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Monday, June 12, 2017

Frases que são (ou deviam ser) uma morte social





Hoje em dia é muito fácil apanhar, quase sem querer, bengalas de linguagem- algumas péssimas. As expressões sempre foram como a Cantiga da Rua, que vai de boca em boca e é de toda a gente

Porém, antigamente era-se contagiado apenas pelo que se dizia, mais coisa menos coisa, no círculo social de cada um - que sempre era mais limitado do que agora. 

Bastava portanto escolher as companhias e ter algum critério nas leituras e programas de TV para se estar seguro. Actualmente, já não é bem assim: 
 mercê dos social media e de uma interacção mais alargada entre pessoas de toda a sorte de backgrounds, basta ser-se um bocado distraído (ou condescendente) para apanhar o vírus e começar a falar como um (a) desclassificado (a) social.

 Tenho notado a proliferação destes lindos dizeres não só entre as almas danadas que habitualmente os empregam, mas também entre gente decente que de um momento para o outro começa usar  aqui e ali ditos dignos de uma rústica, de uma alpinista social pequeno burguesa, de de um pintas do bairro ou de um carroceiro.  E já não basta evitar palavrões, ou não dizer "o comer", "sanita", "gostoso""miga" e "môr". Vejamos exemplos, que não quero que os meus amigos sofram sem fazer nada para os ajudar.



 O mais certo é alguns deixarem de me falar, mas a falarem assim também não os quero, por isso desculpem qualquer coisinha mas vou avisar e pronto.


Então cá vamos à lista:

"Top!"




Não é uma frase, mas vale por um chorrilho de asneiras. A noite foi top, esse vestido é top, e sei lá que outras variantes. Com três letrinhas apenas se passa de decente a concorrente da Casa dos Segredos.

Com ou sem acordo ortográfico, o meme acima diz quase tudo. Resta acrescentar, passe o óbvio, que "TOP" é um favorito das serigaitas de ginásio/balcão/salão de bairro. Medo que chegue? Missão cumprida.



"Beijo(s) de luz"



Pensem lá convosco (e dêem uma volta pelos facebooks da vida, se não acreditam) se já viram alguma pessoa de bem despedir-se desta maneira. Ná. Tenho a teoria de que este disparate nasceu quando certos salões de beleza manhosos passaram a dedicar-se também aos tratamentos mágicos e esotéricos.

 É no que dá misturar os vapores da laca e do verniz das unhas à falta de verniz de berço e às energias positivas. Depois, serigaita que se preze quer que tudo brilhe, como já vimos por aqui muitas vezes (das unhas aos dentes, passando pelas corridas por isso os beijos também têm de ser brilhosos e luminosos. 

 De todo o modo, nunca digam/escrevinhem/partilhem tal coisa se não querem parecer uma galdéria encalhada que não segura um projecto nem  um marmanjo na vida
 mas (embora se remoa por dentro) anda para aí a pregar O Segredo e o Evangelho segundo S. Gustavo Santos, segundo S.Chagas Freitas e segundo S. Minh´Alma. Credo.



"X meses/anos de ti ( ou "de *nome dos filhos* " ou "de nós")






Esta não sei de onde saiu e nem é que tenha mal, mas é um modismo piroso e
 irritante como o do gin e outros: do nada, desata tudo a usar essa frase em vez de outra qualquer que signifique exactamente a mesma coisa.

 O chavão começou a pipocar entre as Sheilas do bairro para descrever os meses de gravidez ("3 meses de ti, baby") ou para falar dos seus rebentos ("15 meses de ti, baby") mas rapidamente se disseminou entre bloggers, casalinhos pegajosos e até (what the hell?) pais normais. E quanto mais se normaliza, mais força ganha. Em vez de dizerem/escreverem "hoje o meu bebé faz 6 meses" ou "namoramos há um ano", soa-lhes muito mais poético usar "seis meses de ti, baby" (argh) ou "um ano de nós". Regra de ouro: quando na dúvida, ou bem que se cita um autor com provas dadas (e de preferência, bem morto) ou bem que se fala com simplicidade, como gente normal e escorreita. Elegância é recusa. Recusem este salamaleque xaropento, pelas alminhas!


"Deus no comando"




Esta creio que nasceu nas favelas lá do país irmão, onde bandido que se preze anda convertido on e off a qualquer seita evangélica. Faz das suas, vai preso, o pastor lá lhe dá a volta, depois sai da prisão cheio de bons propósitos e até leva a família toda à igreja para conhecer Jesus, mas depois esquece que O conhece de parte alguma e volta a fazer maldades. E isto repetidamente. A dada altura o mânfio chega a convencer-se de que o Criador está ao seu lado enquanto assalta bancos e trafica substâncias ilícitas, e sente-se muito badass por ter intervenção divina nas suas vigarices. E pronto, adopta o lema "Deus no comando". Depois a frase foi-se banalizando nos social media, passou a ser usada por gente *dita* normal,  e acabou por atravessar o Atlântico propagando-se nos rodízios, nos ginásios, nos salões de nails e nas discotecas da kizomba e do funk. Zás, epidemia.

  Seja como for é uma maneira de blasfemar duas vezes: primeiro, invocando o nome do  Senhor em vão e segundo, geralmente usando o nome do Senhor em vão para as próprias conveniências,  nem sempre muito honestas. Ou seja, a malta publica, escreve ou até tatua este estribilho (salvo seja) quando anda a preparar uma maroteira qualquer. Em todo o caso, é deselegante como tudo. E em hashtag a rematar uma provocação virtual qualquer pior se torna, com letra minúscula em Deus e tudo. Deus  me perdoe *persigna-se*.

