Pessoas fofas e respeitáveis:

Wednesday, April 16, 2014

Há divas que escrevem, e há senhoras que escrevem por falta do que fazer. Não é a mesma coisa.


Se há algo que me dá alegria, é encontrar um livro de que ando à procura há anos. 
  Noto que compro  menos livros do que no passado- selecciono muito, porque hoje em dia ir a uma livraria já não é um prazer. Não é mesmo seguro entrar numa com o descuido de antigamente, quando uma pessoa estava certa de sair de lá tendo aprendido alguma coisa...

 Eu que toda a vida fui rato de biblioteca, que arranjei uma miopia muito chata por ler demasiado, à velocidade da luz (e às vezes com pouca dita cuja, apesar dos avisos lá em casa) e por fim eu, que morro de medo dos "vermelhos" (long story, não vamos por aí hoje, mas posso adiantar-vos que em pequena julgava que "comunista" era um palavrão...) nunca na vida imaginei citar Mao Tse Tung, esse bochechudo de uma figa, mas face ao panorama "literário" actual, receio bem que a sua frase

"quanto mais livros uma pessoa lê, mais estúpida se torna" corra sérios riscos de não deixar de ser verdade.

Deixem-me explicar, para não ficar aqui nenhum mal entendido. Ler abre a mente - certo. Mas convém que não abra portas que melhor ficariam se as fechássemos deitando fora a chave!

Hoje em dia uma pessoa entra numa livraria destas de centro comercial e o que vê, exposto com grande pompa? Romances escritos por apresentadoras de televisão e pivots de telejornal. Eu cá acredito que os bons jornalistas e os bons escritores nem sempre convivem no mesmo cérebro; um jornalista saberá, por obrigação, escrever correctamente e às vezes nem isso. Mas essencialmente a sua mente (para não falar no seu vocabulário) está, ou deve,  voltada para o rigor informativo, para os factos e - desgraça das desgraças- para um permanente sensacionalismo, o que não condiz com os predicados de riqueza interior, detalhe e imaginação que devem ajudar um romancista no seu trabalho.

Mas vamos considerar que isso nem é o pior porque enfim, há quem tenha jeito para tudo.

 Uma alma que hoje transponha as portas (ou os sensores...) de uma loja-que-vende-livros vê-se bombardeada por "memórias" de ex-alternadeiras a lavar roupa suja, de testemunhos fofinhos de pessoas que sobreviveram a isto ou àquilo, de romances light para desesperadas, e, no canto mais intelectualóide do sítio, de "poesia" ou prosa poética daquela que fala, fala, fala, debita o dicionário mas não diz nadinha, de alguns meninos poseur que se intitulam escritores ou pior, poetas - entre outras publicações potencialmente nocivas para os neurónios. 

 Passa-se os olhos, por desenfado...e a pouco e pouco, os padrões de exigência começam a descer. A apanhar-se vícios. A achar normal tanta patacoada. Percebem o perigo?

Tenho para mim que se uma pessoa quer entreter-se a ler parvoíces, mal por mal os manuais do momento (da dieta da moda, do escapar à crise, etc) são um bocadinho mais inócuos, pois não se fazem passar por literatura.

 Só que isso não é o pior das livrarias: as blasfemas atrevem-se, porque se atrevem, a cometer dois sacrilégios imperdoáveis: descontinuar num ápice qualquer romance novo que jeito tenha (se não o apanharmos logo, esqueçam, são duas edições no máximo e adeus) e pior, muito pior, não ter os clássicos ou os básicos. Cair na asneira de procurar o Oscar Wilde ou Miguel Torga que nos falta, ou que anda desaparecido em combate,  pelas Fnacs da vida... pode ser uma tarefa espinhosa. "Não há! Quer que encomendemos?". Pois claro, o que me está mesmo a apetecer é esperar toda a vida e mais seis meses para obter o livro...

 Por tudo isso, e porque como já tenho dito prefiro autores mortos e comprovados,  hoje faço as minhas compras mais específicas online. Tudo o resto é encontrado em alfarrabistas ou feiras com bancas de livros velhos, sem capas pirosas e brilhantes, sem edições modernaças, sem traduções duvidosas e que cheiram a livro, livro a sério. 


 Ora, no fim de semana passado dei com " Sem Papas na Língua", as memórias de Beatriz Costa, a preço de banana, numa feira destas sem regras. Já me tinha deliciado com "Quando os Vascos eram Santanas" mas nunca tinha deitado a mão ao "Papas". 

