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Wednesday, May 27, 2015

S.Francisco de Sales dixit: ciúme é quantidade, confiança é qualidade



"Como o verme se cria na maçã mais delicada e madura, também o ciúme nasce no amor mais ardente e afectuoso, cuja substância aliás, estraga e corrompe; porque pouco a pouco acarreta desgostos, desavenças...(...).  É uma pretensão tola querer dar a entender com os zelos a grandeza do amor. O ciúme é um sinal da magnitude e corpulência do amor mas não da sua bondade, pureza e perfeição; a perfeição do amor pressupõe a firmeza da virtude da coisa que se ama, e o ciúme pressupõe a incerteza".

                                          S. Francisco de Sales


A perfeita confiança é uma das maiores bênçãos - e um dos mais complicados desafios- de qualquer casal. Afinal, trata-se de um dom, só possível no tipo mais profundo e evoluído de amor humano. 

  É fácil não desconfiar, não sentir qualquer insegurança, quando se gosta "assim assim" de alguém. Difícil é haver esse tipo de confiança e serenidade entre duas pessoas que sentem um amor realmente apaixonado uma pela outra e consequentemente, o constante medo da perda.

 Quando um casal se adora e mesmo assim confia, estamos perante um amor imenso e equilibrado, que se torna indestrutível. Mas por isso mesmo, a confiança também é um exercício mútuo, uma prática diária que nasce do altruísmo, do auto domínio que permite calar consigo próprio (a) as pequenas arrelias, as partidas da imaginação, as suspeitas injustas. 

Conclui-se então que para não haver ciúmes desordenados, são precisas duas coisas: honestidade e virtude a toda a prova, de ambas as partes, e mútua crença na honestidade e virtude do outro. Afinal de que servem essas qualidades, se quem mais beneficia delas não acredita que existem?

Tuesday, May 26, 2015

Dois conselhos preciosos (e cómicos) para lidar com homens e mulheres*



*(Retirados do livro que mencionei ontem, e que me divertiu imenso desde a noite passada).

1- Para viver em harmonia com o namorado/noivo/marido que cabe em sorte a cada uma:

"Ou formá- lo como desejamos, ou aturá-lo como o achámos"

Que remédio! Ou há jeito, paciência e jogo de cintura para carinhosamente polir os defeitos ao mais que tudo (que isto as pessoas são como as pedras e água mole sempre a passar-lhes por cima algumas arestas há-de limar; as virtudes são contagiosas pelo exemplo) ou se aceita o cavalheiro exactamente como ele é, que assim como assim, podia dar-lhe para muito pior. Senão, não...

2- Para lidar com uma mulher de pouco juízo...(ou para levar a melhor sobre uma mulher ajuizada, quando a razão está do lado dela).

Não há como, ou é muito complicado de conseguir. Ora vejam: "com as mulheres não se leva a melhor. Houve um único que venceu uma. Foi o demónio, disfarçado de serpente.".

Moral da história: quando se trata da dinâmica homem - mulher, não serve de nada o wishful thinking. Mais vale aceitar "o inimigo" como ele é e partir daí...




A propósito dos Globos de Ouro: há criticar como stylist...e há ser desagradável.




Eu estava para não me pronunciar de todo sobre os Globos de Ouro. Costumo fazê-lo só se algum detalhe/vestido me chamar a atenção ou se pudermos tirar alguma lição, em termos de estilo, do evento, porque a televisão me passa bastante ao lado. Reparo apenas como se apresentaram pessoas minhas conhecidas, e olha lá...

Isto para explicar que alguns zunzuns que li me fizeram mudar de ideias. Vou então dizer de minha justiça: não para avaliar as toilettes, não para defender ou apontar gaffes a qualquer convidada, mas para analisar o comportamento de quem avalia, por vezes levianamente.

