo, no desespero, no desalento: e quem acha o contrário não ama, nunca amou, só se entusiasmou...

Friday, July 22, 2016

Vem uma pessoa a Londres para levar com esta malcriadona!





Só a mim, só a mim, só a mim. Mal pus aqui os pés, eis que o metro estava pejado destes cartazes (acima) a anunciar a vinda de Amy Schumer a Londres. Sabem, Amy Schumer- uma daquelas comediantes armada em feminazi que acha que uma mulher, para ter graça, precisa de ser grosseira, promíscua, maria-rapaz, falar como um carroceiro, contar em sórdido detalhe os seus engates desesperados e auto proclamar-se galdéria de marca maior mas ofender-se toda se a chamam galdéria, tirar a roupa sempre que há a mais leve ocasião a ver se a elogiam, beber e praguejar como um marujo, e - last but not the least - defender que gordura é formosura mas ficar arreliadíssima se a emparelham, na capa de uma revista, com modelos plus size, fazendo o choradinho "eu não sou assim tão gorda" . Foi o que aconteceu, mais coisa menos coisa.

As outras convidadas (algumas das quais a metem num chinelo, diga-se) não gostaram, claro. Não se pode num dia advogar a "beleza real", ganhar popularidade às custas disso mas ficar danada se depois, tendo um rosto e um corpo banais, para dizer o mínimo, fazem de si porta estandarte da tal "beleza" real e da "body positivity". Hipocrisia ou falta de auto análise? Que isso de ser gorda é relativo. Amy não será gorda no verdadeiro sentido do termo, nada disso: é  uma rapariga "grande", rubicunda, rechonchuda e bochechuda (nada contra, vá) a vender saúde (fora o fígado, coitado, que não há-de estar la muito ortodoxo com tanto copofone). O seu problema nem estará no corpo, ou nas bochechas, mas na língua de trapos a precisar de sabão e na cabecinha armada em poderosa...


Mas o pior foi a forma boçal como a boa da Amy, sentindo-se lesada na sua formosura, se defendeu: atirou logo, de uma maneira que não me atrevo a reproduzir nem a traduzir aqui, com um palavrão bem directo e categórico, que arranja quantos homens quiser. Não no sentido "olhem que não me faltam pretendentes" mas no de " suas invejosas, basta-me por um pé na rua que já não passo a noite sozinha". See for yourselves aqui.

Se calhar não devia esconder-me de Ms. Schumer quando ela passar por cá. Devia encher-me de evangélica paciência e ter a caridade de ir ao espectáculo, sofrer aquilo tudo, bater-lhe a porta do camarim com um six pack de Guiness geladinha (suponho que ela deve gostar disso) sentá-la bem sentadinha e ter com ela a conversa que a mãe ou a avó dela não tiveram, ou até tiveram mas a menina estava demasiado entornada para perceber.




É que primeiro Amy, filha, essas coisas não se dizem, pelo menos nesses termos tão feios, ainda que sejam verdade. Segundo, minha rica, lamento o injusto e sexista double standard, mas há verdades sociais e biológicas que o feminismo não conseguirá mudar por mais soutiens que se queimem: e que, tenho pena de dizer isto, os homens, ou muitos deles, quando se trata de mulheres para a farra, não são exigentes por ai além. É triste, é repugnante, e horrível de reconhecer até porque a promiscuidade também cai mal ao sexo masculino (embora seja talvez menos socialmente condenável aos olhos do vulgo) mas é a verdade. Até entre os que são bonitos, a quem não falta por onde escolher, muitos, se tiverem pouco juízo, não se ralam de juntar ao seu carnet de conquistas umas quantas mulheres menos atraentes. Para diversão importa-lhes mais a quantidade e a facilidade, menos a qualidade. Depois, para relacionamento sério, já elevam mais a fasquia e sonham com uma beldade bem comportadinha que possam apresentar aos pais (que muitas vezes não arranjam o que é muito bem feito, já agora!).


 As excepções a isto são raras e esta é a razão de tantas mulheres que se comportam como a Amy terem dificuldade em estabilizar e andarem a choramingar que os homens são uns cobardes e uns aproveitadores  porque nunca mais lhes telefonaram - mas isso é assunto para outros carnavais.