E deixem-me dizer-vos, eu que não lido bem com brejeirices, que a nossa Beatrizinha é das poucas brejeiras adoráveis que tenho visto. Porque sabia estar e adequar-se a toda a sorte de gente, o que é uma das minhas qualidades preferidas. 

Self made woman como há poucas, foi artista na altura em que valia a pena sê-lo neste país tão ingrato para o seu ofício. Tinha uma sensibilidade e uma joi de vivre raras, que sabia pôr deliciosamente por escrito. "Saloia" e com orgulho, viajou muito, andou nos círculos mais exclusivos e  privou com a melhor aristocracia europeia, com alguns dos maiores vultos artísticos e intelectuais de sempre ( incluindo algumas das minhas pessoas preferidas, como Mae West, Sophia Loren, Jorge Amado e Carmen Miranda) e com figuras de lenda: Salvador Dali, Che Guevara, Lucky Luciano ou mesmo a Bela Otero, a famosa cocotte da Belle Époque,  que encontrou num café do Mónaco.

 As suas descrições da Lisboa dos anos 30, ou de Londres durante a Guerra, são uma pura maravilha. Mulher extraordinária, que viveu tempos magníficos!

Fosse este outro país, e uma série ou filme com base nas suas memórias estaria nas telas há muito... 

Mas enfim, por cá prefere-se levar aos ecrãs trabalhinhos de ficção de outro género. Daqueles que andam nas livrarias "modernas" a acumular edição sobre edição,  a amolecer cérebros e a pôr caraminholas na cabeça das mulheres. 

Daquelas rascunhadas por pessoas que, para citar um autor mencionado pela própria Beatriz Costa, correspondem a isto:

 "Não era uma escritora. Era uma senhora que não tinha nada que fazer". 





Tuesday, April 15, 2014

Decisão bicuda da semana: céus, o que eu odeio brique a braque!

Vontadinha de fazer isto, estilo Fantasma da Ópera.

Ok, não odeio, bem pelo contrário - nisso não concordo com o João da Ega d´Os Maias. Mas digamos que se gosto bastante de  brique a braque e de antiguidades, não tenho a mínima pachorra para decoradores pindéricos (se quiser chamar alguém para me acudir peço a um arquitecto e há-de ser daqueles que não querem deitar abaixo tudo quanto é parede e 
deixar-me sem espaço para arrumar nada)  muito menos para "propostas de decoração" com nomes deprimentes e atmosfera não sei de quê, ou para serviços de canequinhas da moda com bonecos, nem para almofadinhas produzidas em série.

 Ao fim de uns anos de caça ao tesouro, a minha ideia de decoração é um móvel da tetravó aqui, mais um divã dos anos 70 ali, com armários para não deixar tralha à vista, poucos tapetes (nisso, a minha mania de não tropeçar roça o obsessivo compulsivo, o que gera alguns debates lá em casa) mais uns objectos exóticos trazidos de viagens, tarecos herdados e outros comprados, mas tudo com certo sentido - louça inglesa ou japonesa, por exemplo, bronzes e vidros coloridos, e nada de bibelots que não servem para nada - se descontar uns diabinhos oferecidos por uma das maiores artesãs deste nosso Portugal que fazem as minhas delícias. Um locus horrendus que funciona lindamente, portanto, entre lojinha dos horrores e casa onde vive gente normal e não uma data de yuppies pretensiosos,

 Actualmente sou pouco apegada a móveis, com excepção de um por outro. Gosto de os trocar de vez em quando e não é raro trazer uma velharia qualquer (como a minha cadeirinha de veludo) para substituir algum que não me esteja a ser de grande utilidade. Logo, tornei-me bastante boa a encontrar coisas giras e valiosas, mas em conta.

 Porém,como toda a gente, tive fases. E numa altura em que mudei para um apartamento novo (a mania dos apartamentos passou-me depressa...) entendi que queria mobília também nova, tudo muito cool, num acesso de burguesice que nem parecem coisas minhas e que estou para entender até hoje.
 Em verdade vos digo que tive um quarto encarnado, de inspiração oriental  que ainda hoje acho que ficou um amor, antes de se verem por cá paredes coloridas. Não imaginam o reboliço que isso causou entre os pintores.

