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Friday, October 20, 2017

Whoa, Nelly Furtado! (de como os 30 podem ser maravilhosos...ou uma maçada).


 Nelly Furtado, que tinha andado sumida desde os seus últimos grandes sucessos, reapareceu recentemente em público com um visual muito diferente daquilo a que nos habituou: o seu palminho de cara continua igual, mas de resto está bem mais rechonchuda, com as madeixas negras num corte pixie e -como posso pôr isto delicadamente?- ataviada em roupas ora estilo "matrona" ora demasiado reveladoras, que não vão bem às suas novas "redondezas".





Parece que a cantora luso canadiana teve pouca sorte (ou poucas cautelas) ao chegar aos 30 e muitos. Fiquei um pouco triste por ela, mas não posso dizer que a metamorfose me surpreendesse por aí além.

 Eu explico: primeiro, porque Nelly, como tantas raparigas portuguesas, esteja mais gorda ou mais magra tem uma silhueta de pêra (sempre reparei nesse detalhe, não me perguntem porquê...vício profissional). 




Ou seja, ombros estreitos, peito pequeno a médio, torso esguio, cintura vincada q.b., braços elegantes, e em contraste, pernas, glúteos e ancas mais fortes. E quanto ao biótipo de cada uma, nada a fazer: é preciso trabalhar para manter o que a Natureza deu.




 A silhueta de pêra pode ser esbelta ou mais cheia, ter uma cintura pequenininha ou nem tanto (vide Rihanna) e dentro das duas apresentar uma diferença mais ou menos acentuada do tronco para os membros inferiores. Este é o caso de Nelly, e um tipo de corpo complicado de manter. 




Um deslize e zás! Lá vai tudo para pernas, coxas e derrièrre. O rosto fino de Nelly também ajudou sempre a dar a  ilusão de ela ser mais magrinha do que na realidade era (não que e isso seja defeito, atenção). Depois, Ms. Furtado é bem portuguesa, baixinha, feminina e bonitinha - o que também tem os seus desafios, tanto em termos de fitness como de styling.





Segundo porque benza-a Deus, Nelly Furtado foi abençoada com uma carinha laroca, uns olhos lindos, boa voz e carradas de talento (adorei os seus dois primeiros álbuns e o seu estilo folk; só nunca lhe perdoei aquele disparate de canção da Promiscuous Girl...não  tanto pela imoralidade da coisa mas por a porem a rebolar-se sem grande vontade/ritmo/sensualidade natural, e por a música ter uma letra mesmo sem jeito nenhum - quem é que é sincero ao ponto de tentar sacar uma rapariga num bar dizendo-lhe "anda cá miúda promíscua, que eu sinto-me sozinho?" . E daí já não digo nada...) 




Porém, no que concerne à elegância das toilettes a cantora nunca foi assim tão dotada e devia ter contratado um stylist competente desde o início.




Nunca se soube vestir para o seu tipo;  havia sempre ali um pouco de desalinho, de gosto duvidoso e de pouca noção das proporções, mesmo quando estava magra. 



Comenta-se que um divórcio complicado e alguns quilos a mais depois de ter sido mãe sejam a causa desta mudança, mas eu acho que já era de prever que o cenário não melhorasse com o passar dos anos, a não ser que entretanto a artista se fizesse rodear de profissionais capazes.




A boa notícia para Nelly Furtado é que o "estrago" tem remédio...isto se não engolir esse disparate da "beleza real" que alguns fãs se apressaram a recomendar: as suas feições não incharam nem endureceram, rugas ainda não tem, felizmente não se pôs com intervenções estéticas que lhe alterassem irremediavelmente os traços e parece-me que os quilos a mais são mesmo daqueles "balofos" tipo ar e vento, que desaparecem rápido com dieta e exercício adequados.




 Depois é só deixar crescer o cabelo, por amor de Deus que assim parece uma dona de casa aldeã ou uma feminazi (cabelo curto até pode funcionar em algumas mulheres, mas quando se engorda é mesmo péssima ideia; como ela ainda por cima tem o rosto magro, parece que o corpo fica grande em relação à cabeça) e contratar um stylist digno desse nome que lhe escolha a roupa. 

Outras (como Kelly Clarkson, que desatou a engordar sem remédio ainda nos vinte, Lindsey Lohan, que rebentou com a pele e o resto graças à má vida ou Jessica Simpson, que vive num permanente "efeito sanfona")  não terão a mesma sorte.