O que importa, menina Amy, é que não há mérito algum para uma mulher em ter muitas one night stands, nem que seja com umas estampas de rapazes, porque para isso basta somente  não ser hedionda de todo, percebe? Ter muita procura nesse "mercado" (Credo!) não é um atestado de beleza, é um atestado de doidice e de uma má fama danada. De disponibilidade e muitas vezes, de carência. E em muitos casos, de incapacidade para "segurar" (salvo seja) um diabo que a carregue.  Mas era eu a dizer isto e a Amy a acusar-me de machista e opressora, porque a realidade dói sempre um bocadinho. Prefiro deixar-lhe as suas ilusões. Ela tem uma carreira de sucesso e é crescidinha, que se desembrulhe que eu não sou paga para substituir a palmatória que faltou às filhas dos outros, quanto mais ainda pagar bilhete para dar sermões a alguém. Passo.

Thursday, July 21, 2016

De volta (I think a change would do you good).





Antes de mais, e directa ao assunto porque vos escrevo de uma terra de gente sem rodeios (lá iremos noutro post...) gostaria de principiar por agradecer sensibilizada o vosso cuidado e carinho durante esta ausência que nunca imaginei tão longa - de novo, já la chegamos...


Segundo, desculpem qualquer coisinha mas terei de arranjar um teclado português por estas bandas onde a Rainha Boadicea se fartou de dar tareia nos romanos, ou não vão faltar gralhas nestes textos, ai não.
 Mas vamos a uma explicação breve, que como sabem não aprecio aqueles textos do tipo "eu, eu , eu" estilo frases inspiradoras, egocêntricas e facebookianas da Clarice Lispector: eu sou uma daquelas pessoas relativamente previsíveis. Talvez não o suficiente para me tornar horrivelmente maçadora (espero...) mas não sou grande fã de surpresas: gosto da minha rotina e de tudo direitinho,planeadinho, sem aventuras de maior. Chego a ter pesadelos em que viajo e me falta o passaporte e os cartões de multibanco, imaginem. Mas não se enganem: quando o jogo vira, vira mesmo, se o saco rebenta, vai tudo raso e nem eu sei bem de onde me saiu ímpeto para virar tudo do avesso, correr mundo e viver extraordinárias aventuras. Já não e a primeira vez.
é como se tivesse um Indiana Jones de saias cá dentro que só salta lá para fora em caso de forca maior, ou coisa que se pareça. Mas quando ele salta, esperem o inesperado, o impossível, o "nem parecem coisas tuas", etc. 


De modo que, cansada de algumas portuguesices e mesmices a vários níveis, precisada de arejar ideias e sem vontade alguma de tolerar o tórrido Verão português (que só e maravilhoso para estar num dolce far niente, mas não tão fantástico quando se tem outras coisas para fazer: lá dizia o Visconde Reinaldo "não há nada mais reles do que um bom clima!") eu andava cá a cozinhar passar uma temporada fora mais dia, menos dia. E vai não vai, vou não vou, e hoje e amanha, eis que decido ir passar dez dias a Londres (a par com Roma, uma das poucas grandes cidades onde acho tolerável viver) a ver *literalmente* em que param as modas, a beber inspiração numa cidade que, com os seus defeitos por certo, da para uma pessoa se afogar em beleza, a tirar ideias, a gozar o fresco, as lojas e os museus, a ver de perto a emoção do Brexit, dos 400 anos da morte do Bardo (vale a pena vir a Londres só para ver as montras do Selfridges inspiradas nas pecas de Shakespeare) e dos 90 anos de Sua Majestade (vim mesmo a tempo- só a mim sucedem tais coisas). E os dias foram-se estendendo, transformando-se em semanas a fio sem que eu (preparada que ia para voltar a correr para solo pátrio) tivesse levado uma engenhoca decente para escrever. O tablet da Apple e mesmo isso, uma engenhoca pretensiosa...




Mas dessas peripécias - sem querer transformar agora o Imperatrix numas "cartas de Inglaterra" - trataremos mais tarde, pois como imaginam tenho observado, admirado e embirrado bastante por aqui...

Um beijinho a todos, e considerem o  Salão reaberto com uma valente dose extra de chá, sandwiches e torradinhas. Jolly well!




Saturday, May 28, 2016

Que casaco usar sobre saias ou vestidos?

Apesar de a Primavera já ir avançada, as temperaturas ainda são instáveis e um agasalho é indispensável, principalmente à noite. Nesta altura começamos também a tirar partido dos cardigans, dos blazers frescos ou sport jackets, dos blusões e de outros casaquinhos de meia-estação.