   Mas no meio disso tudo, veio para casa um aparador também ele de inspiração japonesa e todo minimalista em vez de uma cristaleira de gente, que nunca serviu para guardar grande coisa, desenhado por um palerma de um designer qualquer (palerma? ele?)  mais uma mesa oriental daquelas com tampo giratório que veio de barco da Cochinchina e tudo e que, eu que detesto falar destas coisas, só vos digo mal empregadinho dinheiro, que podia ter sido gasto numa grande passeata ou numa data de sacos da Prada. 

 E não foi tudo: também entendi que queria lustres, porque ainda hoje tenho uma paixoneta por lustres vá-se lá saber porquê;  quando eu era pequenina achava que eram feitos de diamantes verdadeiros e ainda por cima diz que dão sorte; mas ó azar dos Távoras, na altura ainda não estavam tão na moda e não se arranjavam em sítio nenhum...a não ser em lojas especializadas e disparatadamente caras (onde fui, claro) e nas casas ou feiras de tralha, que os têm lindíssimos e aprovados no teste do tempo (precisamente o único sítio onde eu, armada em esperta, não me lembrei de procurar).

 Zás, lá vieram três lustres de cristal todos pipis e novinhos em folha. E sabem como é que os * inserir insulto relacionado com gado caprino* dos lustres, lustres o diabo que os carregue que chamá-los "candeeiros" já é elogio, me agradeceram, sabem?

 Avariando-me todas as desgraçadas de todas as lâmpadas que têm usado, foi o que foi. Tipo, bzzzzzzz, *faísca* bzzzzz *treva*. 

 E não é defeito dos electricistas que os montaram, nem dos que já cá vieram tentar
 arranjá-los umas poucas de vezes, tão pouco da instalação eléctrica porque me seguiram de uma casa para a outra a fazer precisamente o mesmo trabalhinho.

 Com o preço absurdo das novas lâmpadas obrigatórias de baixo consumo que poupam imenso porque não dão luz nenhuma, podem imaginar a odisseia - e as luzes adicionais que tenho de andar a ligar para não ficar totalmente vesga.

  De modo que, farta de ter consideração por objectos que não têm consideração nenhuma por mim, já lhes arranjei dignos substitutos e os três estarolas vão marchar, mas é mesmo marchar, para o vendedor de tralha mais próximo, ó se vão. E isto é para não os atirar de uma ribanceira abaixo, que o ambiente não merece.

 Peças de decoração que não nos respeitam, tal como as pessoas que não nos respeitam, só têm um destino: rua. Não vale a pena apegar-se ao tempo investido, nem ao dinheiro gasto, nem aos bons momentos que passámos juntos. Andar às escuras, ninguém merece.



Verdade do dia: a televisão, em duas linhas.



"Televisão: a arte de nos trazerem a casa pessoas que nós não gostaríamos de encontrar na rua"

 Mário Castrim

Pergunto-me muitas vezes se quem vê a Casa dos Segredos e coisas desse jaez, discute o assunto no cabeleireiro ou nas redes sociais e  apoia os "concorrentes" com presentes ou outras manifestações, gostaria de ser vizinho de gente assim.  Ou se seria uma delícia morar ao lado de certas apresentadoras que berram a plenos pulmões. É que tenho para mim que mesmo alguns dos espectadores mais brejeiros não achariam graça. Just thinking.

Monday, April 14, 2014

Verdade do dia: clean.



 "To be always in style, you've got to give up being trendy"

Ontem, enquanto me maçava de morte no supermercado, reparei numa mulher (hesito um pouco em chamar-lhe "senhora" embora acredite que possa perfeitamente ser uma pessoa de respeito que ande mal orientada) que seria atraente se não tivesse...tanta tralha em cima. E lembrei-me da frase supracitada. 

 Era alta e bem constituída, facto realçado por uns pumps pretos, bastante simples mas com tacão de meio metro, que não pareciam nada confortáveis e lhe atrapalhavam o andar já travado por uma saia lápis de pele da mesma cor.

 Nada contra as saias de couro negro - são um dos meus básicos de eleição e dão um ar óptimo se forem de boa qualidade e bem conjugadas  - mas ali fiquei na dúvida se se tratava de couro ou de napa vulgar. Uma t-shirt de manga comprida, preta também, completava o conjunto. Com tudo isto, trazia uma carteira roxa de verniz, com alguns brilhantes, onde se lia "Guess" em letras garrafais.

 E dei comigo a comentar com quem estava ao meu lado "ora aí está a prova de que às vezes o preto compromete". Como é que uma toilette preta do mais básico que pode haver e composta daquilo que me pareceu, não sendo peças de marcas de luxo, pelo menos de qualidade razoável, pode dar mau ar alguém?