Kelly Clarkson

No entanto, há imensas mulheres que se conservam bem ou que nem perderam o seu ar de meninas- exemplo disso são Adriana Lima, Priyanka Chopra, Bianca Balti, Amanda Seyfried, Jessica Biel, Mila Kunis, Jessica Alba, Miranda Kerr ou Blake Lively.


Mila Kunis


Pois é. Os trinta são uma idade complicada para qualquer mulher, seja ela famosa e rica ou a comum das mortais. Podem ser a melhor fase da vida  (a "segunda juventude", se quiserem) ou uma época de transformações indesejadas.

Podemos dizer que os 30 são o que se faz com eles. Ou a factura viva do que se faz antes e durante.

Há quem diga que a beleza de uma mulher atinge o seu auge por volta dos 31 anos, quando as "redondezas da adolescência" afinam definitivamente e as feições se tornam mais distintas, mais polidas, mais femininas.




Por volta dos vinte e muitos/trinta e poucos, uma mulher (se prestou a devida atenção e cuidou de si própria como era suposto) também já aprendeu, à custa de muita tentativa e erro,  qual é a alimentação, o exercício, as rotinas de beleza e o styling que a favorecem, assim como as comidas/hábitos e roupas/maquilhagem a evitar.


Priyanka Chopra

Tudo isso, associado a uma boa genética, faz com que certas mulheres cheguem aos 30 tão ou mais belas (e mais seguras de si) do que eram aos 20. Ou mesmo que as pessoas se admirem quando sabem a  idade de algumas, jurando que não lhes dão mais que 25 ou 28.
Bianca Balti

 Não esqueçamos ainda a sabedoria que é suposto ter-se ganho, um maior poder de compra e certamente, gostos e hábitos mais sofisticados- em suma, um conjunto de factores que contribui para que se seja uma mulher, e não mais uma rapariga.


Há até certas jovens que, nunca tendo dado nas vistas pela beleza e/ou pela elegância quando eram mais novas, chegam a esta idade e desabrocham.

Posto isto, é preciso não descansar nos louros estar ciente de que ao apogeu pode 
seguir-se um rápido declínio ( mesmo nos dias de hoje, em que supostamente os 30 são os novos 20 ) se não houver muitos cuidados, bastante esforço e um bom equilíbrio entre a vaidade e o bom senso: ou seja, jamais tentar competir, nas vestes, nos modos e nos hábitos sociais, com as meninas que mal chegaram à faculdade.


Jessica Biel


Com as alterações hormonais, o stress de gerir carreira, casamento e filhos, a gravidez... a mulher de 30 anos tem diante de si uma corrida de obstáculos e precisa de saber fazer gincana se quiser manter-se igual a si própria. Munindo-se disciplina e conhecimento, tudo se consegue. Lá dizia a outra: como ser elegante? Querendo-o!


Amanda Seyfried, este ano (e de esperanças)

 Depois, há as mulheres que são precisamente o contrário e fazem jus àquele dito machista: "os homens envelhecem como o vinho, as mulheres azedam como o leite"*1**.


 Umas, porque não eram realmente bonitas nem bem feitas - passavam por engraçadinhas graças à frescura da primeira juventude e compunham o ramo com um grande cabelo, roupa reduzida e muita maquilhagem. Depois ou se desleixaram, ou a má genética mostrou a sua verdadeira face e nada se fez para a contrariar,  ou pagaram a factura dos excessos (sol, noitadas, álcool, instabilidade amorosa, junk food, demasiada maquilhagem e cuidados nulos com a pele, etc) e os artifícios, se é que se dão ao trabalho de os manter, já de nada valem.


Jessica Simpson, sempre no estica-encolhe

Outras, porque tendo sido realmente belas aos 20 (traços bonitos, corpo bem proporcionado, boa estrutura óssea, boa pele...) e com o potencial genético para se manterem assim, ou tiveram azar (dificuldade em recuperar após um filho ou dois, problemas de saúde graves) ou exageraram até aos 20 e muitos anos, julgando que nunca nada lhes pesaria: demasiado sol, demasiados copos e cigarros, desgostos amorosos, má alimentação, vida desregrada, desgaste emocional, muita madrugada a festejar até às tantas e a dormir com camadas de maquilhagem, etc, etc, etc.