No entanto, se é relativamente simples escolher um agasalho que fique a matar com jeans ou outras calças, quem usa saias e vestidos regularmente poderá notar que às vezes, o casaco parece deixar o conjunto um pouco sem graça. 

Isto porque acertar nas proporções para saias é um bocadinho mais complicado - se quisermos mesmo um resultado perfeito, que favoreça realmente a figura.

Mas sabendo um truque muito simples, é mais fácil acertar: não usar nada que corte a figura nem a saia a meio. É que isso pode funcionar...ou não. Para quê arriscar?



 Para não haver mesmo erros, o casaco deverá sempre ser sensivelmente igual ou mais longo do que a saia (no caso de sobretudos leves, gabardinas, kimono jackets...)....

Ou então, um pedaço mais curto; idealmente, um casaco curto para saias ou vestidos deve cair um pouquinho acima da linha da cintura (em blazer, blusões, casaquinhas...).   

Se vai usar um vestido de cocktail pelo joelho ou 3/4, por exemplo, um bolero fará com que a figura fique mais longa, além de criar curvas bonitas- ao contrário de um casaco que cubra totalmente a cintura.



Isto é especialmente válido para vestidos ou saias cingidos e com mais estrutura (sheath, linha A, corpete + saia de balão) e para as mulheres com uma anca feminina, pronunciada (ampulhetas, pêras...) sejam mais cheinhas ou magras, altas ou baixas.

Se quiser usar,um casaco médio e solto como um boyfriend blazer, por exemplo, ele resultará melhor sobre um vestido fluido, com menos forma - shift dress, por exemplo.




Trata-se de um pequeno detalhe que pede observação, mas faz uma diferença enorme na silhueta! Já tinham reparado?





Ghostbusters só com mulheres- será boa ideia?


Já o tenho dito, Hollywood e os média em geral andam apostados em me escangalhar a infância com remakes e versões modernaças de filmes, personagens e séries bem amados pela minha geração. 

Não sei se será o caso de Ghostbusters, mas o que temos visto até aqui não me deixa nada descansada. Raramente fazem justiça ao original, quanto mais inventar para melhor, isto quando não se põem com paranóias da inclusão e da igualdade. Agora há uma orfãzinha Annie afro-americana (nada contra, até estou curiosa para ver o filme, mas ser ruiva era o cartão de visita da personagem. É o equivalente a fazer A Cor Púrpura com mulheres louras de olhos azuis: até pode ser feito, mas não fica a mesma coisa). 

E se eu adorava os Caça-Fantasmas! Que serões com os primos à espera de nos assustarmos benevolamente com as assombrações! O meu preferido era o taxista-múmia que se virava de repente, no meio do caos armado em Nova Iorque. E a Estátua da Liberdade a caminhar? E o Titanic a chegar ao porto? E a música, que ainda ouço às vezes?

Duvido que seja a mesma coisa; que com os novos efeitos especiais por computador se consiga o mesmo impacto. Agora, que o elenco se componha exclusivamente de mulheres, não me agrada nem me desagrada. Só me aborrece por ser a visão imposta pela ditadura do politicamente correcto. 




Fazia mais sentido ser misto - haver entre os rapazes uma rapariga gira e uma senhora mais velha de língua afiada, daquelas que não aturam tretas, a mostrar que uma mulher é tão capaz de caçar almas penadas como um homem em vez de se limitar a ser a donzela em apuros ou a secretária namoradeira. Mas não. Tinham de fazer uma equipa exclusivamente feminina because you know, feminism. Soa forçado e é uma seca que nem a diversão mais inocente seja livre de cassete política. É o que temos e sou capaz de ver só para tirar teimas, embora sob protesto e a pensar que há aqui discriminação contra os homens e misandria, em modo " agora vingamo-nos, aqui menino não entra". Ah, grow up already.

Friday, May 27, 2016

Homens musculados são maus, diz a ciência?




Apareceu-me isto nos feeds e passo a citar com uns retoques devidos ao português:

"De acordo com um estudo realizado na University of Westminster, homens mais fortes tornam-se namorados horríveis. O estudo baseou-se em 327 homens heterossexuais, dos quais mais de um terço eram solteiros e descobriu que quanto mais musculado era o participante, mais provável era ter crenças sexistas e mais hostilidade contra as mulheres.

