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Saturday, April 26, 2014

Eu cá devo ser uma pessoa muito estranha.


É que tenho dificuldade em divertir-me com algumas coisas que são o máximo para muita gente que conheço. Está certo que os gostos variam e que cada um é como é...mas vejo tantas pessoas a gostar de certas coisas que me pergunto se não pertencerei a uma minoria qualquer.

 Por exemplo, nunca achei graça a festivais de música - o que é esquisito porque adoro música. Mas para começar, prefiro a versão perfeita, acabada, de um disco; e tendo ouvido de tísica como tenho, não gosto de ouvir as canções desfiguradas por improvisos. Fico com medo de me desiludir.

 Depois, estar de pé no meio de uma confusão danada, a levar encontrões da multidão, tudo com um ar bué da fixe e bué da jovem nunca me seduziu. A mãe levava as mãos à cabeça, porque "quando tinha essa idade" não a deixaram ir ver os Genesis e foi um desgosto. 

Num daqueles momentos em que uma pessoa se pergunta se a ordem social do Universo está de patas para o ar, tanto instou comigo, tanto me maçou, que lá conseguiu que eu fosse com duas amigas a um festival de rock aqui perto, na praia. Acedi porque ficava junto ao parque de campismo, com duches decentes e garantia de alguma normalidade.

 Pois bem, eu conto-vos como foi a experiência. 

   Para começar, uma das meninas, que era óptima rapariga e de família que se recomendasse mas na qual toda a gente sofria de uma certa falta de parafusos... não comia nada, era um palito; se a mãe lhe desse dinheiro já sabia que ela ia gastá-lo todo em porcarias em vez de se alimentar.
 Então a senhora não foi de modas e mandou-lhe farnel para vários dias. 

Eu disse-lhe logo que não tinha nada a ver com isso, que tinha trazido dinheiro e que não ia beber o Sunquick que ela tirou do saco com ar triunfal, nem tocar naquele carregamento de Panrico, porque não tínhamos arca para manter nada fresco.

 Mas ela era mais teimosa do que eu, pôs-se a choramingar que não podia levar provas de desobediência para casa... e até ao último dia (em que no auge da exasperação, com as calças a cair-me aos pés, a barriga colada às costas e incapacitada de provar sumo concentrado ou pão de forma por muitos anos fui comprar um frango de churrasco) tive de aguentar aquela ração de combate.

 Ainda assim, fomos aos concertos. Tudo muito divertido até que a meio de uma estrofe que nunca mais me saiu da cabeça (YOU CAN´T CATCH ME. TRY TO CATCH ME IF YOU CAN!!) a multidão se entusiasmou, começou a apertar-nos contra as grades, a minha desaparafusada companheira entrou num dos seus surtos de pânico e galgou as ditas, fugindo alucinada para não mais ser vista até de manhã - catch me if you can...pois.

 Eu e a outra rapariga lançámo-nos atrás dela, cobertas por uma camada tão espessa de poeira como se tivéssemos andado a tomar banho de lama no Woodstock o que vá lá, até estava a condizer com o ambiente. Como se não a encontrássemos, fomos a correr para o duche - o cabelo parecia cimento de tão empastado-e...a água era gelada depois da meia noite. 
 Muitos gritos, maldições e espirros depois, lá nos deitámos. No recinto da festa, um metaleiro berrava para a assistência palavras inspiradoras "EEEHHH...VIVA A LIBERDADE! VAMOS BEBER!!! EU QUERO VER AQUI UMA P*** DE UMA REVOLUÇÃO" e eu a perguntar-me em que buraco tinha vindo cair...

 Na manhã seguinte disse aos meus pais que não queria ter nada a ver com tais diversões "próprias da minha idade" e que ou me vinham buscar, ou eu fugia não com uma banda, mas com o primeiro agrupamento de escuteiros ou se estivesse em maré de sorte, circo que por lá passasse - ameaça tão pouco própria de mim que só podia ser levada a sério.

 Dessa malfadada passeata só ficou uma coisa boa- o livro que comprei na loja do parque de campismo, O Diário de uma Criada de Quarto, que ainda hoje é um dos meus preferidos.

De modo que muito dificilmente me arrastam para concertos, pelo menos se não houver lugares sentados. Sou capaz de ir a uma ópera, festa, a um recital ou a um bar irlandês se for convidada por pessoas chegadas, mas prefiro as reuniões e tertúlias com certa intimidade. Desporto, só em privado. Pagar para fazer vénias a um chef de cozinha ou a um DJ famoso, nem morta.

 É muito difícil eu investir em bilhetes para isto ou aquilo - prefiro os objectos (livros, arte, roupa, sapatos) às "experiências", porque os objectos ficam e posso usá-los uma e outra vez em experiências diferentes, a meu bel talante, sem depender deste ou daquele. E quanto a experiências de grupo, estou bem vacinada, a não ser que seja um grupo de grande confiança...

  Isto para dizer que hoje vi muitos amigos meus todos entusiasmados com uma corrida colorida que cá houve e que empatou o trânsito (logo, os meus afazeres) por um bom bocado. E embora achasse graça à alegria deles, não percebi o apelo de levar com tinta em pó pela cabeça abaixo, ficar com uma aparência entre um Cristo e um figurante de The Walking Dead  para correr à chuva e ao vento com música aos berros e um brasileiro a mandá-los tirar o pé do chão. 

 Alguma piada terá, já que nem bebés que ainda não correm foram poupados à diversão, de carrinho por ali fora e a apanhar frio e tinta  literalmente na moleirinha.

 Cada um é como cada qual, lá dizia a minha avozinha...mas eu devo ser muito esquisita porque o que para alguns é divertimento, para mim é penitência. Sou do Céu, só pode.



4 comments:

That Gal... said...

Completamente de acordo querida... kkkkkkk

A Bomboca Mais Gostosa said...

Tens a certeza de que não somos parentes? Começo a duvidar. Revejo-me em praticamente tudo o que dizes, porque também não sou fã de festivais por aí além e concertos, aos quais só vou se gostar mesmo MUITO da banda em questão.
Quanto a outros ajuntamentos de grupo, também estou fora. E corridas para me sujar toda, nem pensar!

Imperatriz Sissi said...

@That gal, obrigada :D

@Bomboca, olha que se calhar somos. És uma bomboca muito sensata e em boa verdade, tenho tantos primos que tudo é possível!

Paula said...

Deve ser por estas (e por outras) que me identifico contigo.
Festivais nem pensar e quanto a concertos prefiro no CCB ou em salas mais pequenas.
Afinal é bom saber que posso ser ave rara, mas não sou ave única!
vidademulheraos40.blogspot.com.

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