Balzaquiana em modo "oh tempo volta para trás"

Em ambos os casos, tanto na rapariga engraçadita que perdeu a graça como na beldade que está uma sombra de si própria, é invariavelmente algo triste de se ver. 

A derrocada da beleza faz sempre impressão, especialmente se a mulher em causa está sozinha (e não por opção, ou não vive bem com isso) e carece de bom senso para parar, pensar, lidar com a realidade como ela é e dar a volta à situação. 



Não é muito agradável quando uma mulher que foi linda desleixa a sua feminilidade, ficando transformada apenas em "esposa, mãe e profissional" . Porém, mais deprimente ainda é ver  uma beleza fanada que "ficou para trás" à conta das suas doidices, e que agora vive desesperadamente agarrada aos seus anos de caloira, que se veste como vestia aos 20 e frequenta os mesmos bares dos velhos tempos, tentando desesperadamente competir com as mais novas por umas migalhas de atenção do sexo oposto.




Como ainda não há, pelo menos que se saiba, uma poção milagrosa da eterna juventude, o único remédio é a combinação de serenidade,  esforço e bom senso.

 Quem se preveniu aos 20, tem de redobrar agora os trabalhos- boa hidratação e limpeza da pele (nem todos os bons produtos precisam de custar couro e cabelo; um creme de contorno dos olhos razoável, usado duas vezes por dia, faz melhor efeito do que um caríssimo aplicado uma vez por festa) descanso q.b, cautelas ao quadrado com o sol, equilíbrio emocional, adaptar/intensificar a rotina de fitness, encontrar ou ajustar a dieta adequando-a às necessidades individuais, visitar um bom nutricionista e endocrinologista (já que muitas mulheres nem sonham o mal que as hormonas desarranjadas lhes podem fazer à beleza) e encontrar um look para os seus trinta.


A maquilhagem e o styling não têm de mudar completamente, mas além de ser bom actualizar-se, há inegavelmente um visual para os 20 e outro para os 30. A diferença é subtil, mas existe.




Quem não se cuidou, saiba que ainda vai a tempo: nem todos os danos são irreversíveis. Um bom dermatologista faz muito mais pela auto estima do que trapinhos reduzidos, e não nos esqueçamos de que "somos aquilo que consumimos".

Os vinte já não voltam, mas em boa verdade essa foi uma época de descoberta e incerteza. Quem consegue estar fresca e airosa aos 30, não sente a falta dos seus primeiros anos de adulta, porque agora há tantas mais coisas a desfrutar - uma carreira cheia de desafios, uma família (ou a possibilidade de a constituir em breve), amizades mais sólidas, roupas mais requintadas...é um admirável mundo novo!

Essencial é largar a preguiça, o vitimismo e a auto-negação. Nem dizendo "fazer o quê, o tempo passa", nem achando que nunca passou e que não é preciso fazer nada contra isso...

dizia uma autora muito sábia:Uma mulher deveria tornar-se cada vez mais bela até alcançar a sua beleza definitiva, que manterá a partir daí...".


(*1**sendo que também há homens que azedam depois dos 30 e bastante, mas isso é assunto para outras núpcias).


Palavra (ou insulto) da semana: Rebimbombalho



Certa vez, quando eu e o meu irmão éramos miúdos, andávamos a brincar com a televisão ligada como pano de fundo. Não me recordo qual era a nossa brincadeira, mas estava a dar um daqueles programas (Top qualquer coisa, creio) que passava toda a música popular portuguesa que andasse para aí na boca do Zé Povinho a ganhar discos de platina e que fazia as delícias de todo o emigrante que vinha a Portugal comprar cassetes à beira da estrada- ou seja, tudo quanto era pimbalhada, com letras que eram um autêntico fartote de rir. 

De repente, estacámos e desatámos os dois à gargalhada. É que tocaram uma cantiga tão cómica que conseguia a proeza de se destacar das outras. 




Não me recordo de quase nada (e com imensa pena minha, não consigo encontrar a música para vos mostrar, prova provada de que, contrariamente à crença,  nem tudo anda no Youtube) mas era de um desses grupos muito pitorescos com organistas e bailarinas que vão actuar às aldeias remotas (Renovando qualquer coisa ou Novo não sei quê) e contava a história de uma rapariga muito serigaita que escandalizava toda a gente lá na terrinha porque "ia à discoteca sozinha de perna ao léu" e que fazia o povo dizer " mas cá para mim ela vai/ela vai de rebimbombalho//ela vai de rebimbombalho/ela vai de rebimbombalho".  Assim como quem diz "cá para mim, esta vai acabar mal". 