 A verdade é que pode. Nem mesmo o preto ( a mais segura das apostas seguras) e uma saia abaixo do joelho ( a mais democrática das bainhas) garantem nada contra tamanhos demasiado apertados, materiais duvidosos e mau styling - neste caso, sobretudo do cabelo e da maquilhagem.

 É que como se não bastasse ser uma mulher grande, o que já de si dá nas vistas, trazer uma carteira de gosto duvidoso e o resto, a pessoa tinha:

 - Unhas de gel;
- Um grande cabelão louro- palha pintado, ondulado, com ar seco de tanta espuma e solto pelas costas abaixo;
- Bronzeado artificial (ou base demasiado escura, não consegui distinguir).

 Para transformar aquele visual em algo mais aceitável bastava seguir o conselho de Coco Chanel: "antes de sair de casa, uma senhora deve olhar-se ao espelho e remover um acessório". E quem diz acessório diz cosmético, ou dar um jeito mais discreto ao cabelo, ou mudar a carteira para outra mais simples e de material nobre. Ter mais do que duas coisas chamativas no mesmo look é o melhor caminho para um aspecto barato.

 Actualmente as mulheres preocupam-se muito em comprar roupa nova, ir ao cabeleireiro, parecer sexy, parecer trendy - mas a mulher que impressiona, que faz todas as outras sentirem-se desleixadas e pouco compostas quando passa, que parece anunciar " dinheiro velho!" a quilómetros é sempre aquela cuja elegância não é chamativa, mas parece vir de dentro: do porte, da pele luminosa e bem tratada, do styling simples, do cabelo polido e brilhante, mas acima de tudo imaculadamente limpo, livre do excesso de produtos, das roupas e acessórios da melhor qualidade que a sua bolsa permite e adequadas à sua figura. Basta ver uma imagem de Grace Kelly ou Jackie Kennedy para perceber o valor das peças intemporais. A qualidade nota-se, e não precisa de estar escrita em letras gordas (nem deve) para impressionar.

  Menos é mais, elegância é recusa. A uma mulher de gosto convém ter o brilho discreto de uma pérola, e não a vista de uma gema de plástico. Além de tudo, a simplicidade dá menos trabalho.



  

Sua Majestade dixit: do dever, essa maçada.