"Só Deus me julgará/Só Deus pode julgar"



Outra blasfémia e esta já é velha, mas nunca é demais avisar. Só não julga quem é malandro- ter capacidade de julgamento não é necessariamente ser intransigente ou odiento para com os outros. Quem usa essas frases tem quase sempre muitos telhados de vidro, muitos pecadilhos e pecadões porque lá diz o ditado, "quem não deve não teme". 
 De qualquer  forma, esta expressão defensiva e que tresanda a culpa 
 banalizou-se tanto entre malandros do piorio e mulheres de mau porte que é obrigatório fugir dela.


(Tratar os filhos por) Baby B, X, ou Y. Usando só a inicial.


Baby F, Baby M., bABY j. ... de pequenino se torce o destino!

Ainda gostava de saber quem foi a iluminada que se lembrou desta, que a pobre criança fica a parecer um concorrente do Big Brother ou um gangsta rapper de esquina. Li por aí que algumas bloggers muito populares podem ter começado a modinha pretensiosa, julgando que parecia muito chic. FAIL.

Se todo o mundo sabe o nome do pequeno ou da pequena, para quê tratar a cria por Baby M. (Maria,Mariana, Manel) Baby J. (João, Joana) ou Baby C. (Carlitos, Carlota...)? Acham que fica  delicado e anglo saxónico, mas não. É só pindérico mesmo. Pior ainda quando acompanhado de dizeres macarrónicos em inglês macarrónico. 

Em alguns casos, com a educação que vai receber e com os exemplos que vê em casa o pobre petiz acabará mesmo como gangsta rapper ou concorrente de reality shows, mas todo o inocente merece uma chance na vida e não é justo etiquetá-lo ainda de fraldas. Digo eu.

"What goes around comes around"




Geralmente a acompanhar retratos de perfil ou a fazer de sumário nos perfis de qualquer rede social, tipo aviso.

Traduzindo, "sou uma pessoa conflituosa que está sempre metida em confusões- e ainda por cima guardo ressentimentos" ou "sou fácil, envolvo-me com qualquer desconhecido  sem pensar duas vezes, atiro-me de cabeça a julgar que me pedem logo em casamento e depois corre mal. Mas a culpa é dos homens que não prestam! HÁS-DE PAGÁ-LAS CARLÃO, O KARMA NUNCA FALHA".
 Por aí. É uma frase egocêntrica e agressiva que nunca demonstra bons sentimentos, como se não bastasse ser uma frase parola.

"Solteira sim, sozinha nunca"



Como avisam muitos memes sábios por aí, traduzida para português a frase reza "todo o mundo dá uma voltinha comigo, mas ninguém me assume" ou "só presto para amiga colorida/para usar e deitar fora". Mesmo que isso não seja verdade, publicar tal coisa equivale a espantar todo o candidato a relacionamento sério num raio de quilómetros.
  Talvez muita gente empregue o chavão sem maldade alguma, apenas para indicar que está bem na sua própria companhia e que tem uma vida social e profissional muito interessante, mas no mínimo dá uma imagem de Maria Desmiolada. Há tanta forma de dizer que se está bem com a vida...


"O melhor de mim...está para chegar/por chegar/para vir/já chegou".


Pior, só escrito assim.


Assim, tipo autocarro.

Outra que se popularizou entre quem está para ter filhos ou acaba de ter filhos. É lamechas, é sentimentalona e dá a entender que a pessoa é  tão desocupada, ou com uma existência tão cheia de insucessos, que a única coisinha de jeito que fez (salvo seja) foi reproduzir-se. 

Sem querer tirar tirar mérito à maravilha que é ter bebés, convém que os pais sejam pessoas minimamente arranjadinhas para receberem um filho- e se o melhor deles é um ser acabado de vir ao mundo e incapaz de se bastar a si mesmo, está ali uma casa bem montada. Depois, não convém deitar foguetes antes da festa. É que o futuro a Deus pertence  e às vezes festejar antes do tempo é mau presságio.  E se "o melhor delas" (ou deles) sai um valente gandim, desses que nem a mãe respeitam? Depois quero ver. Foleiro, pindérico, lamechas e ainda por cima agoirento. Dispensem!


"Lindona"



É um daqueles elogios ranhosos que algumas mulheres dão às "migas". Mas se alguma das vossas amigas escorregar, dizendo-vos um desses, desconfiem que é um insulto. Especialmente se for por escrito e em público. A página da mulher mais elegante, sofisticada e virtuosa vai por ali abaixo assim que um "lindona" aparece nos comentários. Linda, lindíssima, muito bonita, bela, belíssima, dito em qualquer língua, fica sempre bem, mas "lindona?". Nunca em tempo algum. Pior, só chamar "pêga" e nomes de animais de presépio como se fosse tratamento carinhoso.


"Que os dias de felicidade virem rotina".



Era bom, não era? Mas se calhar depois já nem se apreciava. Não sei de que ovo brasileiro se chocou tal máxima, mas aparece imenso a acompanhar retratos de rapariguinhas com mau ar, carregados de filtros e duckfaces. Péssimo. Façam votos de felicidade de outra maneira ou guardem-nos para vocês, pois toda a gente sabe que um desejo expressado em voz alta (ou escrito em público) pode ficar enguiçado. Haja paciência.




Resumindo e baralhando: 

 Infelizmente a vida está cheia de lugares comuns, de banalidades  e de coisas mal escritas...ao menos que tentem variar, c´os diabos!


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