Foi o descalabro porque o senhor mano sempre conheceu o meu ponto fraco, que é ter um ouvido de tísica e uma memória auditiva de tremer, que ainda hoje me faz decorar refrões e estribilhos mesmo contra a minha vontade. Podem imaginar as vezes que ele me fez cantarolar todas as cantilenas parvas ou ridículas que ouvíamos, por mais que eu tentasse esquivar-me dizendo que já não me lembrava.


- Mas anda lá....canta lá aquela...como é que era? - insistia o mafarrico até me vencer pelo cansaço. 


E  pronto, a cantiga da moçoila que ia de rebimbombalho ficaria definitivamente a fazer parte dessa lista negra de Sissi, a jukebox andante.

No entanto, continuávamos intrigados com o que vinha a ser "ir de rebimbombalho". Tirávamos pela pinta que não devia ser nada de bom, mas nunca tínhamos ouvido tal palavra (e de facto, se a googlarem só aparece como o nome de uma banda folk portuguesa. Existe uma expressão transmontana semelhante, rebimbómalho, mas essa significa algo (sic) "de arrasar").



A avó, que entretanto nos ouvira a trautear aquilo, lá nos explicou o que vinha a ser um rebimbombalho... pelo menos lá na vila dos nossos antepassados, onde o termo era usado como adjectivo pouco lisonjeiro. Ir de rebimbombalho ela nunca tinha ouvido, mas era costume dizer-se, perante uma coisa ou pessoa desarranjada, desleixada ou de maus costumes, enfim, face a uma relaxaria qualquer: "olhem para aquilo...parece um rebimbombalho que para ali anda!". 




Também podemos ser criativos e tentar fazer uma análise etimológica da palavra, vá: "balho" é um termo rural/arcaico para "baile" e "rebimbombar" pode ser alguma corruptela de "ribombar" sugerindo alguma coisa inquieta e barulhenta, desorganizada, levada aos trancos e barrancos. Em suma, uma estúrdia pegada.

Seja como acção ou como adjectivo para classificar alguém ou alguma coisa, ir de rebimbombalho, ou ser/parecer um rebimbombalho não é decerto uma coisa bonita. 




Portanto, seguindo essa ordem de ideias uma mãe ou professora poderá ralhar às crianças dizendo: "olhem que eu não admito cá rebimbombalhos!" ou "esta casa/sala de aula não é um rebimbombalho!". Ou uma jovem poderá dizer a um D. Juan com intenções pouco sérias: vá bater a outra porta, que comigo não há relacionamentos casuais nem rebimbombalhos desse género (ou seja, como quem emprega o termo "farfalho", outra palavra exótica de que já falámos aqui).

Mas também é útil usar a palavra para nos referirmos a uma pessoa mal comportada ou mal apresentada. Portanto, sintam-se livres para, caso tenham necessidade de insultar um desafecto ou de avisar uma pessoa doidivanas, para sacar de um " você é uma desgraça, um rebimbombalho completo!" ou "se continuas por esse caminho, vais de rebimbombalho que é um gosto".


Friday, October 13, 2017

Há pessoas que só respeitam quem as trata mal. É incrível.



Aprendi com a minha família e com a Bíblia- e mais tarde, a ler Maquiavel, Sun Tzu, Mazzarin e outros estrategas - que raramente é preciso ser mau para chegarmos onde queremos. A diplomacia, a gentileza, a bondade, a calma, a paciência e a discrição 
levam-nos mais longe do que uma atitude prepotente de "quero, posso e mando" e do que atalhos desonestos, que têm sempre prazo de validade (veja-se o nosso amigo Sócrates). 

Juntando a essas características a ética de trabalho, o trabalho árduo e o entusiasmo, não há nada que não se consiga fazer.




O tempo confirmou-me essa ideia:  as pessoas mais bem sucedidas com quem tenho privado são o vivo exemplo disso. Quanto mais próximas do topo, mais bondosas e amáveis costumam ser. É nos quadros intermédios que costumam estar os serzinhos insuportáveis: competentes e empenhados q.b ( ou obcecados)  para subirem até certo ponto, mas demasiado impossíveis de aturar para que alguém no seu perfeito juízo os deixe ascender a altos voos ou manter-se lá. Ninguém respeita os brutos.




