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Sunday, June 17, 2012

Trendy, cosmopolita ou parolo?

Eça, não venha cá outra vez que morre de desgosto!
De há uns tempos para cá, parece que a blogosfera ( e por aí, entenda-se um reflexo da população) pensa que descobriu a pólvora e coisas relativamente banais tornaram-se trendy - a começar pelo próprio termo, que começa sinceramente a entrar-me nos nervos.
Foram os cupcakes, a idolatria dos chefs, o gourmet, o glamour, o "fashion", os macarons, o sushi, a palavra "tendência" (e a necessidade febril de aderir a cada dita cuja) milhares de outras que não me lembro e ultimamente, o brunch - palavra prática (por ser pequena) mas intoleravelmente aburguesada para um pequeno almoço tardio e almoçarado. Não tenho nada contra o brunch - pelo contrário, o facto de estar na moda até me dá jeito. Significa que se estiver fora de casa, já há sítios onde possa tomar o meu pequeno almoço em vez de me contentar com um expresso e um pastel. Também gosto muito de sushi, que antes de estar na moda era um petisco para de vez em quando. Sempre achei que por muito que evolua, que seja considerado o cúmulo da sofisticação, é uma "comida engenhosa" como a pizza e a açorda: foi inventado pelos peixeiros japoneses para que o peixe se conservasse mais tempo da lota para o mercado...
É apenas sushi, nada para se deslumbrar ou para publicar num blog com tanto orgulho como se o próprio Vatel lhes tivesse preparado um banquete a sós com Luís XIV (e lá que fosse...). No fundo, as coisas em si não me incomodam nada: há lugar para cupcakes e macarons, tal como para éclairs e pastéis de Belém. O que me faz espécie é o pedantismo bacoco, pseudo noveau riche , de um novo yuppie pelintra e trapalhão, um embevecimento servil de quem nunca viu nada e se acha na necessidade de alardear "gostos adquiridos" na tentativa desesperada de mostrar "eu já não vivo num subúrbio manhoso, ou na província, sou muito urbano e cosmopolita e sofisticado".  Ou como disse Eça de Queirós, 

"(...) este desgraçado Portugal decidira arranjar-se à moderna: mas sem originalidade, sem força, sem carácter para criar um feitio seu, um feitio próprio, manda vir modelos do estrangeiro - modelos de ideias, de calças, de costumes, de leis, de arte, de cozinha... Somente, como lhe falta o sentimento da proporção, e ao mesmo tempo o domina a impaciência de parecer muito moderno e muito civilizado - exagera o modelo, deforma-o, estraga-o até à caricatura..."


6 comments:

menina lamparina said...

Tão perfeito, mas tão perfeito, que preciso de o partilhar no lamparina. Posso? :)*

Imperatriz Sissi said...

Claro que sim. My pleasure :*

Mrs. D said...

Uma amiga minha mandou-me aqui vir e não me arrependo: concordo plenamente... Para mim, honestamente poucos são os blogs portugueses que sigo porque a maioria do que vejo é mera regurgitação de má qualidade de uma série de coisas banais 'metidas a besta' como dizem os brasileiros. É como dizes, os macarons ou o sushi são bons e gosto mas como as litas, parece que para uma pessoa se poder intitular de blogger (essa coisa que agora está na moda, ao que parece) tem de as meter lá como prova de que é 'blogger à séria'. é tudo tão sem personalidade ou conteúdo próprio que chega a dar dó :(

Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Mrs. D, e agradece à tua simpática amiga por mim :)
De facto é triste, e parece-me um fenómeno recente. Quando dei os primeiros passos na blogosfera ainda se escrevia a valer, e os blogs eram um espaço de opinião, estilo próprio e espírito crítico. Desde que "blogar" ficou na moda multiplicaram-se as imitações- como acontece sempre que algo se torna mainstream - com os resultados que já vimos. A vantagem de me indignar tem sido deparar-me com outras bloggers que partilham a minha opinião! Nem tudo é mau, afinal!

Fiona said...

Simplesmente perfeito este post. Colocaste por escrito muitas das coisas que eu já tinha pensado tantas vezes... E citares Eça de Queirós só mostra que a realidade que vivemos, com os nossos hábitos e as nossas "manias", não são de agora mas tão somente algo tão característico dos portugueses desde há muito.

Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Fiona :). Sim, é uma característica muito nossa. Ouvi dizerq ue tem algo a ver com a herança árabe - a mania de ostentar, doq ue reluz mesmo não sendo ouro, etc.

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