Pondo de parte nacionalismos gratuitos e escusados, a César o que é de César: se nas mais mediáticas galas internacionais as coisas já não são o que foram, chega a ser disparatado que bloggers, stylists, jornalistas de moda, et cetera portugueses- com mais ou menos propriedade para opinar - se ponham com demasiadas exigências, com ares de rainha ultrajada, perante os esforços nacionais.

 Há que elevar os padrões nas ocasiões certas? Isso sem dúvida, defendo mais que ninguém que não honrar o dress code é um vício imperdoável; mas ser mais papista que o Papa, salvo seja, pode transformar uma crítica equilibrada numa anedota e pôr em causa o profissionalismo de quem faz esse juízo (se estivermos, claro, a falar de críticos com algum conhecimento de causa ou experiência/formação nesse sentido). 

 Se é para chamarmos o Papa a estes assuntos, lembremo-nos sempre, antes de opinar, da grande humildade de Clemente XI:  "fazei-me prudente nos conselhos!". 

 Há formas pertinentes - dentro do estilo de cada um, do mais sereno ao brincalhão - de fazer crítica de moda. E há formas inconvenientes, grosseiras e que nada acrescentam de tentar a mesma coisa. Podemos apreciar mais ou menos o discurso: o que interessa é se a crítica é estruturada e fundamentada.

  Há dias o stylist Nuno Tiago, do blog Polícia da Moda, foi notado nas redes sociais por "arrasar" (era este o termo, ou exagero semelhante?) uma apresentadora. Ora, fazer uma crítica justa a um vestido que está torto e reparar no styling (em termos de penteado) não é arrasar quem quer que seja, muito menos quando se percebe realmente de fitting e alfaiataria, como é o caso. Tais críticas, por mais que sejam ditas em tom de graça, são construtivas e bem vindas.

 Afinal é esse o trabalho do stylist, ou do crítico de moda: ao estudar e avaliar o visual alheio, tem de isolar o mais possível o seu gosto pessoal (que é sempre relativo) e deter-se nos critérios que importam: nas proporções, na adequação ao dress code e às tendências (não estar na última moda não é necessariamente um defeito, mas não convém que um visual pareça "cansado" por ter sido já muito visto recentemente, ou datado), na qualidade dos tecidos, no fitting, na alfaiataria, na riqueza dos detalhes, na harmonia e impacto do conjunto, nas cores (se é uma cor clássica ou do momento, se favorece a pele, traços e cabelo de quem usa) no styling (o penteado, makeup, calçado e acessórios) etc. 

Só esses aspectos interessam para uma crítica feita com profissionalismo, que sirva para governo da visada e para ensinar o público que lê ou vê o comentário. O gosto de cada um, as tentativas de fazer humor gratuito, são irrelevantes.

Um visual pode não fazer o nosso género, mas se está bem conseguido, tem bom ar, favorece quem vestiu e não atropela nenhuma regra de elegância, é isso que tem de  se ter em conta e ponto final. É lícito dizer "fulana não costuma acertar, mas desta feita saiu-se bem" ou vice-versa, mas deixemos de lado simpatias e mesquinhezas.

 Pois bem- sem querer dizer nomes, pois sabem como sou avessa a tolices desse género- deparei-me com um blog (amplamente publicitado via anúncios nas redes sociais) da autoria de alguém com alguns pergaminhos académicos aos quais juntava formação em personal styling. Ao ver tanta insistência, 
segui a página por curiosidade: gosto sempre de conhecer o trabalho que se vai fazendo por aí e se a pessoa tiver obrigação para escrever correctamente, tanto melhor.

