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Tuesday, February 18, 2014

Nunca cases com um escroque.

Se me perguntarem qual é o meu vestido longo perfeito para eventos de muita formalidade direi provavelmente, sem pensar duas vezes, "o vestido de Madame X".  Mas se falarmos de cores ricas, a minha selecção irá para a maravilha cor de fogo (criada, corrijam-me se estou errada, pela histórica House of Worth) que a socialite e autora nova iorquina Elizabeth Wharton Drexel usa neste retrato de Giovanni Boldini (1868). 
 A beleza da modelo, o primor e requinte do vestido, tudo sugere uma imagem de perfeição. Mas a pobre Elizabeth, que vivia numa gaiola dourada de privilégio e inocência, teve dois grandes desgostos: a morte do primeiro marido...e o segundo que lhe calhou em sorte.

Em 1901 Elizabeth, fragilizada pela viuvez, levava uma vida bastante retirada. Através de amigos comuns conheceu Harry Lehr - um daqueles alpinistas sociais a tempo inteiro que se dedicam à estranha arte de ser recebidos na melhor sociedade, vestir nas melhores casas e jantar nos melhores restaurantes sem gastar um cêntimo, graças às suas palhaçadas e encanto escroque. De nascimento humilde, com agudíssimos complexos de inferioridade e sem um tostão furado, Harry, "the Fun Maker" ficou conhecido por divertir, engraxar, venerar e ao mesmo tempo ressentir-se dos "The Four Hundred" (as únicas 400 "pessoas que interessavam na cidade"); agia de forma mais snob que os próprios snobes, tinha maneirismos ridículos mas como apesar de tudo era bem vindo nas casas mais distintas, havia quem se deixasse enganar pelos seus modos de bon vivant, tomando-o por um bom partido.

                                               
 Quando Harry conheceu Elizabeth, viu que tinha ali a vítima perfeita e não perdeu tempo a fazer-lhe a corte. Ela apaixonou-se e aceitou casar com ele...apenas para ouvir isto na noite de núpcias:


"Dear lady, do you really know so little of the world that you have never heard of people being married for their money, or did you imagine that your charms placed you above such a fate? I must tell you the unflattering truth that your money is your only asset in my eyes."

Acontece que a única mulher por quem Harry se interessava era a própria mãe (que precisava, aliás, de sustentar): teve mesmo a desfaçatez de a desenganar logo ali, dizendo que ela o repugnava. O casamento nunca foi consumado, mas durou 28 anos, até à morte do marido de fachada. Profundamente católica e presa às regras do seu tempo e do seu meio, Elizabeth não se atreveria ao divórcio: vingou-se escrevendo e tendo alguns casos amorosos. Quanto a Arthur, tudo lhe correu às mil maravilhas: sustentado até à morte pelo dinheiro da mulher, empreendia esforços titânicos para ser considerado o arbiter elegantiorum do seu círculo. Sem grande êxito, porém: a crème de la crème tolerava-o por gostar de rir das suas graçolas, mas sabia-lhe a crónica toda e nas costas, fazia questão de o desprezar ou mesmo de lhe dirigir piadas pouco lisonjeiras nos jornais. Tudo na vida é  ilusão e engano, lá dizia o Carlos da Maia.



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