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Monday, October 6, 2014

Cuidado com a perfeição.


Ontem, quando procurava algo engraçado para ver ao serão, encontrei o filme Coraline -que já tinha curiosidade de ver há uns anos, mas me tinha parecido demasiado sinistro *até* para o meu gosto. 
 Vi e gostei imenso, apesar de ser realmente assustador, até porque quando era pequena passava a vida a inventar "realidades paralelas" (sem o saber, era uma seguidora da "Teoria dos muitos mundos" ) e tinha imensos sonhos altamente estranhos muito parecidos com os da personagem. Algumas dessas "viagens nocturnas" ainda continuam a acontecer hoje, e é sempre uma sensação muito difícil de descrever quando revejo a dormir cenários onde nunca estive na vida real. Dramas de quem tem imaginação.

 Voltando à animação, creio que a maioria conhece a história: a menina Coraline muda-se para uma casa vitoriana no campo e durante a noite, é-lhe dada entrada num mundo paralelo. Uma realidade alternativa exactamente igual à sua, mas onde tudo é estranhamente bonito e isento de contrariedades: os pais são atenciosos, têm todo o tempo do mundo e dão-lhe tudo aquilo que ela quer, a casa e o jardim são uma perfeição cheia de surpresas exóticas, os vizinhos comportam-se como ela gostaria que fizessem. Mas tudo isso é a armadilha de uma bruxa horrível que devora criancinhas e lhes aprisiona as alminhas: se ela lá quiser ficar para sempre, terá de deixar que a bruxa má lhe cosa botões nas órbitas (Vade Retro!) e nunca mais pode voltar para casa. Claro que ela fica com medo e começa a achar que com defeitos ou não, a vida real é a vida real, e que there´s no place like home



 Fiquei cá a pensar na interessante metáfora, ou na moral da história: nós amamos as pessoas como elas são, e em boa verdade não queríamos que tudo fosse diferente.
 Cada um de nós, se fosse abordado pela bruxa, veria uma realidade alternativa lá a seu gosto: quem tem uma relação infeliz, encontraria uma versão de sonho da cara metade; quem enfrenta problemas profissionais, veria uma reforma dourada ou a carreira dos seus sonhos; e assim por diante. Mas tudo isso, se levado ao exagero, pode ser uma armadilha que prende as almas num lugar fora da realidade.

 A vida pode precisar de retoques, mas para agir sobre ela e para não cair um dia na pergunta-mais-triste-do-mundo, que é o "e se...?" ou "se ao menos..." é preciso olhá-la com olhos de ver e considerá-la como ela é; compreender as razões de as coisas serem como são e fazer as alterações possíveis ou, se não se consegue viver com as lacunas ou as limitações, passar a outro cenário. Sendo certo que por vezes, a relva não é mais verde do outro lado e que a perfeição, se existe, pode ter um preço demasiado alto... ou ser muito maçadora.




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