  Entretanto o blog em causa dedica um post aos Globos de Ouro...e não direi que fiquei surpreendida ao ver a crítica pueril, no mínimo, que escreveu: da adjectivação com termos brasileiros menos polidos, usados como se fossem nossos, ao redutor "este vestido é uma piroseira porque sim!" ou chistes do género "parece um guardanapo", a apelar à  piadinha fácil, era o costume. O costume que dá mau nome aos bloggers e o costume que granjeia aos profissionais de moda, mesmo aos mais sérios, a reputação de fúteis e desmiolados. Em última análise, serenidade e elegância cabem em toda a parte. Que cliente gostaria de contratar um(a) stylist que classifica as outras (potenciais clientes também, e pessoas com quem essa blogger parece querer vir a cruzar-se em certos círculos) de "foleiras"? Quem quiser ouvir de si... 

Foi, em suma, um discurso de rapariguinha de shopping,  baseado apenas na sua opinião e (entremos, uma vez sem exemplo, em modo ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão) no seu gosto pessoal que, se tivermos em conta os critérios atrás descritos e só esses, eu classificaria de questionável. E como este há imensos!

 Sejamos sérios, rigorosos e sobretudo profissionais nos conselhos...porque fazer crítica de moda tem mais que se lhe diga do que cortar na casaca. 





Monday, May 25, 2015

Palavras que podiam ser minhas: dura veritas sed veritas, ó desmioladas.


Hoje encontrei este texto dos anos 1970 e não resisti a retirar algumas partes para vos mostrar, não só porque poderia ter sido eu a dizer isto mas porque é um retrato - um pouco cru, mas fiel- da mentalidade feminina vigente, quase quarenta anos volvidos: vacuidade nos sentimentos, leviandade, atrevimento, ausência de temperança, prudência e elegância interior, um apego frívolo aos aspectos mais superficiais e materialistas da moda, paixão pelas más leituras, falta de discrição e vontade de dar nas vistas, adesão cega às tendências sem pensar se são apropriadas ou esteticamente correctas...

A diferença é que muito disto é hoje encarado como virtude, como "qualidades da mulher moderna e poderosa "e que um texto assim, publicado nos média da actualidade, seria corrido a apupos de "slut shaming", caretice, chauvinismo, eu sei lá. Paciência.


" Nem todas as mulheres sabem amar. Amar só o sabem as que sabem entregar-se ao sacrifício. Mulher que não ama assim não compreende e não se dedica (...) . Os defeitos de certas raparigas são principalmente: leviandade de espírito; vacuidade de pensamento; falta de educação moral e muitas vezes, social; ausência absoluta, ou quase, de consciência. (...) Vestem-se como as outras, porque é moda. E se a moda é extravagante, cara e indecente, elas tornam-se extravagantes, dispendiosas, indecentes, sem custo e sem recear o ridículo a que se expõem; lêem tudo o que lhes cai debaixo dos olhos, mesmo que sintam que é mau. Relacionam-se com quaisquer pessoas, frequentam quaisquer lugares, quaisquer divertimentos...perdido todo o sentido do pudor, oferecem-se demasiado para serem desejadas; perderam todo o bom senso; sabem tudo-tudo o que não deviam saber - e sempre despropositadas de tudo riem, de tudo escarnecem, tudo criticam, sem conhecimentos que as autorizem a isso. As qualidades viris que conquistaram não compensam de facto a feminilidade que perderam.

 Que fazer, então, dessa palhaça, dessa doidinha? Guardá-la como jóia rara? O melhor é atirá-la pela porta fora...".

                                      L. Chiavarino

Vestidos normais, clássicos e bonitos, onde encontrar?


Como por aqui se faz muito a apologia do vestido, perguntam-me frequentemente "onde comprar vestidos elegantes que não sejam curtos nem estilo saco?". E é uma questão mais que justa, já que eu própria dou bastantes voltas quando quero adquirir um sem gastar uma pequena fortuna.

 Já aqui falámos do incompreensível hábito de muitas lojas, nomeadamente as de fast fashion, por vezes não terem disponíveis os modelos intemporais - não só de vestidos, como de calças, sobretudos e saias - que estão sempre a ser necessários e que ficam bem à maioria das mulheres. Porquê? Não faço ideia nenhuma; talvez se foquem demasiado nas tendências do momento desprezando aquilo que as pessoas precisam realmente de usar, ou façam por produzir apenas aquilo que fica mais barato (coser uma túnica não custa nada, afinal).