 O uso da veemência, da força ou mesmo da assertividade deve ser reservado como recurso expressivo para quando já não se vai lá com serenidade, papas e bolos. O bem sempre que possível, o mal sempre que necessário (ou apenas se for mesmo necessário). Ou como dizia o outro, caminha em paz mas leva um cajado bem grande na mão! Lá por uma pessoa ter ética, não quer dizer que seja pateta. Ou como a avozinha me repetia sempre "Deus Nosso Senhor também não gosta que a gente seja palerma!".


E não me tenho dado mal com a abordagem...




No entanto, há sempre alminhas que parecem ter alergia à honestidade e à gentileza: ou seja, quando lidam com gente de bem (mesmo que se tenham dado mal com quem se comporta do modo oposto) em vez de ficarem aliviadas, todas contentes de encontrarem pessoas de confiança, e de as estimarem para não as perderem, decidem abusar. Entram em modo "se me dão o dedo, eu quero o  braço todo". 


E tratam de lidar com os bons como lidavam com os maus- ou pior ainda, pensando que podem porque quem é bom não reclama nem retalia. 




Na cabeça destes entes, bom = a trouxa.  Na sua óptica, só é gentil quem é demasiado cobarde para ser mau; só é honesto quem não tem lata  para ser matreiro; só é educado quem não possui coragem para fazer exigências ou para dar respostas tortas.

Não lhes passa pela ideia que alguém possa ser bom, ser honrado, agir discretamente, fazer pouco barulho, querer o bem de todos e ter palavra, não porque se deixa intimidar ou porque não tem alternativa, mas por simples escolha sua, por hábito de berço e por natureza de carácter. Tomam os outros por idiotas: não lhes ocorre que as pessoas lhes topem os esquemas perfeitamente, apenas prefiram não o demonstrar para evitar um confronto aberto e darem a volta à questão de uma forma airosa. Podemos ser ardilosos e não sermos umas bestas.





Para criaturas assim, as pessoas boas são demasiado boas para ser verdade, logo há que tratá-las com a mesma sem cerimónia que se dedica às pessoas más.

E é mesmo isso que fazem, porque se calhar nunca aprenderam aquela frase de S. Francisco de Sales''Nada é tão forte como a gentileza 
e nada é tão suave como a verdadeira força".

Coitados, só entendem a linguagem da má criação e da trapaça (ou em casos extremos, a linguagem do banano e da bolacha).





O lado positivo disso (já que é impossível evitar totalmente tropeçar em criaturas que só respeitam quem é tão bruto como eles ou pior) é que por vezes, passar por menos esperto do que se é na realidade dá imenso jeito. E ter paciência de Santo, também. Quando os espertalhões julgam que o "bonzinho" não vai fazer nada, que se vai deixar pisar à vontade, já ele, de saco cheio e irremediavelmente roto mas nas suas calmas, metido consigo, preparou uma estratégia para lhes tirar o tapete. 

Quando dão por ela já é tarde; espalham-se ao comprido, sai-lhes o tiro pela culatra, o bonzinho segue alegremente com a sua vida deixando-os na mão e os chicos-espertos têm de voltar a lidar com pessoas que não prestam, que é para aprenderem. O calado vence tudo, era outra frase que a avó me repetia vezes sem conta. 

E isto não é ser sonso, é ser estratégico.

Thursday, October 12, 2017

Divisão de tarefas: as mulheres e a "carga mental"




Por norma e por princípio, costumo estar no mais completo e assumido desacordo com os exageros feministas. Por vários motivos lógicos ( este texto excelente que encontrei explica tudo) mas sobretudo porque quem engole essa cassete se dedica a debater histericamente problemas imaginários em vez de incidir nas questões que realmente afligem as mulheres por esse mundo fora.



Porém, no meio de tanta tinta desperdiçada em artigos patetas sobre "papéis de género" há um assunto que tenho vindo a encontrar mencionado aqui e ali, e que importa assumir que existe: a sobrecarga mental que cai sobre as mulheres no que toca à gestão da casa.





Isto porque não é que os homens não ajudem (vamos partir do princípio que ajudam e já voltamos a isso mais adiante).