A correlação entre homens musculados e crenças sexistas está enraizada em papéis tradicionais de género. “Achamos que homens que mantém crenças opressivas sobre mulheres e igualdade de géneros são também mais passíveis de carregar estereótipos tradicionais de masculinidade, o que inclui o físico musculado. Frequentemente, homens que já são sexistas esforçam-se para ser musculados, porque isso carrega a sua ideia de como um “homem a sério” deve ser. Os investigadores afirmaram que em sociedades onde as estruturas patriarcais estão a ser desafiadas, os homens podem tentar provar a sua masculinidade melhorando os seus corpos. Basicamente, homens que estão rodeados de mulheres no poder tendem a sentir-se ameaçados e ultrapassam isso ganhando músculos".


A autora do texto aponta depois, com  razão, que de facto os "Carlões" de Jersey Shores e afins não são exemplo para ninguém. Já lá vamos. Mas a única ideia isenta e razoável presente em tal estudo (um estudo que traz o papão do patriarcado e o termo "crenças opressivas" à baila só pode ser tendencioso) é mesmo que o crescimento da febre da musculação pode ser uma resposta aos exageros do feminismo. Os pobres homens sentem tanta pressão para se efeminarem, o apelo à mulher dominadora por parte dos média e da sociedade (com as suas desagradáveis consequências) é de tal ordem, que alguns acabam por rebelar-se dessa maneira.

Ora, eu mais do que ninguém prego contra Carlões, Ricardões e bimbos de ginásio. É óbvio que não se espera grande coisa ou respeito pelas mulheres de um bruto que se diverte a ver a Casa dos Segredos, a dançar em antros e a relacionar-se casualmente com mulheres sem dignidade que alinham pela mesma bitola e parecem, por sua vez, saídas da Casa dos Segredos. E convenhamos que em muitos ginásios o ambiente não é dos melhores, não. Quem vive para trabalhar só o corpo e não cuida da mente...já se sabe o resultado.

Não obstante, um homem pode ter músculos e ser culto, saber estar, saber vestir, ser um cavalheiro. Tal como uma bela mulher, com um corpo imaculado, pode ter cérebro e ser uma Senhora.



Por outro lado, nem tenho necessariamente nada contra o tipo de homem magro e sonhador, intelectual, poeta ou artista - veja-se o Reid das Mentes Criminosas, que é um encanto. Ser varonil não requer necessariamente um físico impressionante, já que a hombridade é uma característica que vem de dentro.



Mas daí a relacionar músculos com mau carácter ou confundir misoginia ou chauvinismo com uma postura e figura masculina, viril, protectora, vai uma distância. Há um apelo ancestral na força, na imponência, num físico masculino forte e saudável - não necessariamente trabalhado músculo a músculo, mas que dê o ar de quem pode saltar em defesa da sua dama e da família em caso de necessidade. Para não falar no factor estético- ombros largos são mais atraentes do que uma postura corcovada a denotar preguiça, um tronco elegante veste melhor um fato, braços fortes oferecem outra segurança e por aí fora. O exemplo que vimos há dias, do Thor a fazer bolos para a filha, mostra bem que um grande tórax pode esconder um coração de manteiga. E não há nada mais querido do que um homem forte que possui auto domínio, que sabe fazer uso da força e é cuidadoso com os mais frágeis. O povo até avisa contra certos "lingrinhas" que compensam com maldade a falta de tamanho: homem pequenino é velhaco ou dançarino.

Dizerem que os homens atléticos são os maus da fita é uma desculpa tão boa para a preguiça ou a invejita como gritarem aos quatro ventos que as mulheres desleixadas são "belezas reais". Essa é que é essa.

Pasmem: atrevi-me a *tentar* ver "Comer, Orar, Amar".




Shame on me. Se há coisa que me aborrece é filmes de mulheres tipo Bridget Jones, que invariavelmente envolvem uma solteirona desesperada a fazer asneiras enquanto procura um diabo que a carregue, ou uma divorciada a tentar encontrar-se a si própria justificando com essa desculpa a sua fiada de asneiras. Que- estava eu farta de saber - é o caso de Comer, Orar, Amar, livro/filme autobiográfico que pôs muita alma tonta em modo rebanho a viajar para Itália, Índia e Indonésia (acho- não cheguei a essa parte) para aborrecer os nativos com os seus chiliques. 

