Recomenda-se:

Netscope

Friday, May 16, 2014

Neura legítima, ma non troppo (a cortesia da neura)


A neura é um direito que assiste a todos. 


Há uma certa utilidade em algumas máximas do chamado "pensamento positivo" - porque se estão bem para atletas de alta competição e grandes gestores, não podem ser más de todo.


Cada um as poderá aplicar à maneira, do estilo "quando ponho uma ideia na cabeça nem o diabo me dá volta", (parafraseando a avó) "fake it ´till you make it", "descobre exactamente o que queres, que o universo lá há-de arranjar maneira" (e normalmente arranja- depois é preciso cuidado com o que se pede, mas isso é outro assunto)  "planeia por etapas e festeja cada passagem ao próximo nível" (soa foleiro, mas que ajuda, ajuda) ou "põe as tarefas/objectivos por escrito e vai riscando à medida que os cumpres".

 Tudo tácticas válidas.

Porém, não compro de todo a ideia Polyannesca do pateta alegre que está sempre contente. Isso é no mínimo sinistro. Soa-me a adepto de seita com lavagem ao cérebro, porque ninguém é assim tão bonzinho nem tão controlado no seu estado normal. Serenidade sempre, mas sejamos honestos.

É importante reconhecer as emoções e lidar com elas. Tristeza, raiva, frustração, são sentimentos legítimos. 

Sempre que possível, deverão expressar-se em privado - porque o mundo não deve ver os aborrecimentos íntimos de cada um- mas tenho para mim que camuflá-los é um bilhete só de ida para a doença. 

Quem está mal tem mais é que desabafar, virar o assunto do avesso, lamentar-se, espernear, analisar a questão pelos ângulos mais malucos até que se sinta melhor. É para isso que servem a família, os amigos, o diário, o Padre e, em casos mais específicos, se o assunto não se resolve mesmo, o terapeuta; por vezes o cérebro prega partidas que só um especialista resolve e mais vale tratar a tempo do que dar cabo dos neurónios. 

 Mas atenção, há neura e neura. Até a neura tem regras de cortesia próprias.

 Primeiro: é preciso saber isolar a neura, ou os culpados da neura, para não acabar maluquinho de vez. Ou seja, por mais desesperada que uma pessoa se sinta, precisa de se concentrar na causa: se a culpa é da vida amorosa, ou da carreira que não desenvolve, ou da família que anda desavinda, chore-se por causa disso; há que dizer " só me saem duques" mas nunca - TODA A MINHA VIDA desde que nasci é uma porcaria, a culpa é toda dos outros, eles têm tudo e eu não tenho nada, está TUDO perdido, nunca hei-de ter sorte nenhuma, ai que fado o meu

Ou seja, podemos sentir que uma ou duas áreas da existência não correm bem, mas é logicamente impossível ser TUDO mau. Extrapolar, exagerar, fazer um dramalhão e futorologia já e pedir demasiado da paciência alheia. 

 E isso leva-me à regra número dois da neura bem educada: amigos e familiares têm a sagrada obrigação de fazer de ombro; um dia somos nós o ombro, mais tarde serão os outros. 

E um bom ombro sabe que quem está desnorteado diz disparates, que tudo lhe parece negro, que é preciso carradas de paciência. Mas quem está de neura também tem obrigações: a da gratidão, a da empatia e a de ao menos fingir que as palavras de consolo surtem algum efeito.




  Se o ombro já ajudou em tudo o que podia, se ao fim de duas horas de injecção de ânimo, de "também já passei por isso, verás que não é nada", "às vezes é preciso bater no fundo para voltar para cima", "há males que vêem por bem", e por fim, de tentativas de mudar de assunto completamente infrutíferas a pessoa de neura continua a dizer que está amaldiçoada, que vai ser sempre assim, que "tu não entendes porque sempre tiveste tudo" (fazendo o ombro sentir-se culpado...e parvo) numa atitude de quem já não está só triste mas amargo, ressabiado, zangado com o mundo e prestes a morder em quem lhe quer bem, ignorando até a sugestão "pede mas é uma receita"...isso já é má criação e maldade, nem mais. 

 Em tudo na vida, é preciso saber estar. Até na neura.



No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...