 A verdade é que "vestidos" tipo balandrau ou camiseiro largo vão sempre aparecendo, mas encontrar um vestido para trabalhar, ou de cerimónia, que não seja bandage/curtíssimo/sem forma, dá algum trabalho. Daí a minha máxima "compre quando está à venda e não quando precisa com urgência".

 Um dia ainda me encho de coragem para criar uma marca que resolva este e outros problemas femininos, mas até lá aqui fica um mini guia (e alguns truques).


1- Esteja atenta a várias fontes

Como a maioria das marcas costuma fazer pelo menos um vestido ou dois, o modelo certo pode estar onde menos se espera. Treine a vista para detectar vestidos em lojas pouco habituais - há muita variedade online e por vezes, o comércio tradicional tem exemplares interessantes. Uma vez que os designs clássicos nunca passam de moda, não é imperativo comprar o último grito: preste atenção a outlets (que frequentemente acumulam todos os vestidos clássicos que sobraram das últimas estações) e outros pontos de venda onde haja escoamento de stocks de diferentes marcas. Vintage é outra boa pista.

2 - Se não é perfeito, dê um jeito:

Muitas vezes aparecem vestidos que até têm o formato certo mas são demasiado curtos (ultimamente surgem alguns sheath dress muito acima do joelho) ou num tecido interessante, mas grandes e /ou de corte a direito (isto acontece bastante com exemplares vintage e outros achados). 
 Um vestido curto demais pode ser remediado mandando colocar na bainha uma barra larga de tecido que combine, ou de renda, veludo, cetim, bordado inglês (ideal para vestidos de festa)...
 Um vestido a direito em seda ou fazenda pode transformar-se num sheath dress, se tiver uma costureira hábil. 

 3 - Marcas com provas dadas:

É sempre bom saber onde procurar, já que algumas marcas são mais versadas - e vezeiras - em vestidos do que outras.

Asos

Acessíveis: além da Zara (que como vimos, ocasionalmente repete bons modelos com certa qualidade) da Mango (sobretudo em outlet) e da Primark (que de longe em longe reproduz dois tipos de sheath dresses realmente bem feitos em cores e padrões diferentes- dependendo do tecido, vale a pena experimentar porque parecem muito mais dispendiosos) é boa ideia, se der um pulo a Espanha, Reino Unido ou quiser comprar online, espreitar a Dorothy Perkins: tem sempre vestidos clássicos que vestem bem por um preço amigo. A Lanidor faz sheath dresses e vestidos linha A perfeitos que correspondem ao tamanho, não precisando de nenhum ajuste. A Sfera é também uma marca a ter em atenção - assim como outras disponíveis no El Corte Inglés. Muito boa para vestidos formais. Algumas amigas minhas juram pela ASOS: tem sempre modelos lindíssimos, preços convidativos para todas as bolsas e ouvi boas referências quanto a entregas e devoluções.


Segmento médio: a Tintoretto (como outras à venda no El Corte Inglés, dentro dos mesmos preços) é fantástica para vestidos de cerimónia bem cortados. Compensa estar atenta aos lookbooks da Globe: bons tecidos e moldes. Marcas como Adolfo Dominguez, Gerard Darel e Purificación Garcia têm frequentemente boas opções. Mas para comprar sem erro, tente a Karen Millen: tem invariavelmente sheath dresses de perder a cabeça a cada colecção.

