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Wednesday, January 2, 2013

O self made man



“Self Made Man” por Bobbie Carlyle

Ontem, num blog amigo, a propósito de meninas que até conseguem disfarçar - por instantes, claro - a grosseria que lhes é inerente vestindo e penteando-se muito bem,  citava eu o velho dito americano "You can take the girl out of the trailer park, but you can´t take the trailer park out of the girl".


O "fundo" é uma coisa complicada de perder.

Para evitar equívocos, começo por dizer que admiro profundamente as pessoas, homens ou mulheres que se reinventam e que, por  vias honestas, se elevam materialmente além do meio em que nasceram - mas que, mais importante do que isso, têm inteligência e espírito para acompanhar o processo "self made man/woman" com uma evolução interior. 

Esses indivíduos são raros e excepcionais: não só têm espírito empreendedor como uma singular capacidade (bem como a serenidade e humildade necessárias) para assimilar gostos, maneiras de estar, posturas, conhecimentos e vocabulário que os colocam a anos luz do ponto de partida. Muitos são dotados pela natureza de uma beleza patrícia e/ou um intelecto brilhante. Mas mais do que isso, têm delicadeza de espírito para, conforme "sobem na vida" (termo execrável) não caírem nos erros do mau gosto, da ostentação, da mesquinhez ou da vaidade bacoca, própria de quem nunca está à vontade e precisa de provar alguma coisa. 

Repito, no entanto: por desagradável que seja dizê-lo, esses são os casos dignos de nota. Numa sociedade como a nossa, ferozmente materialista, de memória curta, com ignorância compensada a martelo e em que tudo se compra e se vende (menos gosto e educação, mas lá está - os estímulos são tantos que pouca gente repara nisso) uma grosseria ligeira pode passar despercebida. Afinal, o "verniz" superficial  da instrução e dos cartões de crédito está acessível a qualquer um, e tudo se desculpa. Se uma pessoa pode ganhar um reality show assustador e ser considerada uma "celebridade" para quê ser exigente com o comum dos mortais?

A um observador atento, porém, as manobras de disfarce denunciam rapidamente o seu dono. Os sinais são inúmeros: o licenciado que se faz tratar por "doutor" e dá pontapés na gramática, a dondoca que casou bem mas na primeira oportunidade desata aos gritos com os empregados em público (perdendo imediatamente o sotaque cuidadosamente treinado) uma tolerância alarve a divertimentos grosseiros combinada com um pretensiosismo bacoco e artificial...não é por acaso que o bom povo, na sua sabedoria genuína e lúcida, avisa:

                       "Nunca sirvas quem serviu, nem peças a quem pediu" ou " se queres ver o vilão, põe-lhe o chicote na mão"

Depois há, em diferentes graus, o extremo oposto: quem tem `berço´, foi abençoado com um ar racé, tomou chá em pequenino, recebeu a mais esmerada educação  - tudo traços que não se desvanecem facilmente, por muito que a ruína bata à porta de alguém ou atormente uma família por gerações- e ainda por cima, dispõe de meios. Esses, o oposto do "self made man" nascem com um pesado fardo: o de não deslustrar o brilho em que nasceram. 

A um Cristiano Ronaldo da vida, ou a um rapper famoso nascido no bairro da lata, 
 perdoa-se facilmente o deslumbramento, a má criação, o excesso, a ostentação, a entourage ridícula, os modos de playboy desgovernado, as más companhias, as figuras tristes. É um self made man bem sucedido, não daqueles excepcionais (nota-se perfeitamente de onde veio) mas um que se elevou sobretudo no aspecto material. É bom no que faz, não se lhe pede mais, dá-se-lhe o desconto, o público diverte-se com os seus acessos de vedetismo e de má criação. 

Ao seu contraparte bem nascido, exige-se outra coisa: alguma classe na sua rebeldia (enquanto tiver idade para isso - depois, torna-se ridículo) discrição, saber estar, critérios de selecção.

Em suma, os privilégios são leves de ter e pesados de manter. A quem não tem obrigação para mais, não se lhe exige nada além do suficiente para não cair a pique. Tudo se desculpa. 

Que quem nasceu malcriado continue a proceder assim, é natural.

Mas que quem foi super bem criado se rebaixe aos comportamentos de uma heroína de reality show, jogador da bola, cantor pimba milionário ou trolha bêbedo feito comendador, isso já não é aceitável. O mínimo que se pede a quem teve todas as oportunidades é um esforço para dar bons exemplos. Em casos assim, resta esperar que o ditado americano funcione ao inverso (e que o "fundo" acabe por ter mais força, gerando acessos de juízo e boa educação). Ou isso, ou concluir que a genética e o meio têm pouca ou nenhuma influência (em determinadas cabeças, pelo menos) face aos estímulos de uma sociedade que faz vista a grossa a tudo, desculpa tudo e permite tudo, desde que haja dinheiro (novo ou velho, honrado ou não) pelo meio. Mas isso é assunto para outro dia.






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