"Nowadays people want glamour and tears; the grand performance. I’m not very good at that. I’ve never been. I prefer to keep my feelings to myself…duty first, self second. That was how I was brought up."
                                            Helen Mirren como SM a Rainha Isabel II, em "The Queen"
De vez em quando aparece um filme que tem tudo para eu gostar dele - neste caso, ser realizado por Stephen Frears, protagonizado por uma das actrizes mais elegantes que nos é dado ver, Dame Helen Mirren, a interpretar uma das Senhoras que eu mais admiro, SM a Rainha Isabel II, tudo isto com um óptimo guião acompanhado de um fidelíssimo figurino. O vestido preto de mangas compridas e justas acompanhado de um simples colar de pérolas, as écharpes Hermès de seda colorida e os raincoats para os passeios no campo... básicos que Sua Majestade usa como ninguém, mas que são intemporais e sempre adequados. 
 Mas frequentemente acontece que, por uma série de razões, acabo por só ver esse filme muito tempo depois, e fico a pensar porque é que deixei que tal coisa acontecesse.
 É verdade que apesar do tema ( salvo seja, pois como disse Oscar Wilde e muito bem, "the Queen is not a subject") já ter sido abordado neste cantinho, um post sobre a Rainha anda prometido por aqui há muito.
 Ainda não vai ser desta porque são vários os tópicos que gostaria de cobrir - nomeadamente, o seu papel durante a II Guerra Mundial, quando, como tantas debutantes de boas Casas inglesas durante esses dias difíceis, assumiu tarefas notáveis  (aprender mecânica, por exemplo) para ajudar ao esforço da nação, detalhe que me faz sempre sorrir quando ouço certas alas feministas murmurar sobre o papel "secundário" e o comportamento "arcaico e submisso"  das mulheres em tais Instituições; ou o facto, esquecido por muito boa gente da minha geração deslumbrada pelas toilettes da recém-chegada Duquesa de Cambridge, de a Rainha ser uma mulher bonita e fascinante que vem de uma família de mulheres exactamente assim: a vida romanesca da sua deslumbrante irmã, a Princesa Margarida, ou a capa da Vogue da Princesa Ana em 1973, no tempo em que as capas da Vogue eram assunto sério, são só dois exemplos da História recente. 
Em todo o caso, o que mais me captou a atenção no filme foi a ênfase colocada nas prioridades de Sua Majestade nestes tempos de pão e circo e hedonismo desenfreado que atravessamos (e que se começavam a desenhar à data, não se sabendo que iria ser muito pior). Não se sabe se a Rainha terá dito o citado acima, mas acredito que tenha afirmado, ou pensado, algo semelhante. 
E pessoalmente, não me podia identificar mais com o espanto da Elizabeth II vivida por Helen Mirren.
 Educada para colocar o dever acima da felicidade pessoal e para que esperassem dela e do povo que representa dignidade, sobriedade e contenção, a Soberana viu-se confrontada com a necessidade, estranha para si, estranha para quem foi criado em certos valores, de mostrar emoções em público, de expor assuntos privados. Porque, como é dito na película, e bem, assistimos a uma "mudança de valores" e não havia como combater o entusiasmo das (queiramos ou não chamar-lhes assim) audiências perante as muito públicas fragilidades, gaffes e desgostos da sua nora rebelde, Diana de Gales. Que a plateia - ou o povo-  passasse a admirar folhetins em vez da estoicidade que devia ser apanágio de uma Rainha, ou de resto, de uma Princesa (de uma Senhora, em suma)  era-lhe no mínimo estranho. 
 Mas é o Mundo em que vivemos, e conseguir esse equilíbrio é um trabalho delicado. Quem foi educado para a discrição e a para lidar com as dores em privado tem certas dificuldades em ser compreendido, mesmo em situações muito mais insignificantes, mesmo num círculo social diminuto. Quem cresceu com os valores dos "vícios privados, públicas virtudes" ou (como a avó me fez decorar desde que comecei a ter dentes) foi treinado para guardar para si os infortúnios, as fragilidades e andar de cabeça erguida na rua, perfeitamente composta, nem que esteja o céu a cair, encontra obstáculos em gerar empatia nos outros. A sociedade actual não está pensada para a dignidade. Perdeu o hábito de maquilhar o sofrimento, de se apresentar ao mundo com boa cara, de resolver discretamente os seus assuntos sem dar brado, sem conceder aos outros o prazer de assistir aos seus desaires. 
 A voracidade, a ambição, o alpinismo social, os namoros, casamentos e nascimentos, a simplicidade exagerada, os tombos, a humildade panfletária ou mesmo ser apanhado por papparazzi em trajos menores, tudo isso é mais facilmente perdoado do que a compostura. Porque pode acontecer a qualquer um...já a dignidade não acontece a todos. Só aos melhores. Há uma obsessão por democratizar, por normalizar, por facilitar, pela abertura, pelo aligeirar da Tradição. 
Porque afinal, é muito mais fácil "identificar-se com" do que olhar para cima. E vivemos na era da facilidade - currículos académicos fáceis, diplomas fáceis, fama fácil, fortuna fácil, milagres baratos, contos de fadas em que a heroína não sofre. Hoje em dia ninguém quer saber de dever, de sacrifício, de esforço. O que se quer é a emoção, o romance. Admira-se "quem é como toda a gente" - chora em público, vai-se abaixo em público, discute na praça pública, erra, tropeça - e não quem é melhor do que nós. Admirar e procurar imitar quem se comporta melhor do que nós é uma maçada, não diverte ninguém. Não é um pulinho à Topshop para comprar o vestido esgotadíssimo e normalíssimo da Princesa da moda. Dá trabalho. E não vende jornais. 
 Here they are, now, entertain them - como diria o grande filósofo Kurt Cobain, que não sabendo lidar com o público, acabou por optar por uma mui pública morte. Que o público adorou até às lágrimas, comme il faut.




Sunday, April 13, 2014

Dica muito útil para arrumar as pessoas na nossa vida. Ou para fora dela.



Sabem a expressão um bocadinho snob, mas verdadeira, que reza "‘if you have to ask the price, you can’t afford it" ?
 Não quer dizer que seja sempre assim - às vezes, mesmo entre produtos de marcas muito exclusivas, há discrepâncias de preços - mas em geral, se alguém precisa de perguntar quanto custa é porque tem, no mínimo, um orçamento controlado. Ou está à procura de um bom negócio, vá.
 Em casa sempre me martelaram que é vulgaridade falar de dinheiro e agora já é tarde para mudar isso, mas a citação serve-nos aqui de alegoria para ilustrar algo menos tangível.