 É que há uma diferença entre "ajudar" e "fazer a sua parte" ou entre "cooperar" e ser pró-activo. Esse ângulo subtil tem aparecido nos média aqui e ali: esta crónica de Paulo Farinha relata um exemplo disso em primeira mão e até mesmo publicações Católicas se têm debruçado sobre ele


"O fenómeno da carga mental consiste em pensar sem parar nas coisas que há para fazer, antes mesmo de delegá-las. É pensar em todo o trabalho quase  invisível que faz um ambiente doméstico funcionar, como a preocupação porque logo vai acabar o papel higiénico e é preciso colocá-lo na lista de compras, o medo de se esquecer de marcar consulta médica, lembrar-se de comprar as passagens para as férias…
Para poder dedicar-se a estas coisas, ou inclusive para delegá-las, primeiro é preciso pensar nelas (...) geralmente é só a mulher que tem que pensar em tudo, já que o marido se coloca em atitude passiva e é preciso pedir-lhe para fazer as coisas”.



É certo partir do princípio que, nos dias que correm, um casal em que marido e mulher tenham carreiras fora de casa se vê obrigado a dividir tarefas. E que muitos homens, tendo vivido sozinhos, são óptimos cozinheiros e "donos de casa".

Depois, eu não serei a típica dona de casa de primeira viagem, desorientada com as alegrias domésticas: dificilmente encontrarão alguém mais antiquada do que eu no toca à imagem da mulher que cozinha bem (e que tira alegria disso) que faz por ter a casa organizada e confortável e que adora mimar a cara metade.

Recebi desde muito nova esses valores: não importa o quanto um homem ajude, não importa se a esposa tem governanta e mulher a dias: supervisionar e orientar é um trabalho minucioso que precisa de jeitinho feminino. Os homens adoram ser apaparicados e as mulheres (as do meu tempo e do meio em que cresci e me movi, pelo menos) gostam de apaparicar. Nada de errado nisso.  Igualmente, sou toda a favor da liberdade (ou mesmo do cenário ideal) de a mulher, se a família tiver meios para se dar a esse luxo, ficar em casa a cuidar dos filhos, ou trabalhar apenas em part time. Principalmente se tiver algum rendimento próprio, porque nunca se sabe o futuro e em todo o caso, é sempre melhor contar com autonomia nos gastos quotidianos.


No entanto, ser tradicional não significa ignorar a tal sobrecarga psicológica que está associada aos afazeres domésticos!




Assim como um homem saber cozinhar e limpar não implica, necessariamente, que o fará ao ritmo necessário para uma vida a dois e/ou com filhos.

 A dinâmica de um casal é diferente de viver em casa dos pais, ou para si mesmo (a) e exige uma adaptação que nem sempre é suave.






 Cenários à parte (independentemente do perfil social, com mais desafogo ou menos, com ou sem pessoal doméstico para ajudar e com mais ou menos apoio da família alargada ) a realidade para a maioria dos casais entre os 20 e muitos e os 40 e poucos é ambos trabalharem fora e (hipoteticamente) dividirem as tarefas em casa.

A palavra corrente é que ainda há muito a evoluir nesse sentido. Para mim, partilhar tarefas é uma conclusão meramente lógica. Se nos anos 1950 a mulher ficava em casa o dia todo enquanto o marido trabalhava para pagar as contas, o justo é que cuidasse do lar e dos filhos. Se hoje os dois têm iguais responsabilidades fora de casa, o justo é que dividam as responsabilidades domésticas como adultos conscientes.







Porém , ainda admitindo que isto acontece - que o marido dá a papinha ao bebé, que aspira a casa, que vai às compras, que sabe cozinhar e faz tudo como manda o figurino sem achar que está a fazer um favor em limpar o que sujou- a verdade é que os homens tendem a um certo comodismo. 

Ou seja, até ajudam...mas esperam que lhes digam o que fazer. E às vezes ficam muito admirados por a mulher refilar que isto ou aquilo não está feito.








"Mas então - resmungam eles- custa alguma coisa
 pedir-me para lavar a  louça/ pôr o lixo fora/ levar o cão à rua?".

Ou ainda "mas está aborrecida porquê? Se ela não me disse para fazer isto ou aquilo!"

E não esqueçamos a mania de fazer as coisas, sim senhor, mas apenas ao seu próprio ritmo, quando bem lhes parece, e não quando a necessidade surge, vulgo: "eu já disse que aspirava/limpava e trato disso daqui a bocado/amanhã de manhã".

