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Tuesday, October 7, 2014

A problemática do "Tomorrow is another day".


Gone with the Wind - tanto o livro, como o filme - é uma das minhas fixações de infância. Sempre achei Scarlett a heroína perfeita, embora esteja mais para anti heroína do que outra coisa.

 É mais corajosa e independente do que muitos cavalheiros, mas não abre mão da sua feminilidade (nem de usar argumentos tradicionalmente femininos!); teve uma educação perfeita, mas foge-lhe o pé para o irish temper que herdou do lado paterno. Tão depressa gere um negócio com pulso de ferro como se perde em fitas, veludos, jóias, festas e toilettes.
 Não sabe o que é o medo, mas tem um lado vulnerável. E faz tudo isso sendo lindíssima, tão delicada como uma flor. Numa época em que a sociedade parece obcecada com "dar poder às mulheres", Scarlett só não é mais popular porque o empowerment da personagem tem uma faceta que não cai bem de acordo com os padrões actuais: ela sabe ser tradicional quando é preciso.

Scarlett está longe de ser uma mulher idealizada: não é a donzela em apuros dos ideais de outros tempos, nem a super mulher de acordo com o ideal dos nossos dias: ela é muito mais complexa do que isso.  É uma personagem realista, que possui a Virtú  segundo Maquiavel: lida com o mundo como ele é, em vez de lutar inutilmente  contra o status quo

 Se a vida lhe dá limões, ela faz limonada e o resto é retórica...

 Ora, é impossível pensar nela sem recordar uma das suas linhas mais famosas:



Quando as coisas ficam realmente pretas (nomeadamente, quando Rhett decide deixá-la precisamente na altura em que ela se apercebe de que o amava) Scarlett sabe que pensar demasiado no assunto é a receita para perder o juízo. Por isso, adia o desespero para o dia seguinte. Dá a si própria tempo para se acalmar e espera que o amanhã lhe traga uma boa estratégia para resolver o problema, ou um milagre, ou qualquer mudança positiva.

 Amanhã tudo pode ser diferente; a nossa mente pode olhar noutra direcção, a roda  girar, os ventos  mudar, os nossos olhos tropeçarem numa solução que estava escondida debaixo do tapete ou simplesmente, suceder que a Fortuna caprichosa tenha guardado uma boa surpresa para nos apresentar no momento certo.

 Mas é fácil não acreditar nisto quando há padrões desagradáveis que se instalam e repetem, ou quando uma situação fica estagnada. Aí, pensar no dia de amanhã é mais um tormento do que um alívio: cai-se  no pânico do amanhã. Sabem, a sensação ingrata de abrir os olhos e pensar "lá vem mais um dia cheio de aborrecimentos! Quem me dera ficar na cama! Que sina a minha, por mais que faça fica tudo na mesma, etc, etc".

 Ora, isso é uma asneira porque se tudo correr normalmente (mal estaríamos!) o amanhã chega na mesma e temos de o aturar quer gostemos quer não. E com tantos acontecimentos aleatórios a dar-se constantemente por esse mundo fora, tanto movimento dos astros, tanto efeito borboleta, tantas infinitas possibilidades, alguma coisa há-de aparecer para salvar o dia. 

Se não for nesse amanhã que é o hoje, será no amanhã-amanhã, ou no depois de amanhã. É errado adiar tudo, menos o desalento: essa é a excepção à regra, e caso para aplicar sem sarcasmo o estribilho do nosso António Variações: é para amanhã/deixa lá não faças hoje/porque amanhã/tudo se há-de arranjar

Não te desesperes hoje, porque amanhã tudo se há-de arranjar.

Ou como dizia a avó, amanhã Deus dará.

Que remédio!








3 comments:

A Flor said...

A Scarlett O'Hara e a Elizabeth Bennet são, desde que me lembro, as minhas heroínas pessoais. Acima de tudo mantêm sempre a calma e fazem o melhor que podem com aquilo que têm. É deste género de senhoras, ainda que fictícias, que se deviam tirar lições; e não de artistas pop desprovidas de classe. Mas isso era tema que dava pano para mangas!

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

A Elizabeth também é fantástica. Cheia de dignidade! Adoro a forma como ela não se deixa deslumbrar por nada nem age de forma diferente só por estar em desvantagem relativamente ao homem de quem gosta. Devia haver workshops para estas coisas, mas acho que vai tarde para muita gente...

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