Armani
Entry level/luxo: se pretende investir em exemplares que vão durar muitos anos, Ralph Lauren (nas suas várias linhas) e Hugo Boss (para vestidos sofisticados ou de look profissional) são escolhas seguras. Para um vestido de dia ou de noite que a faça sentir-se como Marilyn Monroe, nada como Dolce & Gabbana. Um modelo Vivienne Westwood nunca cairá mal num evento, unindo o melhor estilo vitoriano ao corte dos anos 50. Caso deseje um luxo sóbrio, Gucci, Armani e Lanvin.




Top 6 dos melhores "Jesus" no ecrã


Como hoje se assinala o Dia de Pentecostes, lembrei-me que já há tempos desejava fazer um mini ranking das que são - para mim, vá- as mais interessantes interpretações de Jesus Cristo no cinema. Não é uma escolha fácil, porque desde pequena tinha um enorme fraquinho pelos "filmes Bíblicos" que passavam pelo Natal e Páscoa. Devo ter devorado a maior parte dos "obrigatórios" mas gostaria de ver ou rever alguns clássicos importantes. Por isso vou basear-me apenas nas minhas impressões e no impacto emocional/visual de cada versão. De resto, interpretar o Divino Redentor no ecrã, embora seja um prémio para qualquer actor, é realmente estar um pouco na pele de Cristo, até no aspecto de não se agradar a todos. Ou porque o filme tem algo de controverso, ou porque cada um imagina a figura de Jesus lá à sua maneira e é impossível corresponder a tais expectativas... 

 Aqui fica então o top 6, terminando com o meu favorito.

6 - Diogo Morgado - Son of God (2014)


Aqui estou a fazer um bocadinho de batota patriótica, confesso. Falta-me ver boa parte da série. Mas quando um actor português conquista o papel icónico dos papéis icónicos  e consegue boas críticas, merece algum crédito. Mais importante, Diogo Morgado tem uma figura majestosa e ao mesmo tempo, um sorriso doce que vão bem ao Rei dos Reis


 5- Christian Bale - Mary, Mother of Jesus (1999)


Este foi o filme que vi mais recentemente, e deixa a desejar - com uma interpretação no mínimo muito livre dos acontecimentos e da personalidade quer de Jesus, quer da Virgem Maria. Não estou a imaginar a mãe de Jesus, um modelo de força serena e de doçura, a acusar os Apóstolos, a gritar com guardas e sacerdotes para impedir que lapidassem uma mulher (por muita razão que houvesse nisso) nem Jesus a ser pouco amável com a própria mãe porque andava entregue à sua vida de pregação junto dos discípulos. Mas a película vale por duas razões: Christian Bale (que além de fazer um lindo Jesus, é virtualmente incapaz de desempenhar mal um papel por mais fraco que o material seja) e uma sequência da Crucificação verdadeiramente artística, baseada no imaginário da Pintura.


4- Ralph Fiennes - The Miracle Maker (2000)


Sou suspeita, mas tinha de incluir Ralph Fiennes na lista apesar de neste caso, ter apenas emprestado a sua poderosa voz à versão stop motion do Messias (se estão recordados, Fiennes saiu-se lindamente a cantar como Faraó em O Príncipe do Egipto, mas é refrescante não o ver a fazer um vilão, para variar). Aliás, sou duplamente suspeita porque gosto muito de filmes em stop motion com marionetas bonitas (Jesus está muito bem conseguido, com uma presença majestosa em vez da figura franzina preferida por alguns autores) e se tiverem temas bíblicos, melhor ainda. Fica a sugestão para um serão familiar, até porque as cenas violentas foram reduzidas ao mínimo. Child friendly, mas muito interessante.


3- Robert Powell, Jesus of Nazareth (1977)


Um daqueles clássicos-que-passava-sempre-na-Páscoa (agora já é raro apanhar-se um filme apropriado à quadra...bons tempos!) esta super série italo-britânica (que também esteve nas salas de cinema) contou com um elenco estelar, de Laurence Olivier (Nicodemus) a Peter Ustinov (Herodes, comme il faut) passando por Anthony Quinn, não faltando mesmo Claudia Cardinale como a mulher adúltera. Embora ande com vontade de o rever com atenção, recomendo-o principalmente por tanto a Virgem Maria (Olivia Hussey) como Jesus (Robert Powell) parecerem tirados a papel químico das imagens tradicionais (e passarem realmente por mãe e filho, com o mesmo tipo de rosto e olhos claros). 