Ou seja, mesmo no nosso mundo supostamente igualitário, a biologia ataca e o homem tende a ataques de criancice, querendo ser mimado como se a mulher estivesse em casa a tempo inteiro ou, pelo menos, esperando ser orientado naquilo que é preciso. O pior é que planear, decidir, escolher, representa metade do esforço que é preciso para realizar as ditas tarefas. Estabelecer a lista das coisas para fazer, lembrar a cara metade de as levar a cabo e verificar se foram feitas é um trabalho em si mesmo - e um trabalho exaustivo, que faz a mente feminina funcionar como um ábaco o dia todo. Supostamente, eles tendem "a deixar-se levar a partir do momento em que começam uma vida a dois




O que a longo prazo acaba por se tornar opressivo, deixar a  mulher à beira de um ataque de nervos/fanico/esgotamento e na melhor das hipóteses, fazer com que ela caia na tentação de ralhar e murmurar. Muitas mulheres anseiam - por exemplo- pela hora de regressar ao trabalho a full time depois da licença de parto, porque já não podem ver roupa e louça à frente!


O remédio para tal "mini flagelo" reside na comunicação diária, verbal e não verbal; mas também em as mulheres adoptarem uma atitude mais relaxada, não querendo tudo na perfeição e deixando que as consequências/ actos falem mais alto do que muito palavreado. 


Ou seja, primeiro há que chegar a acordo quanto a  quem faz o quê, mesmo que seja em modo "fake it ´till you make it" - assumindo que o acordo poderá não resultar na perfeição ao início.



Segundo, abandonando a atitude "nunca peças a um homem para fazer o trabalho de uma mulher". Se o marido não desempenha as tarefas tão bem como se gostaria, ou na ordem/ritmo que seria de desejar, paciência; é melhor do que nada e só a prática leva à perfeição. 

 Terceiro, é preciso encarar a questão com bom humor. Rir dos desastres é o melhor remédio!  Há dias, regressava eu com o meu mais que tudo do supermercado e dei-lhe à escolha: ou ele tratava da louça e eu arrumava as compras, ou vice versa. Ele, que detesta vivamente a louça mas gosta ainda menos de andar no tétris com o frigorífico e os armários, (apesar de ser muito mais alto e de ter muitíssimo mais jeito do que eu para isso, diga-se de passagem) lá se conformou com o pior dos dois males e pôs-se a lavar os pratos, não deixando de atirar um chiste à bonita forma como as mercearias iam ficar organizadas... devolvi-lhe a graçola e lá continuámos. Mas como desde que o mundo é mundo os homens não sabem fazer nada sozinhos, sempre me ia pedindo que lhe chegasse isto ou aquilo ou tirasse mais aqueloutro da frente.




É claro que eu, impaciente e cheia de sono depois de um dia  caótico, resmunguei se quando eu lavava a louça, por acaso lhe pedia que limpasse o espaço para eu poder trabalhar...e disse que se desembaraçasse porque eu ainda nem tinha descalçado as botas!

Pois não se ficou e desatou a imitar-me, nos seguintes termos:

"Olhem para mim, pobre de mim, sou uma infeliz, sou uma desgraçada...ai de mim, que vou morrer calçada!".


É óbvio que desatámos a rir e acabou ali a má disposição.





 E por fim, em quarto, é vital saber realmente delegar e confiar; por muito que doa deixar a casa menos impecável! Ausentar-se  quando necessário sem preparar tudo, ou deixar por fazer aquilo que de todo não pôde ser acabado, sem sentir culpa, tem mais poder do que muito sermão. Bem dizem os ingleses: aquilo que não pôde ser feito, não era tão importante como isso.






Afinal, como prega o povo, ou há moralidade ou preguiçam todos. Não ter peúgas enroladinhas na gaveta 
 uma vez por festa (e ter de as ir "pescar" ao cesto da roupa lavada pela manhã) ou encontrar a casa num rodilho quando chega, em vez do cenário aconchegante a que se habituou, não mata ninguém - mas terá decerto mais efeito num homem do que pedidos, censuras e ameaças. 

Por vezes é preciso combater uma atitude desfasada dos tempos com outra atitude à moda antiga: ou seja, aplicando o remédio da minha santa avozinha... dar-lhes o desconto que se dá às criancinhas e mostrar, como se mostra às mesmas criancinhas, que as atitudes mandrionas têm por consequência o desconforto.

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