Sobre o romance light, uma cronista do New York Post deu a melhor definição possível: "uma tolice narcisista e new age"



Adequado, portanto, ao mulherio oferecido que adora Chagas Freitas, tem montes de one night stands com homens que estão fora do seu alcance para uma relação séria, acha-se mais bonita e capaz do que na realidade é, porta-se mal mas reclama que nenhum homem presta, finalmente se tiver sorte lá casa com alguém mais a condizer consigo para não ficar para tia, corre mal e vai descarregando no Papa, nas boas energias, nos gurus e nas citações ressabiadas/sórdidas de Facebook. Típico. Não admira que fosse um best-seller à escala global. As coisas andam assim, pretas.

Mas primeiro, porque estava a passar na TV e eu não tinha sono, logo dava-me jeito assistir a algo que me maçasse de morte; segundo, porque queria ver a parte que se passa em Itália (pintada com os estereótipos da praxe e como se em Roma não houvesse águas correntes quentes e frias); terceiro porque enfim, não acho necessário conhecer a fundo as coisas  com que embirro mas sempre convém embirrar com algum conhecimento de causa; e quarto, porque não havia nada melhor, lá arrisquei.



Bom, o filme tem imagens bonitas, tem uma boa fotografia. Há umas nonnas e mammas italianas a levar as mãos à cabeça com as modernices da protagonista, que lhe dão uma pitada de bom senso obviamente descartada pela narradora.

Salva-se por aí. Mas o argumento, justos céus! Se já viram, como quase todo o mundo viu, não me quero alongar: mas a heroína (bem casada, com um bom emprego e uma vida estável) acorda um belo dia e diz ao marido "não quero estar casada". Assim, porque não lhe apetece. Como quem diz "não quero ir ao ginásio hoje". O pobre coitado, que parece um tipo decente, indigna-se todo e lembra que fizeram um juramento, que para ele foi a sério, que queria criancinhas e envelhecer juntos e todas essas puras alegrias. 



Mas não. A egoísta da menina (vejam aqui um texto excelente sobre o filme que se foca mesmo nisso) está super desinfeliz.

Desinfelicíssima. A morrer por dentro apesar de ter saúde, família e amigos, um marido que a ama,  bom aspecto, uma carreira de sucesso, meios para passar um ano sem trabalhar se lhe apetecer e uma casa confortável. Que tragédia.

  Como se qualquer casamento fosse só felicidade todos os dias, sem esforço nem sacrifícios - e divorcia-se mesmo. Depois a maluca leva palmadinhas nas costas dos amigos que deviam era dizer-lhe "cresça", aborrece toda a gente com as suas lamurias, envolve-se numa relação muito pior que a anterior só para não estar sozinha com uma espécie de Gustavo Santos mais novo e todo metido a espiritualmente superior, desses que são vegetarianos porque é bonito armar em social justice warrior, começa a adoptar os hábitos dele como se não tivesse nada na cabeça, corre mal, separa-se desse também e lá vai toda contente ver se se encontra a si própria. 



Ou a ver se encontra Deus a meditar num ashram cheio de mosquitos ou lá o que é (adormeci nessa parte- os mantras deviam ser mesmo bons).

E em Itália lá aprende o valor do hedonismo e do dolce far niente, mas como lhe falta a noção de bella figura das italianas, que comem e bebem sem engordar, enfarda como uma esfomeada, trata de arranjar um pneu e dizer que isso é liiindo. Claro que a autora não capiscou nadinha, nada, niente, da filosofia de vida italiana, que passa muito mais por isto. Prazer de viver, descontracção, mas força, espírito de sacrifício, amor à família, Fé, brio na imagem, feminilidade. Isso são conceitos que passam totalmente ao lado destas cabeças de alho chocho.




E foi isto. Não vi mais nem preciso. São estas ideias doidas, egocêntricas, superficiais e patetas que andam nos média a ser pregadas às mulheres como positivas, poderosas e CORAJOSAS. Porque ir laurear a pevide pelo mundo fora só porque nos dá na gana exige muiiita bravura.

Não que seja má ideia uma mulher, ou qualquer ser humano, tirar um ano sabático para pensar na vida e "encontrar-se", se quer e pode. Não que seja necessariamente errado uma pessoa ter uma epifania e agir como lhe der na telha, pensar em si própria, perceber o que realmente quer. Mas deixem-se de floreados e de colocar filosofias da treta nos caprichos, por favor. É muita lata.

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