Por vezes acontece uma pessoa afeiçoar-se a outra que tem, bom...ideias um bocadinho distantes das suas. Os opostos podem atrair-se e frequentemente as diferenças são positivas: há diferenças que enriquecem, que complementam. 

 A exemplo, eu só gosto da gema do ovo e calha ter vários amigos que só gostam da clara. Essa é uma diferença que dá jeito, que indica compatibilidade: eu fico com a gema, o outro com a clara e não se estraga nenhum ovo. Combinação perfeita!

 Depois, há as diferenças amigo não empata amigo, que não fazem mal a ninguém: conheço inúmeros casais assim. Ela adora fazer compras e ele, coisa que não surpreende ninguém, abomina. Só de entrar num shopping lhe dão tremores. Por sua vez, ele é doido por carros de corridas e ela não suporta tal coisa. Quando uma quer ir ver as montras e o outro encher-se de adrenalina, cada um vai descansadinho à sua vida, ninguém impõem nada a ninguém e até se dá um espaço saudável, já que a diferença não representa uma ameaça. De igual modo, tenho várias amigas com um estilo distante do meu. Temos outros pontos em comum e desde que não façam/usem nada que me agrida ou que caia mal...aplica-se o bom e velho cada um na sua.

 Por fim, existem as diferenças-aresta: podem ser polidas ou limadas. De diamante em bruto todos temos um pouco, principalmente quando se trata de afectos.
 Vamos imaginar, uma rapariga toda elegante que se apaixona por um rapaz um bocadinho desleixado. Em tudo o resto ele é um amor; sendo um homem razoável, percebe que se calhar não é má ideia deixar a namorada ajudá-lo com o visual. O mesmo acontece com outras coisas que se podem aprender, como as maneiras à mesa. As boas amizades e os bons relacionamentos incitam-nos sempre a ser a melhor versão de nós próprios. Mas também nos obrigam a fazer cedências: conheço não poucas mulheres que, para agradar ao parceiro, começaram a educar-se sobre carros de corridas. E algumas até acabam por gostar.

  O problema são as diferenças profundas, irreconciliáveis, de fundo, que têm a ver com as crenças e valores intrínsecos de cada um. Quanto a essas, muito pouco pode ser feito. 

Vamos então à dica útil que nos trouxe aqui. 

Geralmente as diferenças irreconciliáveis, fracturantes, irremediáveis, que ditam o fim de uma relação que parecia fantástica manifestam-se logo no início, nas pequenas coisas. "‘If you have to ask the price, you can’t afford it". 

Nas relações, se uma coisa qualquer nos horroriza por ser errada, ou imoral, ou de mau gosto e o outro não vê mal nenhum nisso...aí o caso está mal parado. Se o outro  pergunta, muito espantado "mas que mal é que isso tem?", se é preciso explicar, discutir, perder tempo a enumerar e racionalizar porque é que uma coisa tão óbvia é inaceitável, feia ou errada, isso indica que os dois vêm de lugares muito diferentes, de perspectivas inteiramente díspares da vida. Se tem de perguntar isso, é porque nem vale a pena responder. Não ia perceber mesmo.
  
 Quando é o caso, mais vale não gastar latim, nem perder tempo a tentar converter o outro ao lado luminoso da Força. As pessoas que são como nós no essencial, que partilham os mesmos valores, compreendem. As que não compreendem, nem vale a pena inclui-las. É preferível poupar dissabores. Afinal, tempo é dinheiro.

Eu não disse, eu não disse?



Porque estou cansada de avisar que não precisam de se fiar em mim; os disparates que eu digo raramente saem só da minha cabeça, são sempre apoiados em ideias lógicas com pés e dita cuja e sempre que possível, em factos. Às vezes até é monótono ter sempre razão. Da imagem acima só se pode concluir que great minds think alike, mas as pessoas amorosas que me lêem já fizeram o favor de me enviar uma notícia que, surprise surprise, anuncia que os sumos detox não fazem tão bem como isso.
 Também não é preciso ser bruxo para adivinhar esta, creio. Nem ser como a Senhora da BD acima para ter vontade de fugir para trás do sófá perante estes modismos de meter medo a que a carneirada adere toda contente. Eu cá sempre tive medinho de multidões, e de seitas, e de multidões que entram em modo seita piorzinho um pouco.

 Estou mesmo como o outro: nunca me engano e raramente tenho dúvidas.

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