2 - Jim Caviezel - The Passion of The Christ (2004)



A versão de Mel Gibson, largamente baseada nas visões místicas de Anne Catherine Emmerich e da Venerável Maria de Jesus de Ágreda sobre a Paixão, dispensa apresentações. É um transporte artístico e devocional ao mesmo tempo, um filme que ou se adora ou se detesta. Eu acho-o difícil de ver, mas emocionante (tão emocionante que o facto de ter ido ao cinema com um amigo tolo que me perguntou se o Judas "era o mau" não estragou tudo; só a mim!). No entanto, já era fã de Jim Caviezel antes e percebi perfeitamente que tivesse sido escolhido para o papel pelo seu olhar grave e triste, perfil aquilino e figura imponente. Só achei pena terem-lhe alterado ligeiramente o nariz e os olhos (com a intenção de o assemelhar o mais possível à imagem no Santo Sudário de Turim) - a meu ver, o rosto de Caviezel era perfeito como estava. O facto de o actor se entregar de corpo e alma a este trabalho, com um zelo só possível num Católico devoto como ele (adoeceu várias vezes, foi atingido por um raio e intoxicado com o gás do cenário enquanto estava pendurado na Cruz,etc) também ajudou, com certeza.

1- Ted Neeley, Jesus Christ Superstar (1973)


Este é possivelmente o filme da minha vida. Rodado na Terra Santa com poucos recursos (e muita, muita criatividade; é preciso manter a mente aberta para não estranhar legionários com metralhadoras e outras inovações) mas realizado com uma perfeição rara. A iluminação,a fotografia, a direcção de actores, a edição, é tudo extraordinário. Sei a banda sonora de cor, sem exagero, e recuso-me a ver qualquer versão do musical em palco. Por muito boa que seja, é sempre um assassinato. Adiante: hippies, danças e polémicas associadas ao elenco à parte (os actores que interpretavam Pedro e Pilatos tinham estilos de vida pouco condizentes com a temática, digamos assim...) o libretto é bastante fiel aos Evangelhos, embora preencha alguns "campos em branco" com o que Jesus e Judas terão sentido ou pensado em determinadas situações. Temos também a oportunidade de imaginar o que Anás e Caifás (este jovem e bem parecido, com uma voz espantosa) terão conspirado entre si, de sentir a imponência do poder de Roma na Casa de Pilatos (aquela música!) e a decadência cómica na de Herodes (o que calculo, não andaria longe da verdade, mais cantiga menos cantiga...).
 Mas vamos a Ted Neeley: além de uma voz absolutamente fabulosa - com uma extensão incrível- que consegue num trecho expressar meiguice, poder, tristeza e raiva (a cena dos vendilhões do Templo é épica, e foi rodada num take só porque não havia mais adereços para partir, tão parco era o orçamento) tem ar de anjo, com os olhos mais lindos e doces. Posto em termos queirosianos, "é uma pintura de Nosso Senhor Jesus Cristo!", logo o meu preferido, sem desfeita aos restantes...




Saturday, May 23, 2015

Deixem o Mar em paz!


Parece que mais uma vez, Portugal não ficou bem colocado no Festival da Canção. E parece que, como de costume, levou outra cantiga sobre...o mar. Quando não é o Fado, é o mar. Quando não é o mar, é o Fado. 

 Nada contra o Fado nem contra o mar. Nada contra a canção ou a intérprete que de resto, nem ouvi bem.

Como não vejo televisão generalista nem sequer tenho opinião, reparem, quanto a valer a pena continuar a gastar meios para participar num certame que já não vale o que valia, que está cada vez mais parecido com um freak show, que - desculpem a franqueza - se fez um bocadinho eurotrash, onde nunca nos deram grande troco, que tem um sistema de votação esquisitíssimo com mais lobbies do que a máfia siciliana (dizem uns) e/ou com os vizinhos a votar todos uns nos outros (dizem alguns). 

Percebo que, se calhar, para algumas cabeças seja ponto de honra Portugal ganhar alguma vez, já que andamos desesperadamente a tentar há décadas (e claramente, a fazer mais esforço para agradar "lá fora" do que para escrever uma canção com pés e cabeça).

  E sou tão compreensiva com esta ilusão teimosa que até dou desconto a que tendo nós, coitaditos, apenas como vizinhos a Espanha e o Mar e não sendo boa ideia compor odes a Espanha, nos fuja a falta de imaginação para o mar.

O mar é daquelas coisas que andam de noite, assim neutras - como o infinito, o silêncio, a dor, o destino e o amor - que está mesmo à mão quando se tem preguiça ou falta o talento para a escrita. Não que grandes autores não tenham usado estes temas (de Fernando Pessoa a Marguerite Duras) mas são assim um pouquito óbvios.


 Dito isto, lá porque estamos entalados entre Espanha e o Mar - condicionantes que nos empurraram para a grandeza dos Descobrimentos, certo, mas essa não foi a única grandeza que tivemos mesmo que queiramos viver da História -  e tudo isto é fado, não temos de usar sempre essa desculpa esfarrapada. Falar sobre o mar em cada canção só porque  é para inglês ouvir é o mesmo que enfiar um panfleto turístico pelos olhos do júri dentro. Os estrangeiros hão-de julgar que não pensamos em mais nada. Imaginem se os russos só cantassem sobre a neve, ou os italianos sobre macarrão. É mais ou menos o mesmo. Sim, temos o mar mas também temos dores de cabeça, e dias bons e dias maus, e sonhos como toda a gente - tudo emoções que costumam inspirar os autores e com que os ouvintes se identificam.

 De mais a mais, há países tão cercados pelo mar como nós ou mais, e não os vejo a fazer essas figuras na sua música. Inglaterra, pátria de alguns dos maiores êxitos do pop e do rock, nunca se ralou com o facto de ter o mar à volta. Não sei muito sobre a pop japonesa mas suponho que poucas cantigas falem de "ai ai, vivo num país insular, que desgraçada sensação". 



  O problema é que Portugal é como certas crianças que cantam muito bem quando estão sozinhas, mas mal os pais babados lhes pedem que repitam a proeza à frente dos convidados perdem a naturalidade, cantam baixinho com voz de mimo e estragam tudo.

 Há demasiada preocupação em criar o tema que "vai ganhar o festival". Basta ver que a cada edição se mudam as regras, pensando que assim é que se vai acertar... quando bastava, se calhar, não levar uma cantiga escrita de propósito para a ocasião. Embora haja fórmulas provadas que resultam (na música pop, pelo menos) a  maioria dos grandes hits não foi escrita de encomenda.

  Canções como Umbrella (que acabou por se tornar conhecida pela voz de Rihanna) foram inicialmente oferecidas a outras cantoras. Andaram meses na gaveta, às vezes mais.

Deviam procurar-se músicas - não importa tanto a língua em que são cantadas - que fossem orelhudas, que ficassem no ouvido, que arrepiassem, que fossem boas para a rádio, que funcionassem no festival, sim senhor, mas principalmente fora dele e depois dele. Veja-se o exemplo dos ABBA, que deram nas vistas com Waterloo mas havia muito mais material de onde aquele tinha vindo.

E de preferência, sem o mar ao barulho. É que sinceramente, já enjoa e assim como assim, quem fala outras línguas nem percebe o que é que "mar" quer dizer.

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